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sábado, 26 de novembro de 2011

As distâncias e os caminhos para Pitangui - Parte 1

A primeira referência existente sobre a distância e os caminhos que levavam a cidade de Pitangui nos é contada por Silvio Gabriel Diniz em sua obra Capítulos da História de Pitangui, onde no capítulo Caminho Antigo ele relata que num mapa da Capitania, arquivado na seção de Iconografia da Biblioteca Nacional sob o código ARC. 24-1-20, encontra-se o roteiro do caminho de Sabará para Pitangui. Para que possamos ter um referencial mais atualizado pegaremos os valores a partir do Curral d’El Rei (Belo Horizonte):



Do Curral d’El Rei às Abóboras (Contagem)......................................................4 léguas

Das Abóboras à encruzilhada que é passagem a Casa Alta.................................3 léguas

Desta encruzilhada até a passagem do Rio Paraopeba.........................................5 léguas

Desta passagem ao Riacho dos Guardas são também..........................................5 léguas

Daí à primeira povoação de Pitangui sobre o Rio São João são .........................2 léguas

E daí abaixo do Rio São João é Ribeiro da Onça que faz barra no dito rio.........1 légua

Daí à Vila de Pitangui são....................................................................................3 léguas



Por este caminho Pitangui distava de Belo Horizonte (Curral d’El Rei) cerca de 23 léguas, considerando a medida oficial da légua como sendo 6,6 km, temos uma distância aproximada de 151,8 km. Convém lembrar que naquela época a légua era medida pelo tempo de marcha de uma tropa de burros, portanto é uma medida sujeita a grandes variações. Existiram ainda caminhos que transpunham o Paraopeba mais a oeste (São Joaquim de Bicas) o que aumentava a distância em até 5 léguas (33 quilômetros). Era uma viagem de alguns dias e ainda sujeita a sérios transtornos no período chuvoso.

Esta realidade dura ainda quase todo o século XIX, onde somente no fim deste período é que o avanço proporcionado pelas ferrovias muda o cenário.



A nova realidade surgida com o advento das locomotivas a vapor pode ser conhecida através dos relatos de Agenor Lopes Cançado Filho em sua obra Figuras e Fatos de Meu Tempo, onde no capítulo Um Passeio a Capital ele nos diz o seguinte:



“De início, tomar o trole do Ribeiro, aí no Baiacu, para pegar o trenzinho do Oeste, lá no Miranda. Depois de algumas horas de desconfortável jornada (só havia 3 trens por semana) chegava-se a Henrique Galvão, onde se dormia como sardinha em lata no hotel do Domingos. Dormia é modo de falar, porque os mosquitos não davam trégua e não deixavam ninguém passar por uma soneca.

No outro dia bem cedo, antes de amanhecer, o Domingos, de porta em porta, chamava ”Siô Compadre” e a gente tinha que se levantar.

Voltava-se ao trenzinho da Oeste para viajar o dia todo, subindo a Folha Larga e a Serra do Lenheiro até chegar à noite à estação de sítio, por onde passava a Central.

Quando tudo corria muito bem, desembarcava-se, à tarde, em Belo Horizonte, feita a baldeação em Lafaiete! Era um horror!

Outros preferiam viajar, com maior sacrifício, apenas em 2 dias. Montados a cavalo até Sete Lagoas, feita a travessia do Paraopeba em frágeis canoas (os animais passavam “a vau”). Na bonita cidade dos lagos, pegava-se o trem da Central; para chegar à noite a Belo Horizonte. A estação de General Carneiro, onde havia baldeação, era vista e admirada pela sua elegância e originalidade.”



Observem que no início das operações da linha o trem não vinha a Pitangui, era necessário o deslocamento por trole (plataforma sobre trilhos impulsionada manualmente) até a estação do Velho do Taipa (Miranda) para realizar o embarque. Já antes da metade do século XIX a situação já apresentava melhorias extremamente significativas. Vejamos o que nos diz Amália Rocha Mendes em sua obra Lembranças de uma cidade feliz na página 11 (A velha Maria Fumaça):



“Para chegar à capital, levava-se de quatro a cinco horas. Conseqüentemente teria que carregar a matula (como diziam) porque o percurso era longo e a parada mais demorada era em Azurita e, nesse restaurante, serviam uma sopa fervente, que ninguém conseguia tomar no tempo determinado”



Com a abertura e a pavimentação das estradas e desativação das linhas férreas, o trajeto rodoviário fica sendo a única alternativa para se chegar a Pitangui. O primeiro relato técnico a respeito consta no livreto A Indústria Caseira em Pitangui onde o autor Saul Martins descreve o trajeto realizado em 1966 da seguinte forma:



“Via de acesso: BR-262 (ex-BR-31) até Pará de Minas; MG-149 de Pará de Minas a Pitangui. O itinerário completo, a partir da capital, é Cidade Industrial, Betim, Vianópolis, Juatuba, Florestal, Tavares, Pará de Minas, São João e Brumado, sendo os primeiros 37 quilômetros em via asfáltica, seguindo-se 21 quilômetros encascalhados, 26 quilômetros em calçamento poliédrico e os últimos 40 quilômetros também sobre cascalho, totalizando 124 quilômetros, percurso feito em 2 horas e 15 minutos, em marcha cautelosa.”

Observem que o trajeto rodoviário antigo passava por Florestal, a BR 262 não passava pelo Roda D’água e nem pela subida da Boa Vista. Este caminho ainda pode ser utilizado atualmente e é uma excelente alternativa quando o trânsito da BR 262 apresentar alguma retenção o que não é raro devido aos acidentes na subida da Boa Vista.

Em pouco menos de 100 anos o tempo gasto de BH a Pitangui passou de alguns dias para meras 2 horas e quinze minutos. Já era possível não apenas uma, mas até duas viagens de ida e volta em um mesmo dia. Algo totalmente inimaginável nos tempos da mocidade de Agenor Lopes Cançado Filho, que surpreso com o progresso termina o capítulo de sua obra dizendo valer a pena “dar-se um pulo até Belo Horizonte, que fica «ali mesmo». A gente vai, faz suas compras e ainda volta para o jantar!”

Vandeir Alves dos Santos

Nos seus 300 anos, as histórias e estradas de Pitangui também são Reais





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