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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ao redor do templo nasceu a cidade (3ª parte)

A Matriz e as torres da Igreja de São Francisco.

Esta é a terceira parte da pesquisa histórica que aborda sobre a relação direta entre a edificação de capelas e igrejas no Ciclo do Ouro em Minas Gerais e o processo de urbanização na Capitania. Neste capítulo falaremos sobre a expansão física (fases da construção) das igrejas e da evolução social, administrativa e religiosa, realizadas por meio das irmandades leigas.
 A antiga Matriz e o cortejo religioso. Foto: autor desconhecido.
A evolução física dos templos partia do modelo da igreja de São Roque de Lisboa composto de três partes: o quadrado, o altar mor ao fundo e uma torre lateral ou central. A seguir a planta evolui ganhando as três peças fundamentais: nave, capela mor e sacristia atrás. Depois surgem os dois corredores (grandes paredes laterais) que levam à sacristia ou ao consistório colocados ao lado da capela mor. Essas peças marginais têm relação com as irmandades que necessitavam de espaço para a realização de reuniões mesárias e assembleias. Quanto ao frontispício (fachada) seguia-se o modelo de “um retângulo posto ao alto, três janelas no coro, uma porta de entrada”. Outra característica comum é que as igrejas foram construídas ao longo de muitos anos por etapas, concluídas de acordo com as possibilidades financeiras das irmandades, que viviam de doações. (SALLES, 1982, págs. 49, 50, 51).
 Igreja de São Francisco (reforma 2012). A nave e o frontispício.
Do ponto de vista religioso, administrativo e social as irmandades exerceram um papel preponderante para a igreja e para o Estado, desde o início da ocupação do solo mineiro. A Coroa Portuguesa estimulava a criação destas organizações, para que os seus integrantes custeassem a construção dos templos. Em outras regiões da Colônia, as ordens religiosas europeias como os Jesuítas, Beneditinos, Carmelitas, Franciscanos, etc. é que financiavam a construção de suas igrejas e eram proibidas de se instalar na região mineradora, no século XVIII. A vida religiosa em Minas era fortemente influenciada pelas irmandades leigas que, por meio de esmolas, realizavam obras de caridade e assistência, construíam os templos e compravam os utensílios necessários ao culto. Ou seja, de certa forma as irmandades eram um braço do Estado.

A segmentação social estendia-se à igreja, onde os primeiros colonizadores fundavam a Irmandade do Santíssimo Sacramento reunindo os “homens bons da terra” (a elite) que se encarregavam da construção da Matriz. Em seguida criava-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que era composta por negros e mestiços, mas que também aceitava outros membros que geralmente exerciam funções administrativas pelo fato de saberem ler e escrever. Com a prosperidade nas Minas, outras classes e seguimentos sociais se consolidavam, originando novas irmandades e os altares laterais eram construídos nas igrejas. Mas devido às divergências e antagonismos as corporações desvinculavam-se das Matrizes e construíam suas próprias capelas, conforme relatou o historiador Fritz Teixeira de Salles (1982, pág. 49): “Desenvolve-se a mineração e nasce o grupo dos pardos, consequente das incessantes mestiçagens de renóis com escravas ou índios com brancos. Surgem, então, a irmandade dos pardos e dos pretos nativos, Amparo ou Mercês (esta de crioulos). Continua o processo de estratificação e a classe dos comerciantes (a única profissão economicamente estável) se consolida num status e nascem, então, as Ordens Terceiras, do Carmo e S. Francisco. Estávamos já então, entre 1740, 1750 ou 60”.
S. Francisco (reforma 2012). O altar mor e os corredores que levam à sacristia...

Dentro de seu campo de atuação, as irmandades contratavam artistas para a confecção dos altares de suas capelas e remuneravam sacerdotes pelas incumbências religiosas. Registros historiográficos abordam sobre a ascensão econômica de alguns eclesiásticos, que, pela função social e administrativa da igreja, também exerciam atividades comerciais. Em seu testamento, datado de 1787, o Padre Antônio Pereira Marques, português, morador da Vila de Pitangui declarou: “Deixo à Irmandade do Senhor dos Passos desta vila trinta oitavas de ouro de esmola (...)” (CATÃO, 2011, pág. 176).
Com a decadência do ouro no início do século XIX, ocorre o declínio das Ordens Terceiras e de suas capelas, ocasionando o retorno da população às Matrizes. Em Pitangui, no início do século XX, ocorreu um processo similar. Esta afirmação tem como base o artigo do arquiteto Evandro Rocha Mendes, publicado no jornal Correio de Pitanguy (outubro de 1990) sobre o pós incêndio de 1914. Mendes relatou que o processo de reconstrução da Matriz de Nossa Senhora do Pilar (1915 – 1921) em estilo eclético, dentro de um conceito modernista da época, pode ter influenciado a demolição de quatro capelas em Pitangui (possuidoras de um valioso acervo artístico) entre os anos de 1917 e 1927.

Matriz antiga. Capela do Rosário (no alto) e de N.S. da Conceição (em baixo)
 demolidas no início do séc. XX. Foto: Autor desconhecido.

Esse processo histórico demonstra que: a constituição da malha eclesiástica está diretamente relacionada com a fundação e o desenvolvimento de arraiais e vilas; que as irmandades leigas exerceram um importante papel para a organização social nas vilas setecentistas de Minas; e que a rivalidade e as disputas entre elas influenciaram os estilos de construção das igrejas e o próprio Barroco Mineiro. Em tempo de Quaresma, no ano em que o incêndio da Matriz do Pilar completou 100 anos, identificar quais eram, quais são, como atuavam e ainda atuam as irmandades existentes em Pitangui, será pauta para um próximo trabalho de pesquisa.
Semana Santa de 2011.
Texto e fotos: Leonardo Morato.
 
 
Fonte:
- SALES, Fritz Teixeira. Vila Rica do Pilar - Um Roteiro de Ouro Preto. Editora da Universidade de São Paulo / Editora Itatiaia. Belo Horizonte, 1982.
- CATÃO Leandro Pena (Org.) Pitangui Colonial – História e Memória. Editora Crisálida. Belo Horizonte, 2011.
- Jornal Correio de Pitanguy - edição de nº 83, ano IV, 2ª quinzena de outubro de 1990.
 
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2 comentários:

  1. Mais um trabalho que enriquece o conhecimento de nossa história. Parabéns ao blog, parabéns ao Leonardo Morato.

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  2. Obrigado William. Os trabalhos de pesquisa histórica e as leituras do cotidianos, realizados há quase cinco anos, vêm consolidando o Blog como uma boa fonte de informações sobre a Tricentenária Pitangui. Continuemos! Abraço.

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