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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Outras riquezas minerais de Pitangui

Parte 3 – Cristal de Quartzo
Somente quem viveu na Pitangui dos anos de 1940 e 1950 tem condições de entender a importância da exploração do cristal para a economia da cidade, inúmeras famílias passaram a viver exclusivamente da exploração deste mineral. Novamente viu-se uma corrida atrás de mais uma riqueza de tão generosa terra.


Cristal retirado no terreno da fazenda Mandassaia

O quartzo é o segundo mais abundante mineral da terra, possui estrutura cristalina trigonal composta por tetraedros de sílica (SiO2) e apresenta-se sob a forma de um prisma de seis lados que termina em uma pirâmide. É encontrado em diversas cores (alocromático) conforme a variedade. O mais comum em Pitangui é o quartzo hialino, variedade cristalina, incolor e transparente, sendo a mais pura forma do quartzo (fonte: Wikipédia).

Vandeir Santos em local de lavra de cristal em terras da
antiga fazenda Mandassaia que pertenceu ao seu avô



É matéria prima para uma infinidade de produtos mas foi a sua propriedade piezoelétrica (capacidade de transformar energia mecânica em elétrica e vice versa) que o tornou fundamental na indústria eletrônica. O Brasil, durante muito tempo, foi o principal, senão o único, fornecedor de quartzo natural piezoelétrico. Até a Segunda Guerra Mundial, praticamente todos os rádios do mundo funcionavam com o cristal brasileiro.

Embora a extração do cristal em Pitangui tenha atingido o seu apogeu na década de 1950, foi durante a Segunda Guerra que se iniciou a exploração deste mineral na cidade. A monstruosa demanda da indústria bélica norte-americana fez com que este país mandasse ao Brasil técnicos que orientavam os envolvidos quanto a correta classificação do mineral, mas não ocorreu a presença deste técnicos em Pitangui.

Na internet é possível encontrar 9 decretos autorizando a lavra do mineral em terras pitanguienses na década de 1940 e 1950. O mineral está presente em toda a região, não havendo concentrações em áreas específicas como ocorre com os outros minerais. A exploração se dava através da abertura de cisternas com cerca de um metro de largura com uma profundidade que podia exceder os 15 metros. Quando chegavam na faixa de cascalho que continha o cristal, o buraco era alargado naquele ponto, uma situação de extremo risco já que não era utilizado nenhum recurso técnico que garantisse a segurança do processo de extração, os acidentes eram constantes tendo ocorrido mais de uma morte de cidadãos pitanguienses neste tipo de exploração.
Buraco de extração de cristal da década de 1950
na então fazenda Mandassaia em Campo Grande





Uma vez extraído o mineral era analisado, somente as peças pesando acima de 100gr eram comercializáveis, além disso não podiam ter nenhuma contaminação que os garimpeiros chamavam de cabelo ou chuva, o cristal era classificado como sendo de 1ª, 2ª ou 3ª categoria e deveria estar totalmente limpo e transparente para que pudesse alcançar um bom valor. Ele poderia ainda ser do tipo lapidado, com quinas vivas formando uma pirâmide em sua extremidade, ou rolado, necessitando ser polido para expor o seu interior. As peças opacas ou contaminadas, chamadas de “mula”, não possuíam valor algum e eram desprezadas. Nos antigos locais de lavras ainda é possível encontrar estes rejeitos. Em Pitangui chegou-se a encontrar peças limpas com até 45 kg.

Mulas" - cristal opaco e sem valor - abandonadas junto
as lavras da fazenda Mandassaia



Para comprar dos garimpeiros o mineral e repassá-lo aos interessados foi aberto uma empresa de exportação que contava com um escritório no bairro das Laranjeiras na cidade do Rio de Janeiro e com um laboratório em Pitangui que se encarregava de preparar o mineral para a exportação. Um dos sócios desta empresa e considerado o maior comerciante de cristal da cidade era o Sr. José de Campos França, o Dé do Lora. Com a experiência que adquiriu com este tipo de comércio, o Sr. José se tornou capaz de classificar uma peça a olho nu sem a necessidade de se utilizar dos recursos do laboratório, se orgulha de dizer que era considerado o melhor classificador de cristal da cidade do Rio de Janeiro quando esteve a frente do escritório da empresa naquela cidade.

Devido a problemas administrativos a sociedade veio a falir e daquele período hoje só resta terrenos escavados ao redor da cidade, lembranças de uma época em que Pitangui viveu o seu segundo ciclo exploratório mineral, que influenciou significativamente sua economia.

Especial agradecimento aos Senhores José de Campos França e José de Abreu pelos depoimentos que permitiram este trabalho.

Vandeir Santos

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