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domingo, 9 de dezembro de 2012

Naquele tempo

 Antigo projetor de filmes. Foto: Licínio Filho.

Depois do Matinée, publicado recentemente, acaba de sair do forno o Soirée, a segunda parte da trilogia de contos que tem como pano de fundo o Cine Pitangui e a Praça do Jardim de tempos idos. A obra é do amigo e conterrâneo William Santiago, que vem reforçando o time do Daqui de Pitangui.  E se você, tem menos de cinquenta e não vivenciou os tempos áureos do cinema e do jardim, não assuste ao se transportar para àquela época, durante a leitura do conto. Aos contemporâneos, bom apetite! Será que o Pitaculta acabou mesmo? Tenho minhas dúvidas!


Soirée

No Cirque du Soleil,  ensaio no trapézio a uns vinte metros do solo. Néia aguarda, indo e vindo ao ritmo de valsa, o momento de saltar para as mãos do companheiro. Enquanto isso, pensa nos escritos de seu pai e no que vinham a ser bolhas do tempo, links e coisas correlatas, todas num pensamento só. Nisso, lembrou-se da Penseira de Dumbledore, no Harry Potter. Teria, algum dia tanto que relembrar, para reviver, talvez para sofrer de novo, quando começasse a aparecer na sua própria Penseira, na sua própria cumbuca de recordações, a nebulosa do passado?
Os tais escritos procuravam mostrar que as bolhas do tempo eram onde as coisas continuavam a existir indefinidamente, como aqueles anos 67, 68, 69 e 70, quando seu pai tinha começado a dançar a dança da vida e o revivia em seus contos aparentemente desconexos. E pensava se ela também, um dia, iria contar aos outros o que tinha vivido na sua bolha do tempo, se poderia fazer links aparentemente loucos, mas que, para ela, fariam muito sentido e até trariam de volta o sabor daquele momento. Isso quer dizer que ela poderia também degustar sua madalena Proustiana.
Sendo assim, passemos a outra bolha, a outro link, e encontramos o Presidente William Mackinley observando os convidados chegando para um dos últimos almoços na Casa Branca no século XIX. Era o ano de 1900, e os Estados Unidos começavam a construir o Império. O Presidente não poderia imaginar que, por causa desse processo do qual ele era um protagonista privilegiado, o idioma francês, em poucos anos, seria trocado pelo inglês e a palavra “soirée” cairia de moda. E separaria gerações.
E, isto posto, o link “soirée” nos remete à cidade de Divinópolis, em Minas Gerais, em um sábado qualquer no verão do ano da graça de 1960, depois de uma chuva de granizo e uma matinée no Cine Arte, quando a voz de Tio Luís ribombou como o trovão arrasando os campos do céu na noite de tempestade, o forte sotaque da Pitangui do anos 50, o dedo em riste para os filhos:
- Não, vocês já foram à matinée. NÃO VÃO À SOIRÉE. Soirée é pra moça e rapaz, vocês são meninos ainda. Um dia, quem sabe, lá em Pitangui...
Pois bem, chegamos àquele dia, à nossa bolha. Uma noite qualquer, em qualquer época do ano, o perfume da dama-da-noite do jardim da casa dos turcos tomava conta, primeiramente, da Rua de Cima. Depois se espalhava pela Praça da Matriz, pelo Jardim e, dizem, acompanhava todos os rapazes e moças que sonhavam com o amor, fosse no Morro da Penha, do Lavrado, na Rua do Nascente ou na Volta da Cobra, por toda Pitangui, porque os suspiros não tinham parada certa, a felicidade não precisava de moldura social.
Um dia, Paulinho foi à soirée e encontrou Fulana. Não sabe bem por que, mas nunca mais esqueceu aqueles grandes e tristes olhos verdes e uma pequena gagueira que, naquela boca, mais parecia um pedido de desculpas que um defeito de fabricação. Emaranhou-se nesses atributos e nessas contradições por uns cinco anos, mas nunca foi completamente feliz. Ao contrário, esperava sempre pela felicidade dos livros, dos filmes e das fotonovelas, o que, para muitos, era a verdadeira fortuna. Como diziam, o melhor da festa era esperar por ela. Mas ele não sabia disso naquele tempo, e a felicidade, na medida em que esperava, nunca chegou.
            Mas, naquele dia da explosão de Tio Luís em Divinópolis, Paulinho e Zé Luís ficaram mudos, assustados com a reação do pai. Paulinho era o mais tímido dos dois, começou a lacrimejar, perdeu o controle da boca, um tremor incontrolável na mandíbula, ia começar a chorar. Súbito, relembrou que iam rir-se dele como em outras vezes, porque ficava com a boca torta quando queria chorar, engoliu o choro e consertou a cara. Não podia dar parte de fraco, principalmente para que não o comparassem ao irmão, porte atlético, que sonhava ser jogador de futebol.
Anos depois, Zé Luiz, já freqüentador das soirées, enquanto passava brilhantina no cabelo para pentear-se, pensava no rosto de Rosita, no sorriso de Rosita, na cintura e nas ancas perfeitas de Rosita e no incisivo careado que o incomodava. Parecia que, a ela, não incomodava, porque nunca tapava a boca pra sorrir.
            No inverno, principalmente, já que as moças se agasalhavam, o perfume de tudo migrava pros agasalhos. O perfume delas se confundia com o perfume da dama-da-noite, e o abraço delas era abraço de mãe recuperado, abraço de vagas promessas, e a mera possibilidade do amor era, então, a maior das recompensas. Rosita vinha sempre com blusas de lã, cheirando a lavanda, e esse perfume acompanhou Zé Luis pelo resto da vida.
O perfume das moças e da dama-da-noite marcava uma época, o serviço de alto falantes do Cinema contribuía com a sonoridade dos boleros chorosos e alternava versões de baladas francesas e italianas para marcar o passar do tempo. Cada vez que tocava, a música deixava uma marca indelével na lembrança de cada um, associando-a a alguém, um momento, uma emoção, que um dia ia ajudá-los na viagem de volta, em busca do tempo perdido. A madalena Proustiana, já não pelo paladar, mas pela audição e pelo olfato.
Em casa, arrumando-se para sair, os corações batiam apressados, aguardando a hora da reunião no Jardim, o footing, rapazes olhando, moças passando, feira de amores secretos, não testados, e, por isso mesmo, eternos, espelhos sem ranhuras. A cada quarto de hora, o locutor  do Cinema anunciava a programação da noite. “Em duas sessões, sete e nove horas, em technicolor-cinemascope...”
 A praça começava a encher-se, acompanhando o crepúsculo. Quando as luzes do Jardim se acendiam, a coreografia já estava completa. Nos dias de semana, em época de aula, a partir das seis e meia, os rapazes se postavam de braços cruzados, observando as estudantes desfilando antes de seguirem para o colégio. Impecavelmente uniformizadas, exibiam suas camisas brancas de manga comprida, gravatas pretas e saia azul-marinho plissadas, cuidadas pelas mães com ciência e amor. Depois de entrarem os estudantes da Escola de Comércio, sobravam uns gatos pingados e os estudantes diurnos, já sem a motivação feminina, iniciavam conversa de homem sem qualquer encantamento para os corações apaixonados.
Paulinho gostava de Fulana, mas Fulana não gostava de Paulinho.  Agora Paulinho já ia à soirée, todos os sábados. Gostava mais de ir à segunda sessão, porque, antes do Cinema, podia namorar no terraço da parte de cima do Jardim, agarradinho com Fulana, de mãos dadas, o calor do corpo dela aumentado pela blusa verde de lã, combinando com os olhos tristes. Ela, porém, nunca entrou com ele no escurinho do Cinema, porque não era coisa de moça direita, diziam.
O Jardim era o centro do mundo. Os espaços de convivência eram bem delimitados. Chamavam Jardim à praça enorme, com nome de político, construída num declive, suavizado por terraços. Em cada terraço, uma gradação do amor e dos direitos dos casais. No espaço de cima, os namorados mais antigos e respeitadores, os que namoravam pra casar, os que já conheciam os sogros, de aliança de noivado no anular da mão direita. Mais abaixo, no espaço do Coreto, o mais largo, era a vitrina, o começo de tudo: as garotas passavam, os rapazes olhavam, até que tomavam coragem pra dar uma volta com a moça. Daí em diante, podia começar uma história.
No estreitinho, no terraço seguinte para baixo, aqueles que ainda andavam de mãos dadas, de cá pra lá, de lá para cá, os que começavam a namorar. Já no último, lá de baixo, nem te conto. Namorados muito antigos ou sem-vergonhas, que passaram da época de casar, que se agarravam como bichos no cio, o que será que não faziam?
Quando foi estudar em Belo Horizonte, Paulinho vinha todos os sábados a Pitangui na esperança de encontrar de novo Fulana, mas a cada sábado ela se encontrava com um rapaz diferente, escondendo-se na multidão da Praça do Jardim ou das procissões que cruzavam a Rua de Cima. Paulinho levava bolo, ou seja, ela não cumpria o trato. Quantas vezes pensou em morrer, mas não teve coragem, principalmente quando ela lhe enviou o convite de casamento com um rival de cuja existência ele nem sabia. Virou funcionário público, se casou e teve cinco filhos, todos homens e, quando viu Fulana no Facebook, trinta anos depois, não pôde entender como tinha desperdiçado tanto tempo de sua vida sofrendo por uma mulher tão triste e pessimista.
Zé Luiz começou jogando no Atlético, mas terminou sua carreira no Pitangui Esporte Clube, antes de ir fazer faculdade em Belo Horizonte. Começando na reserva, dezessete anos em flor, entrava no segundo tempo. Encostada no alambrado, no meio da torcida, Rosita saltava e gritava seu nome, cada vez que ele passava perto dela, em deslocamentos pela direita ou carregando a bola em direção ao gol.
Um sábado, esperou-o e pediu que a levasse em casa mais cedo. No caminho, fez-lhe prometer marcasse um gol para ela na final do campeonato, no domingo seguinte. A cem metros da casa, encostou-se a uma goiabeira e mirou-o fixamente. A chuva da tarde tinha ficado guardada nas árvores e, quando ela o abraçou, o vento coroou-os com flores de goiabeira e gotas de chuva e, mais que tudo, ela, no lusco-fusco, conquistou irremediavelmente o coração de Zé Luiz.
Zé Luiz nunca chegou a ser Pelé, mas aquele foi o seu momento de glória, sua final vitoriosa de Copa do Mundo, quando Rosita beijou seus lábios mansamente e sussurrou algum segredo em seu ouvido. No domingo seguinte, na partida final da Liga, marcou o gol prometido, de meia-bicicleta, foi campeão, mas não viu Rosita gritar seu nome. Ela tinha se mudado pra Goiás no meio da semana, sem qualquer aviso. Zé Luiz passou quinze dias chorando, começou a beber, a dar trabalho pra sua mãe e esqueceu Rosita completamente três meses depois, para surpresa de toda a família, que tinha medo que se matasse. Foi quando apareceu Tereza, que tinha a mesma cárie, no mesmo incisivo, só que era alegre e cantava na Jovem Guarda, imitando Vanderlea.
A tristeza maior eram os dias de chuva. Naquele tempo, quando chovia, o mundo parava, não havia saídas à noite, não havia nenhuma possibilidade de encontro. O meio de transporte da maioria era o guarda-chuva, o de comunicação eram os recados, mas as pessoas se fechavam em suas casas, só saíam se fosse pra comprar alguma coisa de muita precisão. E chovia muito. Chovia dias a fio, chovia como no tempo do dilúvio, a umidade embolorando as roupas em casa, as paredes fazendo água por todo canto. O capim crescia nas ruas de terra e entre os paralelepípedos do calçamento. Como sempre faltasse água nas casas, as pessoas cortavam caules de bananeiras e faziam canaletas para ajuntar e direcionar a água que descia dos telhados para os baldes e, depois, para os serviços domésticos.
O pinga-pinga interminável era bom para dormir, mas separava os corações apaixonados. Preto tinha ódio dos dias de chuva, porque não podia ver Bia no Jardim. Quando saía, de calças curtas, era só pra comprar pão para o café da noite. A chuva batia nas poças d’água, respingando nas canelas e nos pés calçados com sandálias de dedo. O Jardim sem gente, sem Bia, era um país desconhecido. Passear por lá era passear num cemitério. Preto, às vezes, passava pelo terraço do Coreto na volta da padaria, só para chorar debaixo do guarda-chuva e sussurrar “Bia, Bia, Bia”, verso inicial de um poema que nunca terminou de escrever.
Depois de o movimento no Jardim terminar e não haver mais esperança, os rapazes remanescentes viravam os olhos pra rua de cima, onde passeavam as moças mais humildes, porém mais atrevidas, que não eram tão pudicas como as do Jardim. Essas não eram pra casar, e as aventuras se prolongavam pelas ruas mais escuras, atrás da Matriz, do Grupo Velho, no Curtume, na periferia do centro, até mais da meia-noite. Era com elas que aconteciam os primeiros encontros com o prazer, opostos aos ideais trovadorescos que se aprendiam nos sonetos e romances de cavalaria. Era nos becos, também, que se iniciavam as vidas dos filhos sem pai.
Uma vez, Preto, cansado de esperar por Bia, cansado do amor platônico, se encontrou com Ida atrás da Matriz. Ela era alegre, inconseqüente e descomplicada. Ele deixou-a esperando no carro, na porta do Cinema, tragando um cigarro adocicado. Entrou sorrateiro, retirou as cortinas vermelhas do salão de projeção e voltou ofegante, o coração escapando pela boca. As cortinas eram grossas e bem que serviriam de leito nupcial, se fosse o caso.

2 comentários:

  1. Ah...me sinto um Voyer a espreitar este universo pitanguiense criado/descrito por William Santigo neste conto.A memória abriga os universos da existência, das experiências individuais e coletivas e aguça a imaginação dos que se deixam levar pelas linhas deste conto.

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  2. Licínio,

    é um prazer ler seu comentário. Dá incentivo pra seguir tentando descrever uma época que se foi, porém que se projeta no tempo de hoje com suas lembranças e na maneira como marcou uma geração.

    William Santiago

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