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sábado, 8 de agosto de 2009

Literatura e Memória: Pitangui e seus Escritores

Olá pessoal,
Esta postagem inaugura uma nova coluna do blog denominada "Literatura e Memória", onde iremos postar trechos de romances, crônicas, poemas, enfim, obras de escritores de Pitangui. Se você tem um livro de um autor pitanguiense e quer homenageá-lo entre em contato conosco através dos comentários e teremos grande prazer em reproduzir um trecho da obra por aqui.
Para inaugurar a coluna postaremos a crônica "Sinonímia de Demônio", escrita por Joaquim Patrício, extraída de seu livro "Figuras e fatos de meu tempo", publicado em 1964.

Neste livro Joaquim Patrício resgatava de sua memória fatos ocorridos em Pitangui no primeiro quartel do século XX, ou seja, ente 1901 e 1925. O autor também escreve sobre casos pitorescos ocorridos ainda no século XIX, que ele deve ter ouvindo em rodas de conversas durante sua infância. Então, vamos nos deliciar com esta crônica que nos revela uma Pitangui pitorescamente superticiosa. Realmente um belo "Causo" que o reproduziremos literalmente.

Leia, divirta-se, comente.


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Sinonímia de Demônio

O CAPETA andava assanhado e aparecia toda a noite, pondo a cidade em polvorosa. Não se falava noutra coisa.
Tinha sido visto em diferentes lugares, com chifres, rabo comprido e botando chispas pelos olhos!
Certa feita, deu de persseguir Sinhá Zê, com propostas indecorosas.
Batia-lhe na porta da casinha, nas cavalhadas, e Sinhá Zê, terço na mão, punha a boca no mundo.
Uma noite a coisa foi mais séria e o DIABO ameaçou entrar pelo buraco da fechadura. Sinhá Zê deu gritos feios, de espantar o próprio DEMÔNIO.
Quem acudiu foi João Xoxinho que morava perto e ainda enxergou o ESPÍRITO DAS TREVAS pelas costas, com uma cauda de meio metro.
Pedro Zézinho, ali ao lado, estava tranquilo. Tinha na sala um quadro com a imagem da Virgem do Pérpetuo Socorro, que lhe garantia a casa e a família.
Muita gente (os de mais coragem), se dispunha a passar as noites em claro, à espera do SUJO.
Nicolau Valério foi um deles. Organizou uma "ronda" e logo se verificou que PEDRO BOTELHO estava arranchado no moinho do João Caldas, ao lado do matadouro.
Padre Américo não tomou a coisa muito a sério, mas por via das dúvidas levou para casa a calderinha de água benta, pronto a acudir ao primeiro chamado, exorcismar (sic) e expulsar SATANÁS da cidade, toda vida amparada pela Nossa Senhora do Pilar.
Contava-se que para o lado da Corte, havia uma casa em que, a horas mortas, arrastavam correntes, atiravam esterco, davam gritos horríveis e bradavam contra Deus e os Santos do Paraíso.
O PÉ DE PATO andava furioso, pior que uma fera.
Na casa de D. Eduarda, onde a máquina Singer costurou sozinha, sem ninguém a lhe mover as rodas, organizou-se um jogo de truco para esperar o INIMIGO, mas duas horas da madrugada dispersada a roda, começou a barulheira debaixo do sobrado e para o lado do jenipapeiro.
Acudiu a guarda da cadeia, que ficava pertinho.
Um soldado chamado André, tão valente, que até tinha sido ordenança do Felão, se benzeu, fez o nome do Pai e com a devida cautela, percorreu todo quintal, sem encontrar o COISA RUIM.
ANJO MAU sabia desaparecer quando procurado.
Mas, já dizia minha "Mãe", "um dia a casa cai". Certa noite, já era tarde, saía Félix Turco da casa de uma mulher, no Beco do Canudos, quando encontrou BELZEBÚ, bem em frente à Capela do Bom Jesus. Félix, de religião era druzo e os druzos não têm medo do TINHOSO. Consta que até lhe prestam culto.
Passou-lhe uma gravata, arrancou-lhe os chifres e o rabo e desmascarou o DIANHO.
Com surpresa para toda gente se verificou que o IMUNDO, que andava assombrando a cidade, era um rapaz de boa família, da melhor sociedade serrana. O Jairo tinha-se transviado e andava praticando atos ilícitos irregulares. Como é velho o pleiboísmo!
Desde o momento em que Félix o desmascarou, na Rua da Paciência, nunca mais o MALIGNO apareceu.
SATÃ sumiu e o sossego voltou às nossas ruas.

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Essa história do PERRO, tão mal contada pelo cronista, talvez seja uma fantasia de sua imaginação, conversa fiada de escriba sem assunto.
Talvez seja, talvez não seja...
O TRAPACEIRO é quem sabe.

Fonte:
PATRÍCIO, Joaquim. Figuras e Fatos de meu tempo "contribuição ao estudo da vida social e política de Pitangui no primeiro quartel deste século". Belo Horizonte: Ed. Bernardo Álvares,1964.

 

2 comentários:

  1. Prezados conterrâneos,

    muito boa a idéia de resgatar textos literários de gente da cidade. Dentro do aspecto "História", sugiro também matéria sobre o teatro em Pitangui nas décadas 50 e 60. Meu pai, o Dininho, (Ubaldino Pereira da Fonseca), dirigiu o "Clube Teatral Amador Prof. Sales Couto". O Cine Cetepense era o palco principal. Cetepense originado da sigla da Companhia Tecidos Pitanguiense (CTP). Tem também sua história independente do teatro.

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  2. Olá,
    seja bem vindo ao blog. Ficamos felizes por você ter gostado de nossa iniciativa.Agradecemos também pelas sugestões. Iremos buscar informações e materiais sobe o "Clube Teatral Amador Prof. Sales Couto" e também sobre o Cetepense. Aliás, se você tiver algum material escrito ou fotografias e quiser disponibilizá-los teremos o maior prazer em postá-los por aqui com os devidos créditos.
    Apareça mais vezes.
    Ah... por favor,gostaríamosde saber o seu nome.
    Abraço.

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