Seguidores

terça-feira, 11 de junho de 2013

Beira de Balcão (2)

Conforme combinado, pois num faiamos no trato, seguem mais uns causos do Beira de Balcão (seção periódica no jornal Correio de Pitangui, que circulou na década de 1980). Por falar nisso, encontramos o JoNba - autor do Beira de Balcão - no sábado 1º de junho lá pelo largo do São Francisco e, em uma prosa rápida, tivemos tempo para uma foto e a certeza de que muitos causos virão.


O JoNba descendo o morro dessa cidade desse Pitangui.
Foto: Léo Morato.


Na região do Frazão, caminho do Rio do Peixe, o terreno é rico em quartzo, fornecendo bons cristais. Muitos garimpeiros exploram este mineral e para isso, cavam cisternas de dois, até quatro metros de profundidade, não tendo, no entanto, o cuidado de voltar a terra ao lugar. Dessa maneira, a área é toda cheia de buracos e se constitui num perigo, mesmo à luz do dia. Imaginem à noite.Vai que, exatamente numa noite, passam por este terreno o Fernando (não digo o sobrenome) e o Juca (idem), com uma meia dúzia de goles na cabeça, meio abraçados, meio escornados um no outro. Até que de repente o Fernando sumiu, caiu no buraco. O Juca, assustado, só ouvia uns gemidos fracos vindos lá do fundo. Então, com todo cuidado se deitou no chão e foi se arrastando até a beira. Aí falou o seguinte:
- Fernando, se ocê morrê ocê fala.
Lá de dentro, responde o ofegante Fernando.
-Ô Juca, morrê eu não morri não, mas perdi a fala”.
---------------------------------------
Zé Samuá é uma das maiores contribuições folclóricas que possuímos. Conta as suas histórias com uma convicção tamanha que é bem capaz de ele próprio acredita no que diz. E, numa conversa entre cachorros zangados, ele falou de quando um de seus cachorros estava assim, de sua preocupação em amarrá-lo para evitar problemas. Pois bem. Amarrou o cachorro num pé de mamão que havia no fundo do quintal. O animal passou a morder, com raiva (ou hidrófobo), o inocente mamoeiro, que não tinha nada a ver com a história. Vendo esta situação, o Zé não teve outra alternativa a não ser sacrificar o animal. Passados alguns dias, sua mulher, assustada, o chamou para ver um absurdo. Era o mamoeiro carregado de laranjas e abacates. “Zé, é o fim do mundo!”. E ele ,calmamente, explicou:
- Fim do mundo que nada, mulher, não se preocupe. Isso é normal. O cachorro tava doido? Pois é. Ele mordeu o mamoeiro e o mamoeiro ficou doido também.
--------------------------------------

No bar:
-Lilico, me vende uma pinga fiado?
-Não,
-Mas eu sou o Lico, seu amigo.
-E daí, você é o Lico, eu sou o Lilico; mais que você
Então, o terceiro personagem:
-Lilico, me vende uma pinga fiado?
-Claro, quantas você quiser.
O Lico se magoa:
-Pô, Lilico, pra mim você não vende, mas vende pro Bilico.
-Veja bem, você é só Lico, eu já sou Lilico e ele é o Bilico, mais que nós dois.
------------------------------------

As cidades do interior têm na tradição religiosa uma força muito grande. Pitangui nunca foi diferente. A fé predomina nas datas religiosas. Pois que há vários anos, durante as celebrações da Semana Santa, as procissões acontecendo toda noite, Passos, Encontro, Paixão, o silêncio respeitoso, a participação piedosa de todos e o costume de se ajoelhar no momento quando passa o andor da imagem venerada. É um gesto coletivo e rotineiro. Lá estava o Zé B., ainda menino, junto com os pais, participando das procissões. Durante toda a semana ele esteve presente, em todas elas. No sábado era o dia da Ressurreição, dia da alegria, dia do Judas, a farra de sair com o boneco cheio de bombas pela cidade até à noite, quando era queimado em praça pública. O Zé B. assistia o cortejo, junto com o pai, via a procissão de pessoas acompanhando Judas. Quando passaram por eles ninguém ajoelhou, mas ele não deixou por menos; cutucou o pai:
- Juéia, pai, que o Juda invém.
--------------------------------------

O Zeca do Cambota “queimou a orelha” de um grupo de rapazes chegados ao “fuminho”. De noite, já mais tarde eles chegaram no bar, nervosos, agitados e o Zeca, percebendo, chegou neles. “- Cês tão a fim de puxar um fuminho?” Claro, responderam logo, já esfregando as mãos de alegria. “- Pois eu tenho um fuminho comigo, já preparado e posso ceder a vocês, mas eu quero puxar primeiro; sei que não tenho cara, mas sempre gostei. Me acompanhem até o fundo do bar.”. Todos os seguiram ansiosos e o viram, muito sério, tirar do bolsinho da calça um pedacinho de fumo amarrado em um barbante, desenrolar, colocar no chão e sair puxando o fuminho, enquanto dizia: “_Vem cá, fuminho, vem cá!”
-------------------------------------

2 comentários:

  1. Vicente Oliveira deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Beira de Balcão (2)":

    Muito bom,esses "causos" são realmente engraçados,estou rachando de tanto rir.Parabéns Léo e obrigado por resgatar essas maravilhas.Parabéns JoNba!

    ResponderExcluir
  2. HÁHÁHÁHÁHÁ! A melhor ficou para o final. "Vem cá, fuminho. Vem...". HÁHÁÁÁÁÁ! #choreiderir

    ResponderExcluir

Obrigado por comentar nossa postagem. Ah... não se esqueça de se identificar.