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sábado, 26 de março de 2011

Vasco Azevedo e a Instrução primária dos operários da indústria têxtil no início do século XX em Minas Gerais.

O ramo da indústria têxtil foi de fundamental importância para o desenvolvimento da economia mineira. Você já teve a oportunidade de ler aqui no blog artigos sobre o pioneirismo de Pitangui neste seguimento produtivo. Também teve oportunidade de ler aqui sobre o político pitanguiense Vasco Azevedo. Pois bem, nesta postagem estes dois assuntos se cruzam,entenda como:

A indústria têxtil brasileira ganhou um certo impulso no decorrer do século XIX, mesmo com toda deficiência tecnológica e falta de capitais. Em Minas Gerais, este setor ganhou força a partir da segunda metade daquele século rompendo com a tradição agrária de nosso estado.
O setor têxtil precisava de mão de obra especializada e alguns empresários começaram a perceber a necessidade de se alfabetizar os trabalhadores fabris,em sua maioria sem acesso à educação básica naquele momento histórico. A grande concentração populacional no campo não contribuía para a formação de uma classe operária urbana. Aliás, em Minas Gerais do século XIX, o setor têxtil buscou fixar suas plantas industriais no interior do estado.
Para sanar este problema algumas indústrias resolveram implantar escolas primárias visando instruir seus funcionários. Neste sentido destaca-se o pioneirismo da fábrica de tecidos do Cedro, Montes Claros que, em 1874, implantou uma escola diurna. Em outras regiões do estado outras indústrias também implantaram suas escolas primárias. Em 1878, a fábrica de tecidos do Brumado, em Pitangui, que mantinha uma escola diurna para seus funcionários,converteu para noturna a cadeira do sexo masculino.
Com o advento da República a questão da instrução primária para os trabalhadores do setor indústrial continuou sendo discutida no âmbito político. A ideia de que governo deveria subsidiar a manutenção das escolas ou os salários dos professores gerou polêmica.
Porém, as políticas voltadas à educação pública nos primeiros anos da república comprometia o funcionamento das escolas fabris,pois buscavam conter os gastos do governo mineiro com a educação pública.Isso fica claro com a regulamentação da Lei nº 281,de 1899, que determinava uma nova classificação para as escolas, como também determinava o decreto nº 1353, de 1900, em seus artigos  3º e 11º, que extinguia todas as escolas rurais e noturnas, estabelecendo através do artigo 2º que apenas em Ouro Preto fosse conservada a escola noturna.
Esta medida terá impacto direto nas escolas mantidas nas indústrias, pois, como já afirmamos, a maioria destas indústrias se localizavam em zonas rurais e também demonstrará a falta de sensibilidade política de nossas eleites em relação ao ensino público, pois o decreto nº 1353 impossibilitava que grande parte de nossa população, fixada no meio rural, tivesse acesse à instrução, e ainda, impediam que as escolas noturnas fabris em áreas rurais continuassem funcionando.
Diante deste quadro, Vasco Azevedo, então residindo em Belo Horizonte, para onde se transferiu depois dos acontecimentos ocorridos em Pitangui¹ no final do século XIX, e exercendo a legislatura de deputado estadual propos, em 1900, um projeto (nº 53) de criação de escola mista noturna nas indústrias têxteis ou em qualquer tipo de manufatura junto a estabelecimentos industriais que se localizassem a mais de três quilômetros dos distritos escolares e que tivessem um número inferior a 20 alunos.
O projeo do deputado Vasco Azevedo causou grande polêmica, pois propunha a revogação da lei nº 281,como também a subvenção às fábricas que mantinham escolas primárias. Azevedo ainda argumentava que a lei em questão significava um retrocesso, pois abria uma lacuna na instrução pública dos operários e prejudicava os gestores das fábricas, pois a falta de instrução provocaria um exôdo de mão de obra para localidades que oferecessem educação pública primária. Outro argumento usado pelo deputado para defender seu projeto é que a revogação da lei 281 não oneraria os cofres do Estado, pois os professores dispensados das escolas rurais poderiam ser remanejados para as escolas fabris. Agumentos em vão, o projeto foi recusado.
Em 1903 este projeto será retomando, durante a realização do Primeiro Congresso Agrícola, Comercial e Industrial de Minas Gerais, quando  Francisco de Paula Mascarenhas, fundador da Fábrica de Tecidos da Cachoeira (1877), representante do setor industrial, expôs as dificuldades enfrentadas por aquele setor e apresentou medidas que poderiam ajuar a superar os problemas enfrentados. Somente em 1906,durante o governo de João Pinheiro é que o setor industrial terá suas reivindicações atendidas e um conjunto de medidas serão implementadas pela política educacional de seu governo.


¹ Para saber mais sobre este assunto consulte DINIZ, Sílvio Gabriel. O Gonçalvismo em Pitangui. Revista Brasileira de Estudos Políticos. 1969.



FONTE:

3 comentários:

  1. Muito interresante professor, belo trabalho de pesquisa!
    Além da origem da indústria fabril, duas questões me chamaram a atenção no texto, para serem pensadas nos dias atuais:
    - A importância da qualificação da mão de obra para prestação de serviços que envolvem o turismo receptivo hoje (uma vocação natural de Pitangui);
    - A necessidade de termos um político com maior influência e prestigio regional para angariar benefícios para a nossa cidade.

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  2. Concordo contigo. E me impressiona como a elite política daquele tempo via investimentos em educação como um gasto. As coisas mudaram pouco de lá pra cá.
    Abraço.

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  3. Uma correção no meu comentário anterior: em "indústria fabril", leia-se indústria têxtil.

    Um complemento no meu comentário anterior: em "político com maior influência e prestigio regional": me refiro a um dep. estadual, por exemplo. Pois se a cidade se unir, podemos leger nossos representantes.

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