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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"Conversa com um médico da roça"

Na postagem de hoje reproduzimos mais uma crônica escrita pelo médico Joaquim Patrício - Vandeir Santos nos explica que Joaquim Patrício era o pseudônimo do realmente médico Agenor Lopes Cançado Filho, filho do farmacêutico Major Agenor Lopes Cançado que morava e tinha farmácia onde hoje é o Banco do Brasil - e publicada em seu livro de memórias "Figuras e Fatos de meu tempo", onde ele descreve o cotidiano de Pitangui, nos primeiros 25 anos do século XX. Elegemos a crônica "Conversa com um médico da roça", pois, ela nos permite perceber como era o cotidiano de um médico, no interior de Minas Gerais, no início daquele século, como, também, a vida das pessoas que viviam na roça naquele tempo. Tenho certeza que vocês irão se deliciar com esta leitura. 
A título de esclarecimento, publicaremos o texto confirme está no livro, cuja edição é de 1964, por isso, não estranhem a forma da escrita, esta era a norma culta para a escrita naquele período.


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CONVERSA COM UM MÉDICO DA ROÇA

Impressionante o desconfôrto em que vive a nossa população rural, o homem "da roça" está habituado a morar em ambiente sórdido, sem nenhuma condição de higiene, ainda a mais rudimentar. Habitações de aipa com as frestas infestadas de sevandijas, chão de terra batida e teto de sapé, resistem à gametisação mais rigorosa.
De uma eu sei, onde o desinfetante, agindo sôbre os triatomas, buliu também com dois ofídios, dos mais venenosos, que dormiam calmamente na melhor comunhão com os habitantes da casa!
Nas minhas andanças para acudir doentes, atravessei a váu grandes rios, subi e desci muitas serras e pude meditar na miséria que havia por tôda parte. Com a terapêutica rudimentar de que então dispunha, mais consolei do que curei e era triste verificar a fraqueza de meus recursos frente à doença!
Sem os antibióticos de que os clínicos modernos tanto abusam, sem a cortizona e as sulfas que hoje fazem milagres, com mágoa no coração, eu sentia a minha impotência na tentativa de curar. Foi por isso que abandonei a clínica e sem deixar a arte de Galeno, enveredei para o ramo da Medicina Social, bem mais interessante e cheia de atrativos, confortadora e realista...
A mim me repugnava examinar doentes, para os quais o banho era um acontecimento e em cuja cabeça parasitas sórdidos faziam seus passeios. Vi crianças sujas. de ventre enorme, prenhe de helmintos, para as quais o médico era ser maravilhoso, e que chupavam gostosamente o indicador, gostoso como o melhor charuto de Cuba.
A folhinha de Mariana se destacando amarelada, na parede da "sala principal", fazia previsões do tempo e orientava o lavrador sôbre a época de plantar e de colhêr. No quintal, uma galinha magra cocoricava assustada, prevendo o próximo fim, e ao lado da bica de água cristalina, verdejava o mangericão, de cheiro agradável, indiferente à sujeira do meio.
Nunca faltava vidro de creolina usada para matar bernes. Fiz sérias intervenções obstétricas, só com a proteção do desinfetante. Nas estradas deixava à vontade o "Condomínio", bucéfalo amigo, meu companheiro de andanças.De quando em vez, uma cruz rústica, à margem da estrada, denunciava ao caminhante o local em que mal súbito ou tiro traiçoeiro de uma picapau fêz cair cristão desprevenido. Flor Roxa ainda fresca, colhida na vizinhança, revelava o carinho de quem passou, prestando essa homenagem ao morto desconhecido.
Eu era moço, sadio, tinha alegria de viver. Às léguas não me assustavam. Voltava alegre quando podia roubar às Parcas algum doente que atendeu às teriagas de minha indicação. Sol a pino, parava para dessendentar e olhava os horizontes sem lindes de minha terra bonita! Seriemas passavam correndo, assustadas e soltando guinchos. Eu colhia flôres silvestres e se era agôsto, todos oa altares da minha santa se enfeitavam com o dourado das flôres do ipê.


FONTE:
PATRÍCIO, Joaquim. Figuras e Fatos de meu tempo: contribuição ao estudo da vida social e política de Pitangui no primeiro quartel dêste século. Belo Horizonte: Bernardo Alvares, 1964, p. 43-44.

2 comentários:

  1. Joaquim Patrício era o pseudônimo do realmente médico Agenor Lopes Cançado Filho, filho do farmacêutico Major Agenor Lopes Cançado que morava e tinha farmácia onde hoje é o Banco do Brasil.

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  2. Vandeir, obrigado pela informação. Irei anexá-la à postagem. Abraço.

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