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domingo, 22 de dezembro de 2013

"Uma História de Natal"


Aproveitando o clima natalino reproduzimos nesta postagem uma crônica do pitanguiense Joaquim Patrício, que selecionamos de seu livro de memórias "Figuras e fatos do meu tempo", onde o autor descreve um pouco da vida social, cultural e política de Pitangui no primeiro quartel (25 anos) do século XX. A crônica escolhida é intitulada "Uma História de Natal".

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UMA HISTÓRIA DE NATAL

Miguel Estácio era alto, claro, longas barbas brancas e mancava de uma perna. Tinha assim uns ares de Papai Noel. Nunca pegou no batente, no duro. Preferia mendigar. Era mais fácil, rendia mais...
Naquele tempo de escassos meios de transporte, com seu bordão de peregrino, percorria a pé todo o Estado de Minas, de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
Tive notícias suas em São Fidélis, cidade ribeirinha do Paraíba, hóspede do Major Fortunato Lopes Cançado, ilustre pitanguiense , que ali tinha farmácia.
Onde quer que houvesse um filho da Velha Serrana, Miguel Estácio aparecia e era bem recebido. Um dia aportou no Brejo, hoje cidade de Miraí, e sua chegada foi uma festa na casa do vigário, o Padre Lopes Cançado.
Rememoram fatos e conversam  até tarde sobre pessoas e coisas de Pitangui. Foi um bate papo que não acabava mais... A velha cidade está sempre no coração de qualquer pitanguiense ausente.
Miguel Estácio era comilão e tudo cabia bem a seu estômago exigente.
Certa feita, véspera de Natal, lá se vão muitos anos, o nosso homem apareceu em Dores do Indaiá e bateu palmas na casa do pitanguiense Miguel José Barbosa, tabelião da comarca.
Como acontecia em toda parte, teve boa acolhida, foi bem recebido. Sentiu-se à vontade na casa do Ingué e suas narinas sensíveis perceberam logo um cheirinho de comida farta e saborosa...
Prelibou um jantar como há muito não comia...
Havia muita coisa gostosa para a ceia de Natal, sobretudo variedade de doces, daqueles doces que só a Véva sabia fazer... Cocada, doce de leite, laranja em calda, doce de figo, pudins, um nunca mais acabar de terrinas, cheias, a transbordar.
Padre Luís havia anunciado a missa do galo e os sinos da velha igrejinha de Dores bimbalavam festivos, convocando os fiéis...
Todos se preparavam  para a missa da meia noite. Miguel Estácio, convidado, alegou fadiga. Preferia repousar.
Ao sair, Ingué entregou-lhe a chave do armário, com a recomendação de "comer alguma coisa antes de ir para a cama".
Os olhos de Miguel se encheram de brilho, suas narinas se dilataram, a euforia transparecia na sua figura...
Ausente a família, avançou nos doces, com tanto entusiasmo, com tamanha fúria, que no fim de meia hora, nada mais restava, tudo tinha acabado!
Ingué, de volta, nada encontrando, interpelou seu bravo hóspede, que lhe respondeu ofegante: "Comi doce até empanar"...
Tudo terminou em riso, pois o Ingué era generoso, tinha um grande coração.
Só a Véva é que não gostou da brincadeira "e deu a súcia pr'o diabo", pois nessa noite não houve sobremesa na ceia de Natal.




FONTE:
PATRÍCIO, Joaquim. Figuras e fatos do meu tempo: contribuição ao estudo da vida social e política de Pitangui no primeiro quartel deste século. Belo Horizonte: Bernardo álvares, 1964, p. 19-20.

2 comentários:

  1. Belo conto! " A velha cidade está sempre no coração de qualquer pitanguiense ausente".
    Que a boa nova do Natal nos inpire, nos dê ânimo, paz e saúde em 2014. Este são os meus votos para os parceiros Licínio, Dênio, Vandeir e todos os amigos e amigas do DaquidePitangui!

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    Respostas
    1. Léo, esta é mais uma pérola do livro de Joaquim Patrício.
      Em 2014 seguiremos em frente com nossos projetos pessoais e do blog.
      Abraço.

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