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terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Motim da Cachaça

O antigo Alambique com destaque para a Roda D'agua.
Fotos: Léo Morato.

Na semana passada postamos sobre o processo de fabricação da Barcelona, uma tradicional cachaça pitanguiense. O intuito da postagem de hoje é mostrar mais um fato relevante na história da Sétima Vila do Ouro. O texto destaca a importância da cachaça como símbolo de resistência e a forma com que o aguerrido povo pitanguiense da época (os estabelecidos na terra) se uniu para reivindicar. Essa iguaria hoje movimenta a economia em Pitangui e pode ser mais bem explorada cultural e financeiramente, por meio do Turismo Rural nas visitas aos alambiques das fazendas centenárias.

O antigo moedor de cana.

A descoberta do ouro nas Minas Gerais trouxe uma infinidade de aventureiros de todas as partes. E para esquentar as noites frias em meio as montanhas, só mesmo o destilado de alto teor alcoólico, a aguardente. Portugal ficou incomodado porque a cachaça tomou o mercado do vinho do Porto e da bagaceira (destilado da casca da uva). Alegando que a bebida prejudicava a extração de ouro nas minas, a Corte proibiu por várias vezes a produção e a comercialização da cachaça. Como não deu certo, Portugal começou a cobrar altos impostos sobre a bebida mais consumida na então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. A aguardente se transformou, portanto em símbolo de resistência à dominação portuguesa, instigando posteriormente o primeiro movimento libertário do país, a Inconfidência Mineira¹.

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Em Pitangui não podia ser diferente. Reproduzimos parte do artigo de Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza², intitulado de “Pitangui, matriz de cidades e de motins”, que fala também do Motim da Cachaça:

O (motim) de 1712, quando Pitangui era ainda arraial, tomou o curioso nome de "Motim da Cachaça". Em 1700 começara a vigorar a cobrança do tributo sobre o ouro cognominado o “quinto”, que Waldemar Ferreira, na sua História do Direito Brasileiro”, define como "um tributo que se pagava à Coroa por todas as tomadas, tesouros ou descobertas, consistente na quinta parte do tomado, inventado ou descoberto". Os seus métodos de cobrança causaram os maiores distúrbios nestas Minas Gerais, levando mesmo o grande historiador Diogo de Vasconcellos, em sua "História Antiga das Minas Gerais", a afirmar; "Os quintos, por sua essência justos, como já se disse, não vexavam tanto os mineiros como a cobrança que deles se fazia." A bem da verdade, deve-se dizer que houve "mineira" resistência a todos os sistemas de cobrança dos famigerados quintos. Os motins de Pitangui têm muito a ver com essa resistência. A historiadora pitanguiense Adelan Maria Brandão, em estudo realizado para a UEMG, em Divinópolis, narra com sabor o pitoresco "Motim da Cachaça". Diz ela: "O arraial entrou em alvoroço com a notícia da cobrança do quinto, trazendo grande descontentamento entre seus habitantes. “E nesse exato momento que entra em cena o famoso Domingos Rodrigues do Prado que, com sua coragem e brutalidade, assumiu a chefia dos descontentes e determinou que ninguém pagasse o quinto”. E ainda com base em Adelan Brandão, vemos que a cobrança do dito imposto gerou um aumento assustador no preço da cachaça, altamente consumida na paróquia. Essa foi a gota d'água (ou a gota d'aguardente ...) para fazer transbordar aquele barril de revoltas. Chefiando o povo revoltado, Domingos do Prado gritava a plenos pulmões: "Não se paga o aumento. A cachaça é gênero de primeira necessidade. Fora o rei!" E a turba, em cortejo desordenado, acompanhava o chefe da rebelião, empunhando garrafas vazias nas quais batiam com garfos e colheres! Antônio Rodrigues Velho, o "Velho da Taipa", autoridade local, quis acalmar a multidão e foi sonoramente vaiado. Não lhe jogaram ovos por pura economia de mineiro ...


1 Fonte: Revista Jornal do Brasil - Circuito da Cachaça de Minas. Impressão Vanguarda Rio S.A. Rio de Janeiro, 2001
2 FIUZA, Ricardo A. Malheiros. Artigo Pitangui, matriz de cidades e de motins. Revista Casa dos Contos - Julho de 2008 - Ano II - N° 5. (Professor universitário, jornalista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Academia Mineira de letras e da Academia Mineira de Letras Jurídicas. Cidadão Honorário de Pitangui).


A caldeira que aquece o Alambique.

Como não conseguimos imagens da época (desenhos, pinturas) utilizamos as fotos tiradas em 23/10/2010, no Alambique da Fazenda Santiago.

9 comentários:

  1. Léo,
    Os motins de Pitangui, fruto da rebeldia dos potentados locais, merecem estudos mais aprofundados. Quem sabe, após a recuperação de nosso arquivo histórico venha à luz mais informações sobre este período tão efervescente da história de Pitangui.
    Parabéns pela postagem.

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  2. Valeu professor! Também acredito que é preciso aprofundarmos na busca de mais informações sobre o nosso passado. Penso que os "achados" históricos podem esclarecer fatos e características da cidade, no tempo atual.
    Um abraço.

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  3. Caro Professor Licínio,
    Estou visitando as páginas "daqui de Pitangui", mas daqui de Guarapari. Parabéns pelo formato, conteúdo e qualidade das postagens.
    Nem precisava falar disso, não é? Partindo do professor competente que sei que é dispensa comentários.
    Mas vai aí uma sugestão: que tal falar também da Sinhá Braba e Maria Tangará, de seus causos e do livro Sinhá Braba? Um abraço,
    Carlos da Locadora

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  4. Olá caro amigo Carlos,
    bem vindo ao blog.Agradeço os elogios, este trabalho, desenvolvido juntamente com o Léo e o Dênio, nos é muito gratificante.
    Suas sugestões são bem vindas, já temos algumas postagens sobre Joaquina de Pompéu e Maria Tangará, quanto ao livro "Sinhá Braba", em breve postarei material a respeito.
    Aproveite bem os dias aí na praia, tome uma gelada e coma um peixe e lembre-se do amigo aqui...rsrsrs...Feliz 2011 para você e família!
    Um forte abraço.

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  5. Como humilde pesquisador da história da região, sobretudo no que se refere aos motins ali ocorridos no início do século XVIII, gostaria muito de saber de quais documentos e registros da época a ilustre historiadora citada retirou os "detalhes" da trama ali relatados (...)

    Vagner da Silva Cunha

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  6. Prezado Vagner, obrigado pela presença no daquidepitangui. Faça contato pelo e-mail do blog, tenho o artigo completo do prof Ricardo Fiuza e posso te passar. Nele você terá um possível acesso à Historiadora em epígrafe.
    Um abraço.

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  7. Entre os diversos motins geralmente motivados por descontentamentos, o de Pitangui foi sobre os altos impostos que recaiam sobre a cachaça, os escravos para suportarem horas dentro de rios mergulhados até a cintura, mesmo no inverno, a cachaça amenizava o árduo trabalho, mesmo os donos eles reconheciam que era necessário a cachaça para suportarem.“Chefiando o povo revoltado, Domingos do Prado gritava a plenos pulmões: Não se paga o aumento. A cachaça é gênero de primeira necessidade. ''Fora o rei!, E a turba, em cortejo desordenado, acompanhava o chefe da rebelião, empunhando garrafas vazias nas quais batiam com garfos e colheres.”

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    1. Prezado Marcos, seja bem vindo e obrigado por encorpar as páginas do Daqui de Pitangui com este comentário bastante pertinente. Pelo que temos pesquisado nas fontes históricas os motins de Pitangui foram muitos. Confira o link http://www.daquidepitangui.blogspot.com.br/2013/11/a-rica-historia-de-pitangui.html
      Em breve teremos novas postagens a respeito. Um abraço.

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