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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Literatura e Memória: Pitangui e seus Escritores

Meu amigo Ronaldo Valério, o professor Nadinho, me presenteou com um livro - "Benvinda e outras saudades" - de José Alyrio Mourão, filho de Pitangui, que além de professor é também escritor. Em "Benvinda e outras saudades", José Alyrio Mourão faz uma viagem no tempo e resgata recordações de sua vida em Pitangui através de contos e crônicas com narrativas muito agradáveis, como deve ser a leitura de um bom livro.
Conheça um pouco da obra de José Alyrio Mourão lendo a crônica abaixo retirada do livro já citado acima.


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A ESTAÇÃO

Ouvia-se de longe o apito do trem!
Era uma espécie de termômentro da cidade. Toda ela se movimentava. As pessoas acorriam rumo à Estação. Era uma festa!
O vaivém dos passageiros, os carregadores de bagagem, os curiosos, os vendedores de frutas, doces e sorvetes, garapa, balas, pastéis, roscas, pés-de-moleque e biscoitos que, já naquela época, faziam a fama de Pitangui: "Quem não comeu os biscoitos da Tifina, os pés-de-moleque da Sabina e não bebeu água da mina...?
A locomotiva a vapor, a famosa "Maria Fumaça" da Rede Mineira de Viação (RVM), entrava res folegante e barulhenta pelo atalho que se abriu com um corte na serra. Era uma manobra que facilitava a sua posterior saída rumo ao Velho da Taipa.
Pessoas chegando e saindo com seus guarda-pós que protegiam suas roupas das fagulhas do trem. Os vagabundos, a meninada, os pedidores de esmolas compunham um grupo à parte que se arriscava para entrar na Estação saltando muros ou entrando correndo, segundos antes da locomotiva , quando os grandes portões eram abertos para a passagem da composição. Um tropeço nos trilhos e a tragédia estaria instalada, o que, graças a Deus, nunca aconteceu.
Chegava-se à cidade pela Estação, que era a sua porta de entrada. As rodovias não passavam de caminhos ou trilhas, onde os cavalos e algumas jardineiras, que faziam pequenos roteiros, trafegavam. Quase não havia automóveis. Os raros que existiam, além dos "Fordinhos 29" de aluguel, pertencia, aos ricos da cidade.
A Estação era uma cópia de um projeto que se generalizou no interior do país, baseado nas estações portuguesas do século XIX, que, por sua vez, copiavam o modelo europeu.
Um construção simples, embora muito prática e espaçosa, de um visual agradável. Constava da Gare Central onde ficavam o hall de entrada, os guichês de vendda de passagens, duas salas de administração e fiscalização, ladeadas por dois galpões: um guardava mercadorias que chegavam e outro as que eram despachadas. Continuava, à sua direita, com a casa do Chefe da Estação, que fazia parte integrante da Gare. O seu telhado possuía um prolongamento em um dos lados que cobria a plataformade embarque e desembarque de passageiros. Havia ainda uma sequência de armazéns no mesmo sentido da construção principal, onde as mercadorias ficavam armazenadas.
O movimento era grande, o comércio e a indústria eram fortes. A Companhia de Tecidos Pitanguiense e a Fábrica de Laticínios exportavam para todo o país. A Estação era porta de entrada da cidade, tudo chegava e saía por lá, lembro-me das inúmeras vezes que ia buscar os "Conhecimentos das mercadorias" que chegavam para a loja de meu pai.
No lado oposto aos armazéns, ficavam as cass dos funcionários da Rede, conhecidas como "Residência". Com exceção da casa do engenheiro, que era uma bela vivenda cercada de jardins, as outras eram todas iguais e pertenciam ao complexo da ferrovia.
Cerca de uns quatro anos atrás, viajando pelo interior da Europa, onde a malha ferroviária atravessa vários países, pude aquilatar a tamanha falta de visão dos nossos governantes, sobretudo um a que chama de "estadista", responsável pelo sucateamento e exterminação do nosso sistema ferroviário e hidroviário e a nossa navegação de cabotagem com o fim da "Loyde Brasileiro". No caso de Minas, a situação se torna mais trágica pela falta de hirovias, uma vez que o nosso único rio navegável, o "São Francisco", está agonizante. Tudo isso em favor da indústria automobilística, deixando o país sem outra opção de transporte de baixo custo que não o rodoviário, responsável por um dos maiores índices de acidentes fatais no mundo, com suas estradas esburacadas, mal-feitas e mal-conservadas e o excesso de veículos, sobretudo os de transportes pesados, que deveriam estar sendo feitos por ferrovias.
Pobre país!...
Hoje, quase nada existe mais da Estação da Rede, senão a saudade do apito do trem e alguns galpões que serviam d oficinas de manutenção dos vagões. A antiga Gare Central foi transformada em Estação Cultural, onde se encontram hoje a Biblioteca Pública, salas de conferências, de música e exposições.
A memória da cidade agradece!

Fonte:
MOURÃO, José Alyrio. Benvida e outras saudades: contos e crônicas.1ª ed. Belo Horizonte: Mazza,2001.

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