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sábado, 29 de março de 2014

Memórias do Beco


Relembrando a infância lá na antiga Travessa dos Canudos ali perto do Bom Jesus, o conterrâneo William Santiago, exercitando o seu talento literário, nos conta um conto sobre um lançamento de vinis (a la casamento grego) onde um dos personagens, o abacateiro, por seu papel de destaque, é digno de ser até aquele da música de Gil, Refazenda. E a trilha sonora que se perdeu por engano, é de um notório Pitanguiense sobre o qual falaremos mais, numa próxima postagem. Confuso? Então confira a crônica abaixo:



 Beco dos Canudos.
Foto: Léo Morato.


- CASAMENTO NO URUGUAI -

Por William Santiago.
De repente, sem ensaio, sem nada, a criançada saiu da sala, passou pela copa e, da cozinha,  começou a atirar os discos pela janela do terreiro, gargalhando de felicidade ao ver os discos se quebrarem contra o velho abacateiro do quintal. Nisso aí, democraticamente, discos de cantores e orquestras como Pedro Raimundo, Marion, Beniamino Gigli, Mário Lanza, Luiz Gonzaga, Ray Coniff, Românticos de Cuba, Adelaide Chiozzo e outros encontravam o mesmo fim: viravam cacos ao pé do abacateiro.

Esse abacateiro, ponto inocente de choque, pouco tempo depois, foi punido, sem aviso prévio, sem direito a defesa, tempos de ditadura. Cortaram-lhe o tronco, separaram-lhe alguns galhos, mas por algumas semanas, até se completar seu desmantelamento, a estrutura restante serviu para a meninada viajar de navio pelo mundo. Antes de virar lenha serviu à fértil imaginação da criançada. Pode-se dizer que teve um nobre final e resgatou alguma parte de sua culpa.

 A febre de destruição na casa, porém, era uma anarquia consentida. Sem qualquer oposição dos adultos, as crianças leram a mensagem subliminar: os discos 78 eram o passado. Na sala de visitas reformada, tacos raspados e cuidadosamente encerados, os pais se deliciavam com a eletrola nova. Era de pau-marfim, comprada na loja do Marcondes Machado. Passavam o sábado escutando as coleções de "long-playing", os famosos " lps" de vinil trazidos pelo correio, acondicionados em caixas delicadas,  embrulhados um a um, cheirando a novo. Estava se iniciando em Pitangui a hegemonia dos discos de 33 e 45 rotações, hegemonia que iria durar até a chegada dos cds, nos anos 90.  Era o sinal dado para que os pesados discos de 78 rotações, fabricados com cera de carnaúba, fossem sacrificados para sempre.

Um dos meninos, no entanto, ficou triste. Havia um disco de um amigo de seu pai que também tinha entrado naquela dança maluca. Um disco de um pitanguiense, conhecido da família, dado de presente, com dedicatória e tudo. Foi um descuido paterno, evidentemente. Aquele tesouro tinha que estar separado dos outros, não podia ter estado à mercê daqueles vândalos inconsequentes, aliados do velho abacateiro. Mas não estava, jaziam nos pés do abacateiro os seus cacos irrecuperáveis. O pai ia se zangar de verdade, porque era o disco do Patesko.  Chamava-se "Casamento no Uruguai", marchinha avançadinha para os meios conservadores de Pitangui na época. Mas fazia sucesso no carnaval. 

 José Nunes de Oliveira - Patesko.
 (Foto gentilmente cedida pelo Zé Carlos - filho do Patesko).

De boa memória, o menino reconstruiu, pelo menos, a letra, já que os caquinhos não serviam para nada:

"Tenho mulher sou até pai
Mas tenho outra e vou casar lá no Uruguai
Eu quero ser igual sultão
Juntar mulher como se junta tostão
Quero mulher grande ou pequena
Seja rica ou seja pobre, seja loura ou morena
Mas ai! Há um perigo
Em cada mulher nova sogra eu consigo."

O disco se espatifou, desapareceu, mas o menino reconstruiu a letra da música do amigo de seu pai. Quem sabe, nestes tempos do ressurgimento do clássico vinil, onde até festas de radiola estão vindo à tona, quem sabe, um dia, vai encontrar de novo aquele 78 rotações de cera de carnaúba voltando do passado e projetando o futuro.

4 comentários:

  1. A foto inspira um lugar romântico, enfeitado de flores, com o casario simples como o jeito de viver no interior das Minas Gerais.

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  2. Puxa vida...as grandes histórias estão por toda parte, mas é preciso saber contá-las. Ao ler este crônica corri junto com as crianças e escutei o estilhaçar dos vinis...Parabéns William!

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  3. Obrigado, Prof. Licínio. Cada comentário é um encorajamento para abrir o baú das lembranças e transformá-lo em combustível de histórias.

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  4. Oi William,
    Que felicidade ouvir você contar e cantar com as palavras este belo texto. Mesmo sabendo que ao meio de tanto disco, estava lá o de meu pai, o Patesko, eu me senti feliz. Gostaria de dizer que o Sr. Sebastião Leão, doou para nós, filhos, um exemplar, que não foi quebrado no abacateiro, mas que caiu ao chão em meu consultório em Belo Horizonte e teve o mesmo fim dos demais. Aproveito este momento para pedir a quem possua este disco do Casamento no Uruguay, que é cantado pelo Otavinho da Mata Machado, falasse comigo pelo e-mail: zecarlosxoliv@ig.com.br, pois tenho muito interesse. Grande abraço. José Carlos Xavier de Oliveira.

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