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quarta-feira, 23 de abril de 2014

A Sexta da Paixão em Pitangui

 
Com a fé do povo que caminhava em silêncio, nas luzes das velas, nas orações em voz alta conduzidas pelo Sacerdote,  sob a marcha fúnebre que ditava o ritmo dos passos a procissão seguia pelas ruas enladeiradas do Centro Histórico de Pitangui.

 
A bela encenação teatral da Paixão de Cristo executada nos anos anteriores fez falta. Mas a mistura de cores, cheiros, sons, pessoas, estilos arquitetônicos proporcionou um clima único, bucólico pelas ruas, onde a prática religiosa perpetuou por mais um ano a tradição popular de vivenciar a quaresma, o martírio e a Páscoa (no domingo) na Semana Santa de Pitangui rumo aos 300 anos.
 
 
No meio do povo o Blog esteve presente à celebração, em breve divulgaremos mais coberturas desta Sexta Feira Santa.
 
 Manifestações de fé no largo da Matriz do Pilar.


 

 Fotos desta postagem: Leonardo Morato.



segunda-feira, 21 de abril de 2014

As consequências da abolição na vida de Francisco Botelho

     Esta abordagem não tem por objetivo denegrir a imagem do empreendedor Francisco José de Andrade Botelho, pretendo apenas complementar a biografia deste importante empresário a quem Pitangui muito deve.

     Francisco nasceu a 25 de outubro de 1838 em Carrancas e pouco mais de duas décadas depois já era um comerciante rico na capital do império. Como representante do seu comércio chega a Pitangui e imediatamente se apaixona duplamente, pela cidade e principalmente pela jovem Francisca Álvares da Silva. Já se considerando um pitanguiense após o casamento ele resolve se fixar de vez na cidade e vende sua parte da sociedade que mantinha no Rio de Janeiro. Homem culto e com visão de futuro segue o exemplo dos Mascarenhas (de quem era amigo) que haviam fundado uma fábrica de tecidos onde hoje é o município de Sete Lagoas e resolve montar uma na região de Pitangui, construindo então a 2ª fábrica de tecidos de Minas Gerais, a fábrica de tecidos do Brumado em 1873.

Francisco José de Andrade Botelho

     Quando Francisca morre prematuramente a 3 de agosto de 1886, falece também o entusiasmo de Francisco. O homem alegre, brincalhão e expansivo torna-se deprimido, inconsolado com a perda de sua jovem esposa indo encontrar no álcool um refúgio para sua tristeza. Com a saúde debilitada vai ao Rio de Janeiro em busca de tratamento mas as mudanças pelas quais passava a capital o deixaram ainda mais desolado. Desiludido ele se descuida da fábrica que passa a ter sérios problemas financeiros. Tudo caminhava para um fim de vida que contrastava com a vida esfuziante de Francisco em Pitangui.

Escritura de 1874 que documenta a venda da escrava Ana Francisca a Botelho

     Nada do descrito acima é novidade na biografia de Francisco, cuja vida foi muito bem narrada por Gumercindo Guimarães em obra da década de 1950. A partir de agora trataremos de um assunto que pode ter contribuído para que Francisco não suportasse um volume tão grande de atribulações em sua vida. Lendo os livros de registro que estão no Arquivo Público de Pitangui encontrei várias escrituras de compra e venda de escravos onde Francisco figura como uma das partes. Mesmo pertencendo ao partido liberal, deve-se lembrar que ele era um empresário com uma fábrica grande e que embora se tratasse de uma manufatura que demandasse uma mão de obra especializada, certamente ele fazia uso deste tipo de atividade. Para que a fábrica funcionasse no Brumado um rego de quilômetros de extensão foi aberto para que a água movimentasse o maquinário e com absoluta certeza foi utilizada mão de obra escrava, pois estes já tinham larga experiência adquirida desde os tempos da mineração. Este rego ainda abastece parte da população do Brumado.

Escritura de 1874 que documenta a venda do escravo José a Botelho

     Dentro da fábrica as atividades mais simples e que não exigiam uma especialização certamente eram delegadas aos cativos e nada impede que estes também se especializassem. Embora representassem um investimento alto a manufatura têxtil não era tão desgastante como o processo extrativista e o custo com um escravo era facilmente amortizado ao longo de sua prestação de serviço. Como liberalista Francisco sabia que corria o risco de ficar sem seus ativos e o golpe de misericórdia veio a 13 de maio de 1888 com a abolição da escravatura. Dois meses e dez dias depois, 23 de julho de 1888, Francisco falece em sua fábrica. Seu testamento determinava que todos os seus escravos deveriam ser libertos após sua morte, no entanto, naquele momento, todos aqueles já se encontravam livres.

Vandeir Santos


Nos seus 300 anos as estradas e histórias de Pitangui também são reais.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Dica de Leitura - Pepitas de Pitangui - Sequência

     Dando continuidade ao primeiro trabalho lançado em 2006 (http://www.daquidepitangui.blogspot.com.br/2010/07/dica-de-leitura-pepitas-de-pitangui.html) Raimundo Quildário dos Santos organizou novas informações a respeito do passado recente de Pitangui. Como o autor faleceu em 2009 a família somente agora lançou o livro Pepitas de Pitangui - Sequência,  onde a exemplo do que fez Agenor Lopes Cançado Filho que descreveu aspectos da história pitanguiense ocorridos na primeira metade do século XX, Quildário fez uma abordagem do cotidiano pitanguiense, sua política, sua cultura, seu comércio, suas ruas e seus moradores presentes na segunda metade século e entrando no início do século XXI, porém de forma resumida mas não sem importância. 



     Aqueles que se interessarem em ter em mãos esta importante obra, e/ou também a primeira edição, deverão comparecer à residência da família, rua José Januário Teixeira, nº 227, bairro Lavrado. Os telefones para contato são: (037) 9971 9501 e (037) 8824 9046. O livro custa R$60,00.

Vandeir Santos

Nos seus 300 anos as estradas e histórias de Pitangui também são Reais

Outro olhar: Casarão onde residiu Padre Belchior

Foto: Licínio Filho

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pitangui e as ações municipais para a Instrução Publica, no início da República

Reproduzo abaixo, um fragmento de artigo que escrevi e, que foi apresentado no VVXII Simpósio Nacional de História, promovido pela  Associação Nacional de História (ANPUH), realizado em Natal/RN, em julho de 2013. Este artigo faz parte de minha dissertação para o Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Viçosa, cujo título é "Município, tradição e modernidade: a instrução pública e os limites do projeto hegemônico republicano em Minas Gerais (1892-1907). Para desenvolver este trabalho usei como referência as ações das autoridades municipais em Pitangui, no que se refere à organização da instrução pública durante o período proposto pelo recorte temporal da pesquisa.

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Pitangui e as ações municipais para a Instrução Primária 


Mesmo diante das limitações orçamentárias para a educação podemos perceber que as municipalidades, apesar das disparidades financeiras existentes entre si, paulatinamente respondiam à convocação do Executivo mineiro no que diz respeito à promoção da instrução pública, conforme constatamos no livro de registros da Câmara Municipal de Pitangui, cidade do centro-oeste mineiro, onde também foi desenvolvida parte das pesquisas documentais para este trabalho. Nestes documentos encontramos os registros de pagamentos feitos pelo chefe do Executivo local, que despachava naquela casa legislativa, relacionados à instrução pública, como, por exemplo, o pagamento feito por guia pela “Agência Executiva Municipal”, no valor de 120$000 (Cento e vinte mil réis), efetuado em 17 de abril de 1903, ao “Senhor Cel. Américo Bahia da Rocha, proveniente de allugueis da casa onde funciona a escola de meninas [...]” (CÂMARA MUNICIPAL DE PITANGUY, 1903, p. 4). 

Para ler o artigo, na íntegra, acesse os Anais XXVII Simpósio Nacional de História através do link abaixo:


domingo, 13 de abril de 2014

O ataque das abelhas (parte 2)

Igreja de São Francisco.
Foto: Léo Morato.
 
Que nos desculpem os Santos, mas se tem algo que fazemos aqui no Blog é a mistura do sagrado com o profano, para contar sobre os fatos e histórias de Pitangui, típicos da cultura popular. O ataque das abelhas aconteceu num domingo de Ramos, no adro da Igreja de São Francisco, lá na década de 1980. O causo foi contado por aqui e saiu até no jornal Estado de Minas, mas foi apenas uma versão e hoje divulgamos mais uma. Se você ou algum conhecido estiveram presentes neste episódio, compartilhe conosco para que a história oral seja documentada.


A(s) Igreja(s) vista(s) do Beco.
Foto: Léo Morato.
 
Por William Santiago.
Amanheceu um dia lindo no Domingo de Ramos. Robinho já estava desde as 8 da manhã tomando uma cervejinha na porta da venda do Zé Vovô. A sogra sai de casa, arrumadinha, cheirando a leite de rosas, uma sombrinha no braço, o calor promete ser brabo. Está toda pronta para a procissão e a missa de Ramos na Igreja de São Francisco. Não esconde a ansiedade em rever a igreja de seu coração e de poder participar daquela fervorosa celebração da quaresma. No entanto, seu sorriso se desfaz ao ver o genro bebendo, já àquela hora da manhã.
- Robinho, é por isso que as coisas não dão certo nem pra você nem pra Mari. O casamento de vocês tá andando pra trás. Cadê a religião? Num dia desses, ela já tinha que ter te acordado e te levado pra acompanhar a procissão e assistir à missa. Nem ramo pra benzer ela apanha mais! Fico muito triste, mas Deus ainda vai trazer vocês de volta pra Deus. Tenho fé.
Ele não perde tempo pra tirar sua casquinha:
- Que isso, sogrinha. Tá tão bão aqui! Se eu fosse a senhora, sentava aqui nessa cadeira e a gente ia jogar conversa fora até na hora do almoço, tomando uma cervejinha.
A sogra nem responde. Dá-lhe as costas, sai pisando duro, com raiva do genro, vira a ponta do Beco e desce a Rua São José, rumo da Ladeira do Vinício.
Umas três horas depois, chega um táxi lotado, freia de uma vez na porta da casa da sogra. Ela sobe, amparada pelos outros passageiros do táxi, a cabeça coberta com uma toalha. Logo o alvoroço, os vizinhos todos se ajuntam em frente da casa, os mais íntimos tafuiam pela porta da frente. Cada um dá a sua versão do fato, falando todo mundo ao mesmo tempo.
Robinho, os olhos avermelhados, está sentado na mesma cadeira, na mesma mesa. De diferente no cenário é que já passou da cerveja pra pinga. Já de farol baixo, não entende nada do que está passando. Tenta firmar a vista, a cabeça dá uma vacilada, ele quase escorrega da cadeira. Mas está curioso,quer assuntar o que está havendo. Tenta levantar-se, muda de ideia, senta de novo. Na confusão que se armou, não dá pra saber. O Beco dos Canudos, que estava vazio, de repente se enche de curiosos e ninguém lhe presta atenção. Vira-se para o lado, pede socorro ao Zé Vovô.
- ÔOO Zé, qqqq que tá aa acontecendo?
- Deu um enxame de abelha na igreja do São Francisco, na hora da missa de Ramos, e ela tá toda picada. A cara inchou, tá desse tamanho,mas o médico já tá chegando.
E ele, gaguejando um pouco, se ajeitando a toda hora pra não cair da cadeira, sentencia filosoficamente:

sábado, 12 de abril de 2014

Ainda em tempo: aniversário da Escola Estadual Monsenhor Arthur de Oliveira

No último dia 31 de março, a Escola Estadual Monsenhor Arthur de Oliveira completou 94 anos de existência. No dia do aniversário eu estava fora da cidade e não pude fazer uma postagem, por falta de material.  Mas, nada melhor do que amigos, que estão sempre prontos a ajudar. Conversando com Alcyoni Rios, que trabalha na secretaria do E.E.M.A.O., via redes sociais, pedi que ela me enviasse um pequeno histórico daquele estabelecimento de ensino, o que ela fez prontamente, mas que só agora consegui postar, pois, o tempo tem sido tomado por uma série de outros afazeres.Junto com o texto produzido por Alcyone Rios apresentaremos materiais de nosso arquivo. Enfim, consegui organizar a postagem e, em nome da equipe do Blog "Daqui de Pitanguy" felicito Professores, funcionários administrativos, de serviços gerais e alunos pelo aniversário da escola. 


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HISTÓRICO

Entre os educandários mais antigos, tradicionais e famosos de Minas Gerais encontra-se a Escola Estadual Monsenhor Artur de Oliveira, que desde a sua fundação em 31 de março de 1919, pelo então Vigário Padre Artur de Oliveira.




            A fundação da Escola Estadual Monsenhor Artur de Oliveira se deu sob forma de externato misto e internato masculino e recebeu o nome de Gymnásio de Pitanguy.
Em 1919, ao ginásio foi anexado o Curso Normal, passando o estabelecimento a denominar-se Escola Normal de Pitanguie em 10 de fevereiro de 1922, pelo decreto n. 6.762 a Escola Normal de Pitangui foi equiparada à Escola Normal de Belo Horizonte.



Em 1929, o estabelecimento educacional foi então reconhecido pelo Governo Estadual do Estado de Minas Gerais.
Em 31 de dezembro de 1945, o estabelecimento passou a denominar-se Escola Normal “Monsenhor Artur de Oliveira”, de acordo com o decreto n. 2181 e em 1946 foram instituídos dois tipos de ensino: o Curso Ginasial e o segundo Ciclo do Ensino Normal, de acordo com o Decreto-Lei n. 1873.



Em 11 de dezembro de 1955, o Governo Estadual, pela Lei n. 1395, criou o Curso Científico sendo que o mesmo passou a ser administrado na escola a partir do ano letivo de 1967.
Em março de 1966, o Colégio Comercial “Professora Maria Dolabela” foi oficializado e, funcionando no mesmo prédio do Ginásio Escola Normal de Pitangui, é a ele anexado sob o nome de Colégio Estadual “Monsenhor Artur de Oliveira”, para mais tarde, já em definitivo, ser chamada de Escola Estadual “Monsenhor Artur de Oliveira”.
O curso Científico, Curso de Magistério de 1º Grau e o Técnico em Contabilidade foram extintos em 1998, permanecendo o Ensino Médio Geral.


Hoje a escola oferece além do Ensino Médio e Aprofundamento de Estudos, e Ensino Médio - Educação deJovens e Adultos (EJA).

Alcyoni Rios

Veja também a postagem de Vandeir Santos sobre o aniversário do E.E.M.A.O. acessando o link abaixo:


sexta-feira, 11 de abril de 2014

O início da fotografia 3x4 em Pitangui

     Registrar a imagem de uma ou várias pessoas era um capricho ao alcance de poucos e quando surgiu era uma novidade que atraia a curiosidade de quem até então só podia se valer da habilidade de um excelente pintor para que sua imagem ficasse para a posteridade.
     A fotografia chega primeiramente nas cidades litorâneas, como uma novidade do estrangeiro e no fim do século XIX já era uma arte presente no interior brasileiro e com a popularização no início do século XX, obter uma foto já não era um privilégio dos mais abastados. Aproveitando esta acessibilidade o governo baixa o decreto nº 21.076 de de 24 de fevereiro de 1932 que criava o 5° modelo de título eleitoral que desta vez incluía a fotografia 3 x 4: 


CAPÍTULO I
DO MODO DA INSCRIÇÃO

     Art. 40. O pedido de inscrição é acompanhado: 
a)de três fotografias do alistando;
b)da prova de qualificação, quando requerida (artigo 38, § 2).

      Parágrafo único. As fotografias, com as dimensões aproximadas de três centímetros por quatro, apresentarão a imagem nítida da cabeça descoberta, tomada de frente. 

     Uma quantidade considerável destas inscrições se encontra guardada no Arquivo Público de Pitangui e ao procurar por documentos relativos a minha família me deparei com um detalhe muito interessante. Se com a evolução das técnicas fotográficas a foto 3x4 exigia um fundo neutro, uma iluminação equilibrada, e uma pose formal quebrada, quando muito, por um leve sorriso, no início praticamente não existia nenhuma regra que não fosse a existência de luz bastante para que o registro pudesse ser feito. Desta forma é possível observar que não existia nenhuma preocupação com a preparação do ambiente, provavelmente o equipamento era montado ali mesmo onde se fazia a inscrição, afinal era apenas uma foto para documento. Sendo assim, observa-se que atrás do eleitor existem pessoas conversando, lendo ou aguardando a fez de ser fotografado.
     Em algumas fotos que se desprenderam dos documentos é possível identifica-las como sendo de autoria do Jaafar, fotógrafo que atuava em Pitangui desde 1893.

Eleitora Anézia Fernandes - Arquivo Público de Pitangui

Eleitor João da Matta Rocha - Arquivo Público de Pitangui

Eleitor Vicente Teixeira Bueno - Arquivo Público de Pitangui
     
Publicidade em jornal pitanguiense - Arquivo Público de Pitangui

  Vandeir Alves dos Santos

Nos seus 300 anos as estradas e histórias de Pitangui também são Reais


     

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ao redor do templo nasceu a cidade (3ª parte)

A Matriz e as torres da Igreja de São Francisco.

Esta é a terceira parte da pesquisa histórica que aborda sobre a relação direta entre a edificação de capelas e igrejas no Ciclo do Ouro em Minas Gerais e o processo de urbanização na Capitania. Neste capítulo falaremos sobre a expansão física (fases da construção) das igrejas e da evolução social, administrativa e religiosa, realizadas por meio das irmandades leigas.
 A antiga Matriz e o cortejo religioso. Foto: autor desconhecido.
A evolução física dos templos partia do modelo da igreja de São Roque de Lisboa composto de três partes: o quadrado, o altar mor ao fundo e uma torre lateral ou central. A seguir a planta evolui ganhando as três peças fundamentais: nave, capela mor e sacristia atrás. Depois surgem os dois corredores (grandes paredes laterais) que levam à sacristia ou ao consistório colocados ao lado da capela mor. Essas peças marginais têm relação com as irmandades que necessitavam de espaço para a realização de reuniões mesárias e assembleias. Quanto ao frontispício (fachada) seguia-se o modelo de “um retângulo posto ao alto, três janelas no coro, uma porta de entrada”. Outra característica comum é que as igrejas foram construídas ao longo de muitos anos por etapas, concluídas de acordo com as possibilidades financeiras das irmandades, que viviam de doações. (SALLES, 1982, págs. 49, 50, 51).
 Igreja de São Francisco (reforma 2012). A nave e o frontispício.
Do ponto de vista religioso, administrativo e social as irmandades exerceram um papel preponderante para a igreja e para o Estado, desde o início da ocupação do solo mineiro. A Coroa Portuguesa estimulava a criação destas organizações, para que os seus integrantes custeassem a construção dos templos. Em outras regiões da Colônia, as ordens religiosas europeias como os Jesuítas, Beneditinos, Carmelitas, Franciscanos, etc. é que financiavam a construção de suas igrejas e eram proibidas de se instalar na região mineradora, no século XVIII. A vida religiosa em Minas era fortemente influenciada pelas irmandades leigas que, por meio de esmolas, realizavam obras de caridade e assistência, construíam os templos e compravam os utensílios necessários ao culto. Ou seja, de certa forma as irmandades eram um braço do Estado.

A segmentação social estendia-se à igreja, onde os primeiros colonizadores fundavam a Irmandade do Santíssimo Sacramento reunindo os “homens bons da terra” (a elite) que se encarregavam da construção da Matriz. Em seguida criava-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que era composta por negros e mestiços, mas que também aceitava outros membros que geralmente exerciam funções administrativas pelo fato de saberem ler e escrever. Com a prosperidade nas Minas, outras classes e seguimentos sociais se consolidavam, originando novas irmandades e os altares laterais eram construídos nas igrejas. Mas devido às divergências e antagonismos as corporações desvinculavam-se das Matrizes e construíam suas próprias capelas, conforme relatou o historiador Fritz Teixeira de Salles (1982, pág. 49): “Desenvolve-se a mineração e nasce o grupo dos pardos, consequente das incessantes mestiçagens de renóis com escravas ou índios com brancos. Surgem, então, a irmandade dos pardos e dos pretos nativos, Amparo ou Mercês (esta de crioulos). Continua o processo de estratificação e a classe dos comerciantes (a única profissão economicamente estável) se consolida num status e nascem, então, as Ordens Terceiras, do Carmo e S. Francisco. Estávamos já então, entre 1740, 1750 ou 60”.
S. Francisco (reforma 2012). O altar mor e os corredores que levam à sacristia...

Dentro de seu campo de atuação, as irmandades contratavam artistas para a confecção dos altares de suas capelas e remuneravam sacerdotes pelas incumbências religiosas. Registros historiográficos abordam sobre a ascensão econômica de alguns eclesiásticos, que, pela função social e administrativa da igreja, também exerciam atividades comerciais. Em seu testamento, datado de 1787, o Padre Antônio Pereira Marques, português, morador da Vila de Pitangui declarou: “Deixo à Irmandade do Senhor dos Passos desta vila trinta oitavas de ouro de esmola (...)” (CATÃO, 2011, pág. 176).
Com a decadência do ouro no início do século XIX, ocorre o declínio das Ordens Terceiras e de suas capelas, ocasionando o retorno da população às Matrizes. Em Pitangui, no início do século XX, ocorreu um processo similar. Esta afirmação tem como base o artigo do arquiteto Evandro Rocha Mendes, publicado no jornal Correio de Pitanguy (outubro de 1990) sobre o pós incêndio de 1914. Mendes relatou que o processo de reconstrução da Matriz de Nossa Senhora do Pilar (1915 – 1921) em estilo eclético, dentro de um conceito modernista da época, pode ter influenciado a demolição de quatro capelas em Pitangui (possuidoras de um valioso acervo artístico) entre os anos de 1917 e 1927.

Matriz antiga. Capela do Rosário (no alto) e de N.S. da Conceição (em baixo)
 demolidas no início do séc. XX. Foto: Autor desconhecido.

Esse processo histórico demonstra que: a constituição da malha eclesiástica está diretamente relacionada com a fundação e o desenvolvimento de arraiais e vilas; que as irmandades leigas exerceram um importante papel para a organização social nas vilas setecentistas de Minas; e que a rivalidade e as disputas entre elas influenciaram os estilos de construção das igrejas e o próprio Barroco Mineiro. Em tempo de Quaresma, no ano em que o incêndio da Matriz do Pilar completou 100 anos, identificar quais eram, quais são, como atuavam e ainda atuam as irmandades existentes em Pitangui, será pauta para um próximo trabalho de pesquisa.
Semana Santa de 2011.
Texto e fotos: Leonardo Morato.
 
 
Fonte:
- SALES, Fritz Teixeira. Vila Rica do Pilar - Um Roteiro de Ouro Preto. Editora da Universidade de São Paulo / Editora Itatiaia. Belo Horizonte, 1982.
- CATÃO Leandro Pena (Org.) Pitangui Colonial – História e Memória. Editora Crisálida. Belo Horizonte, 2011.
- Jornal Correio de Pitanguy - edição de nº 83, ano IV, 2ª quinzena de outubro de 1990.
 
Links relacionados (leitura complementar):

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O registro de imigrantes em Pitangui

     Ao colaborar com a reorganização de áreas secundárias do Arquivo Público de Pitangui me deparei com um livro muito interessante. Com o fim da escravidão e com o incentivo do processo de imigração houve um aumento significativo da presença de estrangeiros no país. Com o objetivo de colocar estes imigrantes em condição de igualdade com os brasileiros o governo republicano baixou o decreto nº 58-A de 14 de dezembro de 1889 onde orientava a todas as municipalidades a obter destes estrangeiros uma declaração de opção de nacionalidade onde poderiam se declarar estrangeiros ou naturalizados brasileiros.
     São 63 declarações de pessoas oriundas de 5 nações: Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra e Paraguai. Todos optaram pela nacionalidade de origem. A inexistência dos libaneses neste livro se deve ao fato deles terem chegado a Pitangui no início do século XX, dez anos depois do decreto.

             Decreto nº 58-A, de 14 de Dezembro de 1889

     Providencia sobre a naturalização dos estrangeiros residentes na República.
     O Governo Provisório dos Estados Unidos do Brazil, constituído pelo Exército e Armada, em nome da Nação, considerando que o inolvidável acontecimento do dia 15 de novembro de 1889, assignalando o glorioso advento da Republica Brasileira, firmou os princípios de igualdade e fraternidade que prendem os povos educados no regime da liberdade e augmentam a somma dos esforços necessários ás conquistas do progresso e civilização da humanidade, resolve decretar:
     Art. 1º São considerados cidadãos brasileiros todos os estrangeiros que já residiam no Brazil no dia 15 de novembro de 1889, salvo declaração em contrário feita perante a respectiva municipalidade, no prazo de seis mezes da publicação deste decreto.
     Art. 2º Todos os estrangeiros que tiverem residência no paiz durante dous annos, desde a data do presente decreto, serão considerados brazileiros, salvo os que se excluirem desse direito mediante a declaração de que trata o art. 1º.
     Art. 3º Os estrangeiros naturalizados por este decreto gozarão de todos os direitos civis e politicos dos cidadãos natos, podendo desempenhar todos os cargos publicos, excepto o de Chefe do Estado.
     Art. 4º A declaração a que se referem os arts.1º e 2º, será tomada perante o secretário da municipalidade ou corporação que provisoriamente a substitua, em livro especialmente destinado a tal fim, e assignada pelo declarante e pelo mesmo secretário ou representante da alludida corporação.
     Art. 5º Ficam revogadas as disposições em contrário.
Sala das sessões do Governo Provisório, 14 de dezembro de 1889, 1º da Republica.
Manoel Deodoro da Fonseca.
Aristides da Silveira Lobo.
Segue abaixo a relação dos estrangeiros:


     Na relação abaixo verifica-se que não há a declaração de opção de Braz Megale e nem de Januário Valério, italianos que já se encontravam em Pitangui na época do decreto, é provável que tendo aceitado a nacionalidade brasileira eles não se achavam na obrigação de registrar a opção.



Vandeir Santos

Nos seus 300 anos as estradas e histórias de Pitangui também são Reais