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domingo, 29 de dezembro de 2013

Religião e Guerra em Pitangui - O nascimento do movimento evangélico na Sétima Vila do Ouro


     Quando os primeiros bandeirantes entraram em terras pitanguienses em fins do século 17 e início do 18, os presbiterianos abriam a sua primeira igreja nos Estados Unidos e os batistas na Inglaterra. A situação brasileira se mantinha estável desde a expulsão dos holandeses, mas esta estabilidade católica não duraria por muito tempo. Com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a assinatura do Tratado de Comércio e Navegação fica assegurada a liberdade de consciência e culto, permitindo igrejas que deveriam se manter discretas e sem buscar a conversão de católicos. No ano seguinte se instala no Rio de Janeiro a primeira igreja protestante do Brasil de denominação anglicana. No interior do Brasil Pitangui se mantinha afastada de influências religiosas que não fossem a católica, aspecto comum às demais cidades da província das Minas Gerais. Mas...

     Segundo nos conta Joaquim Patrício (Agenor Lopes Cançado Filho) em matéria publicada no jornal Município de Pitangui em 30 de agosto de 1959, no início do período republicano Pitangui era administrada pelo jovem advogado Vasco Azevedo. Por outro lado a justiça estava a cargo do Dr. José Gonçalves de Sousa. A função de ambos os faziam muito próximos e até então mantinham uma relação de amizade. Certo dia aparece em Pitangui um sujeito se dizendo pastor protestante e solicita ao juiz o salão do júri, que funcionava junto com a Câmara do Município, no prédio onde está hoje o Grupo Francisca Botelho, para a realização de seu culto. Sendo um homem liberal o Dr. José Gonçalves autoriza a entrega das chaves ao pastor, no entanto Vasco Azevedo era católico fervoroso, homem conservador que não admitiria de forma nenhuma tal “extravagância” em Pitangui e se nega a entregar as chaves. Daí resultou uma enorme competição política que se arrastou até 1927.

     Por falta de tempo e oportunidade não pude pesquisar nos arquivos da câmara se a pregação realmente ocorreu e também Agenor termina sua matéria sem nos dar esta notícia. Por mais 70 anos haveria paz religiosa na Sétima Vila do Ouro.

     Eis que chega a Pitangui o rapaz Raimundo Lopes dos Santos que retorna a cidade para participar da pintura da igreja matriz. Convertido na Primeira Igreja Batista de Belo Horizonte, localizada na Praça Raul Soares, ele havia estudado química através de curso a distância e teologia na igreja Metodista de BH. Comprava panfletos religiosos, através dos correios, da Casa Publicadora Batista e os distribuía nas ruas e na porta da fábrica de tecidos. Segundo o Sr. Raimundo havia todo o tipo de recepção, tinha os que pegavam e liam, os que pegavam e jogavam fora e até mesmo o que lhe jogavam os panfletos na cara.
 
Raimundo Lopes dos Santos - Raimundo Sabão - Acervo de Nicodemos Rosa

     Conta ainda que nesta época abrigava em sua casa um evangélico da igreja Assembléia de Deus que nos fins de semana pregava na cidade andando de bicicleta, tendo fundado uma igreja que não obteve sucesso.

     Em abril de  1960 aparece em Pitangui o pastor norte americano Melvin Hubber, o missionário nascido em Fairbury, estado de de Illinois veio de carro dotado de alto falante, projetor e vários rolos de filme para exibições públicas. A procura de algum evangélico na cidade, ele é informado que um tal Raimundo distribuía folhetos nas ruas e lhe informaram o endereço, foi quando então se conheceram. A união destes evangélicos alarmou os católicos da ala conservadora de Pitangui, de imediato Padre Guerino utiliza o auto falante da igreja e começa a formar a sua “milícia” a fim de dar combate à ameaça evangélica que não se resumia mais na inocente figura do Sr. Raimundo.
 
Pastor Melvin Edward Huber - Falecido em 2008

     Contando também com a ajuda do pastor metodista belorizontino João Ferreira Filho, Melvin e Raimundo decidem promover em Pitangui uma semana de atividades evangélicas que se iniciaria com uma conferência em praça pública no dia 30 de abril de 1960. Teriam como objetivo a difusão da fé evangélica através de palestras (pregações) acompanhadas da exibição de filmes. Hospedados na Pensão Central, onde hoje se situa o prédio do Oscar Morato, Melvin e João Ferreira decidem projetar o filme na parede de frente a pensão, no prédio da atual Câmara Municipal. Era uma afronta que a “tropa” católica não toleraria e o evento foi interrompido com o tumulto provocado pela tropa do Padre Guerino. Houve ainda o lobby para que ninguém fornecesse energia elétrica para a exibição.

     Para que não voltasse a ocorrer desordens, os evangélicos resolvem promover o segundo evento na Praça Governador Benedito Valadares e novamente a tropa católica entra em ação através da utilização da aparelhagem de som retirada da matriz e montada na Boite Tangará de onde tentaram abafar as pregações evangélicas. Novamente os pastores mudam o local para o 3º dia de conferência, (02 de maio) e como era de se esperar lá também estavam os “soldados” de Padre Guerino com o som montado em um ônibus estacionado na rua Cel. José Saldanha, a diferença é que desta vez a violência recrudesceu e a tropa católica passou a apedrejar os evangélicos que ficaram acuados. Raimundo sugere a Melvin que ele e os dois assistentes fossem para sua casa em virtude do risco que corriam hospedados no centro da cidade. Ao chegarem na casa de Raimundo no bairro Gameleira, os evangélicos se viram novamente cercados pelos católicos que haviam formado uma caravana até aquela residência e a exemplo do que ocorrera pouco antes começaram a arremessar pedras sobre o telhado da casa aos gritos de que aquilo era a resposta do programa da igreja católica apostólica romana às intenções dos protestantes. O ataque católico demorou cerca de duas horas, durante as quais as crianças da casas tiveram de se abrigar debaixo das mesas e camas para não serem atingidas pelas pedras que passavam pelo telhado já destruído.

     A única ajuda que tiveram veio do vendedor ambulante José Mamedes que armado com uma espingarda foi em direção à porta da casa disposto a dar fim ao ataque, mas foi interrompido por Raimundo que da mesma forma desarmou seu pai que com uma carabina também estava disposto a resolver a questão de forma ainda mais violenta. Como cristãos crentes na Palavra o uso de armas de fogo não fazia sentido. Por pouco a situação não virou tragédia, pois a polícia estava sob a influência católica e não tomou atitude alguma, somente horas mais tarde é que compareceu um sargento que foi dispensado por Raimundo, uma vez que a sua presença naquele momento já não fazia nenhum sentido.

     Melvin não se intimida e passa a encarar Pitangui como um desafio, um dos muitos durante a sua longa vida de evangelização. Por seu lado Padre Guerino mantem sua tropa recolhida o que da tempo para que Melvin se reorganizasse.  Como apoio ao movimento, chega a Pitangui, de visita, um coronel do exército brasileiro que circula de carro, fardado, pelas ruas de Pitangui pregando junto com o pastor Melvin.
 
Igreja do Nazareno década de 70 - Acervo do Arquivo Público de Pitangui 
 
     Os evangélicos alugam uma pequena casa e retornando a Belo Horizonte, o pastor Melvin deixa com Raimundo Cr$120.000,00 para a compra de um lote para a construção da primeira igreja evangélica de Pitangui. Neste momento Padre Guerino entra em ação novamente e através de sua influência interfere, inúmeras vezes, nas tentativas de compra de um terreno. Aos proprietários padre Guerino insinuava que a conclusão daquela transação implicava na passagem direto para o inferno. Insistente, certa noite Raimundo Sabão vai atrás do bicheiro Zé da Ana e lhe pergunta se por acaso estaria interessado em lhe vender um de seus imóveis, Zé da Ana responde positivamente pedindo pelo imóvel na Av. Antero Rocha a quantia Cr$80.000,00. De manhã cedo já havia uma comissão de beatas na porta de Zé da Ana solicitando que abortasse a venda e este responde a elas que ele era um negro que honrava a palavra que havia dado e que elas eram um bando de brancas safadas. Mas a atitude das beatas deixou sequelas, a mulher de Zé da Ana só aceitava assinar o documento de venda se recebesse Cr$5.000,00, ao que Zé da Ana se opôs. Para resolver o problema Raimundo Sabão vai até a esposa do bicheiro e propõe a ela um pagamento a parte, Zé da Ana receberia os Cr$80.00,00 e ela os Cr$5.000,00 sem que o marido, a princípio, soubesse. Pagamento efetivado, entra em ação novamente a tropa católica, as irmãs do tabelião Antônio Bila pressionam o irmão para que não registrasse a transação, mas já estando os documentos assinados não havia o que fazer, o terreno da primeira igreja evangélica de Pitangui estava comprado. O valor da compra mais os custos com os registros deixou um total que era insuficiente para a construção da igreja, Melvin novamente entra em cena e em companhia de Raimundo vai para Francisville em Illinois (EUA) solicitar ajuda financeira. Na noite do primeiro culto, foi levantada a quantia de U$8.000,00 (Cr$11.200,00). Este valor foi acrescentado de outras contribuições que permitiriam a construção do muro e da igreja. Mas outra vez a ameaça de uma passagem só de ida para o inferno afastou todos os pedreiros e serventes nativos daquela obra, toda a mão de obra teve de ser recrutada em Belo Horizonte. O material de construção também era problema, as vendas só eram efetivadas se Raimundo prometesse não divulgar quem eram os seus fornecedores. Assim que a estrutura básica da edificação ficou pronta ela recebeu o auto falante, Padre Guerino se faz presente mais uma vez e através de sua influência solicita ao delegado que proíba a igreja de utilizar aquele sistema de áudio-difusão e também instiga a prefeitura a solicitar a planta aprovada do imóvel. Raimundo Sabão vai atrás de Anthero Rocha e ambos conseguem uma reunião com o secretário de segurança pública Mário Viotti em Belo Horizonte, dessa reunião Raimundo sai com uma autorização que permitia o uso do auto falante fixo em Pitangui e em qualquer outra localidade do estado de Minas Gerais e no mesmo dia consegue que um conhecido lhe fizesse a planta, ficando este documento pronto e aprovado no dia seguinte. Ao comparecerem para a busca e apreensão do auto falante, o soldado e o cabo que foram cumprir a ordem do delegado voltaram para trás com o documento assinado pelo secretário de segurança pública do estado. Estava eliminada a influência de Padre Guerino sobre o delegado.


Igreja do Nazareno - fim de culto do dia 29/12/13
Foto: Vandeir Santos
 
 
     A primeira igreja evangélica de Pitangui, Igreja do Nazareno, é inaugurada oficialmente a 22 de novembro de 1964, Raimundo Sabão já era seu pastor desde 1963 quando ainda funcionava precariamente nos fundos da nova sede e fica à frente da igreja até o ano de 1970, quando então retorna a sua origem na Igreja Batista.

     Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional nº 87 (Matéria: Evangélicos, a fé que seduz o Brasil); Jornal Correio de Pitangui, edição nº 86 (2ª quinzena de dezembro de 1990); Jornal Município de Pitangui, edição de 30 de agosto de 1959; Entrevistas com Raimundo Lopes dos Santos.

     Especial agradecimento a Nicodemos Rosa, genro de Raimundo, pela ajuda na elaboração desta matéria.

8 comentários:

  1. Vandeir, parabéns pelo amplo trabalho de pesquisa, trazendo um tema interessante sobre a história recente de Pitangui! Só tenho minhas dúvidas se o Guerino, de fato, teria suscitado ou encabeçado algum ato de violência ou represália naquela época (?). Entretanto, penso que o acontecimento não é um fato isolado, mas sim um reflexo da nossa colonização, quando o Estado Português tinha estreitos laços com a Igreja Católica e; os primeiros Bandeirantes a descobrir o ouro da 7ª Vila proibiram a presença de renóis e forasteiros na minas do Pitangui, ameaçando-os de maiores violências. O fato é que não podemos continuar a repetir o erro histórico de enxergar as ideias inovadoras e propostas visionárias como concorrência ou tentativa de "tomada do poder". Como ocorreu por exemplo com o Edvam Reis que, além de trazer o primeiro (e único) Campeonato de Voo Livre para Pitangui nos anos de 1980, também queria trazer TV e rádio mas encontrou resistências. Entre outros casos.

    Um abraço.

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    1. Olá Léo! Pode acabar com suas dúvidas! É inacreditável, triste, chocante e surpreendente! (para a maioria) Mas é a mais pura verdade! Muitas pessoas, evangélicas ou católicas, que viveram estas situações, se calaram, e se calam sobre estes acontecimentos. Mas nada que se faz sobre esta terra, ficará oculto para sempre.

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  2. Léo, pela estratégia e pela organização das manobras de sabotagem dos eventos é impossível não existir alguém na direção destas ações, uma mente que coordenasse estes "soldados". Nós sabemos muito bem o quanto é difícil fazer com que o pitanguiense se mexa e saia da sua zona de conforto. Com certeza a tropa beata não seria eficaz sem um comandante.

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  3. Parabéns pela pesquisa histórica e pelo resultado desta.
    O papel do historiador é trazer à luz o que estava esquecido no limbo do tempo.
    Podemos perceber em seu artigo traços de uma sociedade discriminadora, que alimentava ranços religiosos.
    Outra coisa que me chamou a atenção foi a relação dos evangélicos com os militares, a presença de um oficial do Exército Brasileiro em Pitangui, naquele momento histórico (1964) pode nos revelar outras variáveis desta história. Qual a relação do Missionário americano com as Forças Armadas brasileira? E o Padre Guerino? Ele estava ligado a qual corrente dentro da Igreja Católica, naquele momento? São perguntas que merecem respostas e podem ampliar ainda mais a abrangência desta pesquisa. Em minha opinião, foi revelada apenas a ponta do iceberg. A pesquisa deve ser aprofundada.

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  4. Excelente abordagem Vandeir.
    Lí, reli e repeti a leitura.
    O interessante neste seu relato é que temos a sensação de podermos confiar na autenticidade de suas colocações. Quando você não comprova o que diz, diz primeiro que não tem comprovação. Isto também nos leva a dar credibilidade ao texto.
    No mérito, quanto ao assunto propriamente dito, creio que esta foi apenas uma pequenina mostra de como os “não católicos” (parece ironia, mas estes “não católicos” são também cristãos, todos Irmãos em Cristo) tiveram que se espremer para professar a sua fé.
    Ao meu ver, aqueles acontecimentos relatados, ocorridos em Pitangui, são simples e singelos, são um quase nada, uma gota na massa mãe da luta dos “não católicos” para professarem e disseminarem a sua crença/culto após o advento do protestantismo.
    Creio que esta pequena gota de discriminação e incompreensão ocorrida em Pitangui se reverteu, e quem sabe se reverte ainda hoje, em enorme fardo para os que ousam desafiar o conservadorismo religioso reinante em Minas Gerais.

    Geraldo Wagner Gonçalves
    Praça Antonio Fiúza
    Pitangui.

    A propósito, se se desejarmos compreender melhor o fenômeno, sugiro o link abaixo que direciona a uma página da Internet. Peço licença para reproduzir parte do seu conteúdo:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Neopentecostalismo
    "As primeiras igrejas chegaram ao Brasil quando, com a chegada da família real portuguesa para o Brasil e a abertura dos portos a nações amigas por meio do Tratado de Comércio e Navegação, comerciantes ingleses estabeleceram a Igreja Anglicana no país, em 1811. Seguiu-se a implantação de outras igrejas de imigração: alemães trouxeram a Igreja Luterana, em 1824, imigrantes americanos trouxeram a Igreja Batista (em 1871) e a Metodista, e também a Igreja Adventista, em 1890. Os missionários Robert Kalley e Ashbel Green Simonton trouxeram as Igrejas Congregacional (em 1855) e Presbiteriana (em 1859), respectivamente, estas voltadas ao público brasileiro.
    O protestantismo é o segundo maior segmento religioso do Brasil, representado principalmente pelas igrejas evangélicas, com cerca de 42,3 milhões de fiéis, o que representa 22,2% da população brasileira segundo dados do IBGE. Entre as maiores denominações protestantes do Brasil em número de adeptos estão os batistas (3,7 milhões), presbiterianos (1,5 milhão)1 , luteranos (1 milhão) e metodistas (340 mil). Há também os adventistas (1,5 milhão). Entre os evangélicos (ou pentecostais e os neopentecostais), os grupos com o maior número de seguidores são a Assembleia de Deus (12,3 milhões), a Congregação Cristã no Brasil (2,3 milhões), a Igreja Universal do Reino de Deus (1,8 milhão) e a Igreja do Evangelho Quadrangular (1,8 milhão).2 O segmento religioso cristão protestante apresentou um forte crescimento no país nos últimos anos, aumentando o seu número de seguidores em 61% no período compreendido entre 2000 e 2010......"

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    Feliz Ano Novo a todos que permeiam este Blog.
    Geraldo Wagner.

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  5. Excelente reportagem, de que me dou conta agora. Instigantes comentários.
    E Jesus, de que lado estaria?

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  6. Tarcisio Lemos
    Justiça seja feita ao padre Guerino. Ele era um homem honesto e muito franco o que, traduzindo para o português, quer dizer sem educação. Mas, acusá-lo de comandar uma "tropa de choque" para atacar os crentes, é mera suposição. Vamos aos fatos que eu presenciei. Estava voltando para casa, à noite, quando um grupo de pessoas iniciou uma projeção de filmes (do qual só me lembro da figura de Jesus) sobre o muro em frente à pensão do Honório. Parei para ver. Minutos depois, apareceu um bando de indivíduos atirando pedras, a torto e a direito. Minha memória falha, talvez pelo horror que essa agressão me provocou, não sendo capaz de dizer se atingiram as pessoas ou só os aparelhos de projeção. Eu, que nunca fora de prestar atenção aos sermões, mantenho vivo em minha memória a pregação do padre Guerino, no domingo seguinte, condenando veementemente o apedrejamento.

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