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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Palmeiras de Pitanguy - Monsenhor Bicalho

Semana comemorativa do primeiro aniversário do blog
Mais uma rara obra sobre Pitangui, trata-se de "Palmeiras de Pitanguy", escrito por Monsenhor Bicalho e editado em 1948. No antelóquio do livro, o clérigo argumenta que o dinheiro arrecado com a venda do livro auxiliaria o tratamento dos indigentes da Santa Casa de Misericórdia de Pitangui. Na obra, o autor descreve as Palmeiras de Pitangui, mas também aproveita para ressaltar questões morais ao final de cada capítulo do livro.
A leitura do livro nos permite também conhecer aspectos muito interessantes do cotidiano de Pitangui naqueles dias,como nomes primitivos de alguns pontos da cidade, figuras públicas de destaque no período em que a obra foi escrita. Uma ótima fonte de informações.
Reproduzo abaixo o capítulo IV do livro. Cabe ressaltar que respeitei a grafia original presente na primeira edição, datada de 1948. Tenham uma ótima leitura.





IV
COQUEIROS DA CAPELA DA CRUZ
Da praça fronteira do novo hospital iniciado pelo ex-provedor da Santa Casa de Misericórdia - Dr. Onofre Mendes Júnior - podem-se lobrigar os coqueiros da Capela de São José. A sua origem não é muito remota. Quando cresciam as palmeiras cariocas, nasceram os coqueiros da antiga rua de João Cordeiro. Quando Francisco Rêgo e Antônio de Aquino concluiram a Capela de São José, no Alto da Cruz, enfeitaram a praça plantando os esguios coqueirinhos naquela terra vermelha - a mais estéril e visguenta da cidade.
Vivendo, assim, desde crianças, alimentados da pobre seiva daquele infecundo terreno, alongaram-se muito, ficando esguios e tão secos que se parecem comtuberculosos.Sem nutrição e sem os preceitos higiênicos; pois, naqueles tempos Pitangui não tinha ainda Pôsto de Profilaxia de Higiene, como agora, cujo primeiro chefe foi o Dr. Isauro Epifânio Pereira - contrairam o indicioso morbus.
E já não existiriam mais se não habitassem aquele alto onde respiram bem como os que vivem junto ao Hospital. Dizem os médicos que os tuberculosos devem procurar viver nas maiores altitudes.
Mesmo assim, em constante dispnéia e em franca agonia estão morrendo todo o dia e invocaríam a proteção do patrono dos agonizantes - S. José - ali pertinho, se êles alma tivessem.
De passagem, afirmo que a insidiosa moléstia da tuberculose não existe em Pitangui senão nos pobres coqueiros do Alto da Cruz. Os arrojados e intrépidos paulistas fundaram Pitangui não só por causa das minas auríferas como pela salubridade do clima. Nos atestados médicos que recebia para verificação de óbitos encontrava um caso isolado, anualmente, de tuberculose. A Velha Serrana é uma cidade de clima admirável.
Aqui os tuberculosos de outras cidades encontrariam uma paralisação completa dos seus padecimentos. A água é boa, leve, cristalina e límpida que o Senhor Dom Cabral disse, de uma feita, quando fazia a visita pastoral em Pitangui: "para que se filtrar uma água tão pura e agradável!"
Aqui usa-se filtro por luxo. Os preceitos de higienização que aqui se põem em prática é mais por obediência às medidas rigorosas do Pôsto de Higiêne.
Voltando aos "doentes" da Capela de S. José - os únicos intisicados da cidade - encontro na fisionomia a tristeza de quem vive melancolicamente, sem esperança, sempre a olharem lá das alturas para verdejantes quintais da cidade, invejosos da vida folgazã das palmeiras do Banco Hipotecário.
Desde que aqui nos plantaram, a meio século e uma década, exlamam os esgalgados coqueiros, nunca tivemos uma vitória, um triunfo em nossa vida!
Sempre tristes e surumbáticos nunca em nossos leques pisou um sabiá que, gracioso gorjease!
Nunca ouvimos a modulação dos poetas que o nosso nome cantase!
Jamais tivemos alegria confôrto de vida. Mui raramente alguém volta-se para nós. Receiam o nosso contato.
Tôda a nossa tem sido uma passagem inútil nessas terras do velho da Taipa.
Passamos a nossa vida como espectros. Nada ambicionamos. Não temos ideal. Só desejamos não ser tão mutilados. Vivendo de acôrdo com as nossas disposições, a nossa perspectiva é a morte. é não deixa de ser uma perspectiva elevada.
***
Se há muitas deserções nas fileiras do dever e da virtude é porque muitos vivem como nós, sem ideal, é porque perdem de vista o céu. Fomos feitos para a sublimidade dos ares e ficamos na mediocridade
***
Fomos criados para o céu. O alvo da nosa vida deve ser, portanto, o céu. Não sejamos despreocupados de nossa saúde. Procuremos os lugares salubres. O vigor da saúde contribui para uma vida jovial. Pitangui é um clima admirável. A Capelinha de S. José com seus coqueiros nos faz lembrar o patrocínio de São José na derradeira hora de nossa vida.
Fonte:
BICALHO, Monsenhor. Palmeiras de Pitanguy.1ª edição,Imprensa Oficial, Belo Horizonte: 1948

4 comentários:

  1. Leitura interessante, prof. E a sua síntese descreveu muito bem a obra. O autor ressalta o clima e a qualidade da água pitanguiense... Então vivamos com ideal e sem perder o céu de vista!
    Um abraço.

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  2. é isso aí Léo,
    sutilmente, Monsenhor Bicalho deixou o seu ensinamento.
    Abraço.

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