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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Capa não, sô!

 A Praça Brito Conde.

Nesta proposta de lançar outros olhares sobre a Sétima Vila do Ouro das Gerais, o Blog se alterna entre resgates históricos e leituras do cotidiano, de forma dissertativa, em prosas, versos e imagens. A esta empreitada somam-se contribuições valiosas como as do William Santiago, que acaba de tirar da cachola mais uma crônica inteligente dos nossos dias, abordando temas do presente, adaptados aos trejeitos pitanguienses. Divirtam-se!


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CAPA NÃO, SÔ
Isso foi num tempo já perdido no tempo, quando o Brasil precisou importar médicos cubanos. Dizem que alguns foram para o Centro-Oeste mineiro e um deles baixou em Pitangui. Aconteceu que, semanas depois, pediu transferência, explicando em "off" que não entendia o português daquela gente. Aliás, os pitanguienses sempre foram meio diferentes, rebeldes a seu jeito, "gente intratável" como já diziam na época colonial. Quem quer saber mais, leia o livro "Vassalos Rebeldes", de Carla Maria Junho Anastasia. O causo é com esse médico importado e um dos seus primeiros pacientes, que, se fosse vivo, não me deixaria mentir sozinho. O médico ainda preso ao idioma espanhol, embora soubesse, em teoria, tudo de português, examinou o paciente e foi logo dizendo: - Usted tiene que cortar la cerveza, la carne gorda y la pimenta. Ao que o bravo pitanguiense, sorrindo meio de lado, um ar de superioridade, cortou foi o papo do gringo, retrucando sem esperar resposta: - Capa não, sô. E saiu do consultório meio amolado, jurando que nunca mais ia consultar com médico da língua enrolada. Já o médico, notando que todo aquele português que tinha aprendido não era suficiente para entender o pitanguês, tratou foi de enturmar-se. Conhecer o idioma daquela gente era fundamental para continuar ali, desempenhar bem seu papel de médico e até para desertar, se fosse o caso. E não há lugar melhor que um boteco para enturmar-se. Lá é onde se fala a língua do povo. Passando pela praça, viu um bar com muito movimento e deu pra notar, de fora, que tinha sinuca. As atividades do turno da tarde já tinham se iniciado e havia muita gente concentrada em seus afazeres, olho na mesa, mão no giz e no taco, toda uma ciência e um ofício. Numa das portas, um frequentador encostado, mãos nos bolsos, tampando a entrada, camiseta regata desbotada e descosturada nas laterais, o olhar meio perdido no horizonte. Tinha duas cervejas na cuca e olhava o movimento da Praça da Estação, ou Brito Conde, como queiram. O cubano, meio sem graça, muito formal, coisas da criação na ilha dos Castro, na hora de entrar, pediu passagem pro folgadão : - Puedo entrar? Com licencia ... O outro, intrigado, chateado talvez com a formalidade num lugar tão informal ou talvez por ter sido interrompido em seu devaneio, dá passagem, enquanto responde logo, em bom pitanguês: - Capa não, sô! Vai tafuiano. Uai, o trem aqui é nosso. Foi a gota d'água. "Tafuiano ..." Era demais. Pediu e conseguiu a transferência para o Norte do país, e nunca mais se soube dele. Porém, se lhe tivessem ensinado o que aprendi num dia de apuração de eleições no Fórum de Pitangui, ainda quando Nova Serrana não era Comarca, talvez a questão não tivesse sido tão dramática para o simpático doutor cubano. O fato era que eu estava acompanhando as apurações de Nova Serrana pelo saudoso Correio de Pitanguy. A meu lado, não querendo perder um lance da contagem dos votos, estava um conhecido de Nova Serrana. Ele, amolado com o desenrolar das apurações que davam já como certa a derrota do seu candidato, balançava a cabeça e dizia: - Não dá mesmo. Já era. Se eu voltar pra Nova Serrana hoje eles vão "bater capa". Vou daqui pra Beagá, só volto daqui a uma semana. De repente, tudo ficou claro: "bater capa", óbvio, como se faz na tourada. Daí, a expressão migrou para Pitangui: "capa não, sô". E as derivações, criativas, umas alcançando o campo futebolístico: "não me CAP, sou PEC". Então, o capar de Pitangui, que a maioria relaciona com "castrar", não tem nada a ver com o porco. Tem a ver, sim, com outro animal, o touro, que tem de aguentar as provocações do toureiro, que lhe " bate a capa", enfurecendo-o aos poucos. Nada do porco. Fulano é capador. Bingo, eureka. Entendido. E as derivações que vão transformando cada vez mais o significado inicial, a ponto de deixá-lo irreconhecível, como no caso de "castrol", variação de "capador". Ah, se o cubano soubesse! Estaria aqui até hoje, consultando gente e, quem sabe, ensinando espanhol no colégio. E nesse diapasão, quem explica o que é "chegá o reio?" Quem explicar bem explicadinho ganha um ingresso pra copa. Só que pra Copa de Cuba, quando houver Copa por lá, e eu tiver dinheiro pra cumprir a promessa.
(William Santiago, Brasília, 2013)

11 comentários:

  1. Parabéns William Santiago por mais essa bela crônica que nos honra publicar no "Daqui de Pitangui".
    Quanto ao "Chega o reio", creio que se refere ao hábito dos pais darem uma surra nos filhos com o arreio de cavalos..."Os minino...para de travessura senão vou chegar o reio nocês..." mineiramente falando...Bem assim ouvi dizer...
    Abração

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    1. Licínio,

      obrigado pelo incentivo. É também um privilégio para mim estar participando do blog. Sobre o "reio" tenho a explicação de que se trata do "relho", um chicote de três pontas que se usa no cavalo. Arreio, chicote e cavalo. Vai ser por aí. Mas em Pitangui, na verdade, reduziram para "rei" do jeito que arranjaram até um feminino: chega o rei, então, se é mulher, chega a rainha.

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  2. A leitura de William é como música aos ouvidos!

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    1. Fabinho,

      vamos precisar muito de você num trabalho que estamos preparando. É música. Oi manga rosa, oi piqui, espada.
      Obrigado pelo elogio, quando escrevo procuro sempre seguir um ritmo. Então, estou conseguindo o objetivo.

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    2. Com todo prazer, grande mestre! Estou a disposição pra somar forças no que for bom pra Pitangui e nossa cultura!

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  3. Adorei a crônica. Parabéns William Santiago, pelo talento, criatividade e sabedoria.

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    1. Prezada Girlene,

      a gente nunca sabe o que vão pensar do que se escreve. Isso é o que disse Morris West em carta a um amigo meu. Um comentário é sempre uma luz na escuridão, que nos incentiva a continuar. Muito obrigado. Devo ressaltar que o mote deste conto foi do Léo Morato, um dos batalhadores deste blog. Me refiro à ideia de começar a história com um médico cubano. Foi genial.

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  4. Adorei o lay out novo tanto quanto gostava do antigo. Acho que sempre é bom mudar, porém a essência do blog continua a mesma, continuo me sentindo absolutamente em casa toda vez que venho aqui. Espero que a mudança traga uma nova fase ao blog, cheia de boas notícias e resenhas maravilhosas!

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    1. Obrigado pela participação de sempre, Girlene! O novo lay out veio para iniciarmos o 5º ano de atividade. Ajude-nos a divulgar o blog Daqui de Pitangui rumo aos 300 seguidores.
      Um abraço.

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  5. Muito bom é pouco, William Santiago! Gosto muito de ler o que vc escreve, sempre com maestria! Seu senso de humor sempre foi, e, continua sendo fantástico: "o que é que o Drácula não tem que o Franks tem?" Lembra-se? Só vc mesmo William! Grande abraço!

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