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quarta-feira, 10 de março de 2010

A Formação da Identidade Pitanguiense - 2ª parte

Esta é a segunda parte do artigo que apresenta uma análise histórica do povoamento de Minas Gerais e que visa fundamentar uma provável hipótese sobre a formação da identidade do povo de Pitangui, tendo como base os acontecimentos que deram origem à Guerra dos Emboabas e os resultados dela decorrentes. Leia a primeira parte.

Os portugueses (ou elite paulista) e os índios nativos

A Guerra dos Emboabas

O conflito teve início quando os Bandeirantes Paulistas “faiscadores” do ouro temiam perder a posse das minas e se sentiam explorados pelos Emboabas que estabeleceram posteriormente os seus negócios (tendas) e praticavam preços abusivos na venda das mercadorais. A situação se agravava por causa de crimes, vinganças e das disputas que eram travadas em uma região sem lei. Conta-se que uma discussão na porta de uma igreja em Caeté (região do Rio das Velhas) transformara-se num conflito armado. Então os Emboabas chefiados pelo portugues Manuel Nunes Viana (dono de muitas fazendas de gado) expulsaram da região de Sabará e Caeté os Paulistas chefiados por Manuel de Borba Gato (um dos primeiros bandeirantes que descobriram as minas). Nunes Viana fora aclamado ditador e governador das Minas de Ouro. Vários combates foram travados na região do Rio das Velhas e do Rio das Mortes. O mais sangrento ocorreu em 15.02.1709 no “Capão da Traição” (região entre Tiradentes e São João Del Rey), onde as tropas Emboabas (chefiadas por Bento do Amaral Coutinho) renderam 300 paulistas, prometendo-lhes garantir a vida se entregassem as armas, mas os exterminaram quando estavam desarmados. Mais tarde, Manuel Nunes Viana renunciou ao “governo” das Minas em troca de outros favores e títulos (Alcaide-mor e fidalgo: Hábito de Cristo). Após a derrota, os Paulistas migraram para outras localidades, como é o caso de Pitangui.


Índios usados como guias e no transporte do ouro

Os historiadores deixam dúvida sobre quem de fato era o “mocinho” e o “bandido”. Há registro de que Emboabas foi uma revolta do povo contra a prepotência dos Paulistas (?). Por outro lado há registros de que os Emboabas tinham o apoio das tropas Del Rey, porque os Bandeirantes Paulistas eram contrários e dificultavam, de fato, a cobrança do imposto sobre o Ouro. Em síntese, acredito que o conflito foi marcado pela disputada entre a “gente da terra” contra os intrusos e porque toda guerra é na verdade uma luta de classes. O fato é que a Guerra surtil grande efeito político: a criação da Capitania de São Paulo e das Minas de Ouro, separando a região da Capitania do Rio de Janeiro, pela Carta Régia de 9 (ou 23) de novembro de 1709. Do ponto de vista social e cultural, o conflito dos Emboabas promoveu em Minas a substituição do “Sertanista” pelo comerciante. É correto afirmar que a guerra continuou, de forma pacífica, na concorrência entre o minerador e o negociante.


Pitangui - A Velha Serrana

O Povoamento de Pitangui

A identidade mineira firmou as suas raízes a partir da Guerra dos Emboabas. Em Pitangui, a população foi se constituindo na mistura entre os índios da região, os escravos que acompanhavam as expedições e os Bandeirantes que chegaram não só para explorar, mas principalmente para se estabelecerem na terra. Os grandes Bandeirantes Paulistas (Manuel Dias da Silva, Domingos Rodrigues do Prado, Bartolomeu Bueno da Silva, Jerônimo e Valentim Pedroso de Barros, Sulplício Pedroso Xavier e muitos outros) expulsos da região do conflito dos Emboabas descobriram grandes jazidas de ouro em Pitangui (como o do Batatal), tentaram manter a descoberta em segredo e não permitiram a presença dos renóis e forasteiros, ameaçando-os das maiores violências. O arraial foi elevado à Vila de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui, pelo então Governador da Capitania, Dom Braz Baltazar da Silveira, em 9 de junho de 1715. E os conflitos se intensificaram, ora com novos descobridores, ora com as autoridades do Reino, em razão da cobrança do Quinto do Ouro. Na Vila de Pitangui, estabelecera-se o lema: “Quem Pagar Morre”. Esses conflitos culminaram em uma grande batalha em janeiro de 1720, entre as tropas enviadas pelo Governador, dentre elas um pelotão formado por 23 Dragões (a elite da tropa da coroa) e os comandados pelo Bandeirante Domingos Rodrigues do Prado.


A VII Vila do Ouro das Gerais

Naquele ano, a Capitania de Minas Gerais foi desvinculada da Capitania de São Paulo, pela Carta Régia de 21.02.1720 e pelo Alvará emitido pelo Rei de Portugal em 2.12.1720. Há registros de que a separação foi porque a quantidade de pessoas que circulava em Minas e o volume dos negócios eram bem superiores aos de São Paulo. Diante dos fatos, não podemos descartar que os motins de Pitangui (e de Ouro Preto) influenciaram nesse processo. Há relatos que o governador da colônia solicitou o envio de grupamentos armados para pacificar a Vila de Pitangui, com o intuito de fazer valer a cobrança do Quinto Real e de acabar com as insubordinações, haja vista que outros conflitos de menor proporção se sucediam. O grande exemplo deixado pelo tempo do ouro (e que serve como reflexão) é que mesmo com interesses particulares diversos, o povo daqui se uniu em prol de um objetivo comum: a defesa da terra e a valorização do lugar. Com base nos registros históricos, podemos concluir que as circunstâncias nas quais Pitangui fora descoberta e povoada influenciaram o nosso jeito de ser e a nossa identidade. Ou seja, a história explica o amor à terra, o dinamismo e o talento da nossa gente e, acima de tudo, o orgulho de ser pitanguiense.

Rua do Pilar

Fontes:

- FROTA, Guilherme de Andréa. História do Brasil. Volume 1. Rio de Janeiro. Biblioteca do Exército Editora. 1996.

- GOMES, Laurentino. 1808 Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História do Brasil e de Portugal. São Paulo. Editora Planeta. 4ª ed. 2007.

- HERMIDA, Antônio José Borges. Compêndio de História do Brasil. Primeira e Segunda Séries do Curso Médio. São Paulo. Cia Editora Nacional. 49ª ed. 1965.

- MATTOS, Joaquim Francisco de. Liberdade, Ainda Que Tardia – O Sonho dos Inconfidentes, Hasteado por Tiradentes, o Propulsor da Liberdade, que Ainda não Chegou a Nós! São Paulo. Edições Garatuja. 1994.

- TORRES, João Camilo de Oliveira. História de Minas Gerais. Belo Horizonte. Volume 1. Difusão Pan – Americana do Livro. 2ª ed. 1962.

4 comentários:

  1. Muito bom artigo Léo. Gostei da aula de História Mineira.

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  2. Obrigado pela visita Nico!
    Pesquisei uma linha histórica cronológica e juntei as partes até chegar ao talento da nossa gente.
    Um abraço.

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  3. Amei saber mais sobre a história de Pitangui...
    espero q nosso povo continue com esse amor a terra, como ouve no principio de nossa formação!
    Pérola k.

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  4. Concordo com você, Pérola K. E que este sentimento seja manifestado cada vez mais, de forma participativa, nas questões culturais, sociais e políticas em Pitangui!

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