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domingo, 19 de setembro de 2010

O Motim de 1720, segundo o Professor Morato

Em 1955, o professor Morato foi convidado para escrever um artigo sobre Pitangui para uma edição especial da Revista Acaiaca, publicação mineira já extinta. Esta era uma edição comemorativa ao primeiro centenário de emancipação do município de Pitangui, ocoriido em 1855, quando a vila foi elevada a cidade. O professor Morato, para esta edição especial, produziu um artigo sobre o Revolta de 1720, comandada por Domingos Rodrigues do Prado.
O amigo Manoel Amaral nos enviou o artigo publicado na Revista Acaiaca, e reproduzimos o mesmo nesta postagem.




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“Não é de certo muito possível dar aqui circunstanciadamente descrição perfeita dos acontecimentos de Pitangui, lá pelo ano de 1720, época da revolução do pagamento do quinto do ouro, em que se envolveu o famoso chefe Domingos Rodrigues do Prado; todavia, procurarei dar em poucas palavras, e como me for possível, uma leve idéia dos fatos desenrolados em Pitangui. Devido ao grande atraso com a Real Fazenda, governo português, em 30 e tantas arrobas de ouro, cobradas incessantemente pelos fiscais, os pitanguienses resolveram, em solidariedade aos rebeldes de Vila Rica, contrapor à ganância dos reinóis, com armas nas mãos.Só o poderoso Domingos do Prado possuía uma grande quantidade de homens que ia lá pelos 500 com seus trabucos e suas escopetas escorvadas, à espera dos Dragões (soldados do Conde de Assumar), verdadeiras araras, com suas fardas berrantes e penacho nas cabeças, para impressionar os pobres aventureiros, supersticiosos, mal armados e pior alimentados. A tropa entrou pelo São Joanico, a metade, e pelo lugar hoje denominado Guardas, onde houve algumas arruaças, tendo os nossos guardas ou sentinelas avançadas, lá postadas, fugido para aqui onde avisaram a Domingos do Prado.Os Dragões traziam umas caixas surdas (tambores) colocadas em um animal, de cada lado, onde um soldado vinha batendo com uma batuta, ecoando pelas encostas, o ensurdecedor barulho da lei que se aproximava.Ora, Domingos do Prado, homem arguto além de seu poderio, aliou-se a outros bandeirantes como os irmãos Fraga, que possuíam seus monjolos, no morro que ainda hoje tem o seu nome e a Alexandre Afonso, também rico garimpeiro morador ao lado dos Fragas, ali mesmo naquele desbarrancado que avistamos em caminho do Brumado. Estavam os dois chefes bem preparados para ao lado, de Domingos Prado, resistir os dragões, quando, ao aviso das sentinelas, de que se aproximavam centenas de soldados do Conde de Assumar, foge Domingos Prado para Conceição do Pará, sem dar combate às tropas do governo, abandonando seus leais companheiros Fraga e Alexandre Afonso à mercê dos ferozes dragões.Os irmãos Fraga e Alexandre Afonso, verdadeiros heróis esquecidos da nossa história, não se atemorizaram com a covardia do poderoso Domingos Prado; organizaram a resistência, tendo, Alexandre Afonso, o cuidado de enterrar todo o seu ouro em pó e pepitas, ilegal na época, que montavam em 40 arrobas, em lugar até hoje desconhecido.Também seus escravos o imitaram, com o pouco que possuíam, enterrando o ouro em pó em potes de barro. Com a chegada dos dragões comandados pelo sargento Madureira, foram todos derrotados, suas casas destruídas, salgadas e seus corpos esquartejados, suas cabeças plantadas em paus, para exemplo, pela estrada, dando ao local que hoje ainda conhecemos, o nome de Mato das Cabeças, no caminho que liga esta cidade a Brumado.Depois de dois séculos de existência, a lenda do abastado bandeirante Alexandre Afonso, trouxe aos pitanguienses certa dúvida sobre as 40 arrobas de ouro enterradas entre Brumado e esta cidade. Ninguém encontrou até os dias de hoje o tesouro enterrado..Assim termina a descrição da batalha de 1720 que aconteceu próximo do Córrego Bromado (Brumado) e Córrego do Alexandre Afonso, ao lado do desbarrancado.”


FONTE:
Revista Acaiaca, Edição Especial, Belo Horizonte: Emprensa Oficial,1955,p. 62-64.

21 comentários:

  1. Teimoso que sou, prefiro dar crédito ao que nos conta as cartas que o Conde de Assumar escreveu ao rei de Portugal. "Chegou neste tempo do Rio de Janeiro o Cap. Joseph Roiz de Oliveira com vinte e três dragões montados em mui boa ordem..." Onde o professor arrumou este sargento Madureira ? Nas cartas que solicita reconhecimento aos envolvidos no combate o Conde nunca mencionou este nome.
    Outro detalhe: "...e chegando todos ao rio de São João duas léguas antes de entrar em Pitangui, acharam a Domingos Rodrigues do Prado fortificado..." Duas léguas nos leva a onde hoje é Onça conforme nos afirma também Silvio Gabriel Diniz. Não faz faz sentido dizer que o combate foi próximo ao Brumado. Ali pode ter havido combates secundários, mesmo assim é estranho o Conde não mencionar isto. Ele não não deixaria de mencionar algum detalhe que evidenciasse o esforço de seus homens em por ordem na vila. Acredito que o Professor tenha sido amigo de Agripa Vasconcelos.
    Vandeir

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  2. "Sargento Madureira" era descendente de "Dom Quixote"...vai dizer que vocês não sabiam??!
    Prezados exercitem a imaginação!!
    Abraço a todos!!!

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  3. Caro Vandeir,
    para a nossa sorte a história não há verdades definitivas. Não conheço as fontes consultadas pelo professor Morato, mas acredito que ele deva ter se baseado em alguma fonte histórica documental.
    Enfim...a postagem apresenta a versão defendida por ele, traabalhos acadêmicos futuros baseados em fontes históricas poderão constestá-la.
    Abraço.

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  4. Olá Geraldo,
    piadas à parte, não acredito que o professor Morato estivesse em devaneios quando produziu este artigo.
    Abração.

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  5. Prezado Licínio,

    Concordo com você!!! Só que conhecendo meu avô como conheci, achei que uma "pitada" de bom humor não seria um mão negócio...

    Abração!

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  6. Caro Geraldo,
    bom humor é tudo. Então, tá valendo a piada...rsrsrs.
    Abração.

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  7. O Valdeir é pitanguiense ?
    Por um acaso ele conheceu o Professor Morato ? Acho que ele deveria expôr suas opiniões a respeito da matéria aqui apresentada de forma isenta, sem "achismo" da parte dele. Quanto à teimosia dele, que continue teimoso, mas não seja irônico. Quem é o cidadão para questionar teses do Professor Morato ? Qual fundamento ele utilizou para chegar a esse certeza ? Ele não aponta suas opiniões, ele afirma as suas opiniões. Sempre acompanho esse blog e deixou aqui minha indignação. Provavelmente ele deve ser amigo dos que hoje estão no poder por aí e não foi do Professor Morato, do Agripa e muito menos de Silvio Gabriel.

    Ronaldo Vasconcelos

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  8. Caro Ronaldo,
    está registrada sua indignação.Penso que devemos praticar a tolerância mesmo divergindo opiniões.
    Abraço.

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  9. Não sou Pitanguiense, mas conheço a história da cidade melhor que 99% da população. Eu estudo, corro atrás, não fico esperando qualquer história cair em minhas mãos. Me baseio em cartas escritas pelo governador da província ao rei de Portugal e que estão arquivadas no Arquivo Público Mineiro. São documentos oficiais, existem ! não foram especuladas. Sou amigo de todos aqueles que levam a sério a VERDADEIRA história de Pitangui.
    Atenciosamente,
    VaNdeir - o único contagense em uma família de 13 pitanguienses

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  10. Senhores, primeiramente muito obrigado por dar credibilidade ao nosso trabalho, por meio dos acessos ao blog e dos comentários nas postagens!!!
    O ilustre prof. Morato (que dispensa comentários) inicia o artigo relatando que “Não é de certo muito possível dar... descrição perfeita dos acontecimentos de Pitangui, lá pelo ano de 1720"... E certamente se embasou em alguma fonte para redigir o artigo.
    E o Vandeir, de fato pesquisa a história da cidade e muito tem contribuido com o blog. Mas como disse o prof. Licínio "para a nossa sorte na história não há verdades definitivas".
    Portanto, imprecisões geográficas a parte (2 léguas...), na minha opinião, o mais relevante é a discussão em torno da importante participação de Pitangui na história do páis e sobre a forma aguerrida com que os primeiros colonizadores se estabeleceram por aqui.

    Um cordial abraço a todos.

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  11. DICAS DE LEITURA SOBRE O MOTIM DE 1720:

    TORRES, João Camilo de Oliveira. História de Minas Gerais. Vol. 1. 2ª ed. Belo Horizonte. Difusão Pan – Americana do Livro. 1962.

    VASCONCELOS, Diogo de. História Antiga de Minas Gerais. 4ª ed. Belo Horizonte. Editora Itatiaia. 1999.

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  12. Outra dica: Ocorrências em Pitangui (1713-1721) do HISTORIADOR Teóphilo Feu de Carvalho.
    Os interessados podem me solicitar que envio a digitalização que fiz da obra: vandeir.santos@yahoo.com.br

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  13. Os que tiverem tempo de sobra para ler ROMANCES indico a leitura de Sinhá Braba Dona Joaquina de Pompéu - Romance do Ciclo Agropecuário nas Gerais. A exemplo do que a faz a Rede Globo em suas mini-séries, Agripa Vasconcelos inventa diálogos, distorce a história, cria mitos e lendas que na minha opinião são para tornar a leitura mais agradáve, menos seca que a história real em si, afinal ele não era historiador e sim um romancista. Nas páginas 36 a 40 está toda tese do Professor Morato. Se não foi amigo, pelo menos foi leitor.
    Vandeir -

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  14. Prezado Vandeir,

    O Professor Morato realmente era amigo e leitor do Agripa!Não só do Agripa, mas de todos os tipos de literatura compatíveis ao seu nível intelectual.Penso que não podemos ser radicais a ponto de "julgar" que determinado segmento literário possa ser ou não mais importante.Isso é uma decisão que compete ao seu individualismo. Portanto penso que um bom ROMANCE pode ser uma ótima pedida, isso depende do leitor, de seu estado de espírito e de seu grau de intelectualidade!Grande Abraço!
    Geraldo Morato

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  15. Geraldo,
    concordo contigo, acredito que o Professor tenha sido uma referência cultural para a cidade. A minha preocupação é com o resgate da história de Pitangui a qual nunca recebeu o devido reconhecimento. Os acontecimentos da cidade foram importantes para que se desse início a um sentimento de revolta contra a dominação portuguesa. Necessitamos de divulgar o que realmente ocorreu para que Pitangui ressuscite sua história e tenha sua representatividade reconhecida dentro do panorama histórico que sempre privilegiou somente o ocorrido nas cidades que se situavam ao longo da Estrada Real.
    Nesta luta, esbarro constantemente em meu radicalismo, devido a revolta com o descaso do qual Pitangui não pode ser merecedora. Procure em outra cidade quem, até aquele momento, pegou em armas, matou e morreu opressão da coroa (por mais que Domingos tenha agido por interesses próprios). Não quero diminuir o Professor Morato pelas suas relações com o Agripa, ele já garantiu o seu devido lugar no rol das pessoas ilustres que contribuiram para o desenvolvimento cultural da cidade. Chegou agora o momento de colocar Pitangui em seu verdadeiro lugar na história mineira e brasileira, promovendo o turismo, a cultura, abrindo outros horizontes, enfim, lançando outros olhares sobre Pitangui como o próprio blog propõe. É hora de mudança.
    Um abraço,
    Vandeir

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  16. Pelo menos um depoimento coerente do nosso amigo Vandeir. E gostaria de lembrá-lo que os grandes homens pitanguienses, intelectuais pitanguienses, foram pessoas humildes, foram pessoas do povo, foram pessoas que fizeram história na cidade sem arrogância. Achei seu primeiro depoimento irônico a respeito do Morato. Mas vejo também que você, apesar de não ter nascido em Pitangui, é pitanguiense de coração e busca melhorias para a cidade. Como Leonardo citou acima, é bom termos espaços como este para expôr-mos nossas idéias e também nossas angústias em relação à cidade. Questionar uma fonte da história é natural, criticá-la ironicamente é anti-ético. Ronaldo Vasconcelos

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  17. Isso é maravilhoso meus amigos, discussão de idéias em torno do "Pitanguismo" (Leia-se: orgulho de ser pitanguiense e o amor pela terrinha). Imaginem isso se estender a cada esquina, a cada sala de aula, a cada reunião ou sessão dos nossos três Poderes, a cada buteco e a cada canto dessa cidade!!!

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  18. DICAS DE LEITURA SOBRE OS MOTINS DE 1720 (II):

    "A 'Rochela' das Minas do Ouro? Paulistas na Vila de Pitangui (1709-1721)". Dissertação de Mestrado, Departamento de História - UFMG/FAFICH, 2009. Vagner da Silva Cunha.

    "Pitangui Colonial: História e Memória". Belo Horizonte, Editora Crisálida, 2011.

    Vagner da Silva Cunha

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  19. Apenas para dar uma humilde contribuição, concordo com todos os que disseram que a história de Pitangui ainda merece maiores estudos, mesmo porque as fontes históricas hoje conhecidas e catalogadas ainda são muito incompletas e lacunares. Contudo, a aproximação dos motins de Pitangui com a revolta de Vila Rica de 1720, na minha opinião, é um equívoco. Da mesma forma, nos documentos que pude pesquisar, não há os detalhes acima registrados, sobretudo no que se refere a alguns nomes citados, assim como a esquartejamentos dos culpados etc.
    Enfim, cabe ao leitor a crítica.

    Abraços.
    Vagner da Silva Cunha

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  20. Caro Vagner,
    primeiramente, gostaria de parabenizá-lo pelo artigo publicado em "Pitangui Colonial".
    Quanto ao artigo do professor Morato,penso que as fontes primárias por ele consultadas deveríam ser citadas no artigo da revista Acaiaca e não são.
    Abraço.

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