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segunda-feira, 21 de abril de 2014

As consequências da abolição na vida de Francisco Botelho

     Esta abordagem não tem por objetivo denegrir a imagem do empreendedor Francisco José de Andrade Botelho, pretendo apenas complementar a biografia deste importante empresário a quem Pitangui muito deve.

     Francisco nasceu a 25 de outubro de 1838 em Carrancas e pouco mais de duas décadas depois já era um comerciante rico na capital do império. Como representante do seu comércio chega a Pitangui e imediatamente se apaixona duplamente, pela cidade e principalmente pela jovem Francisca Álvares da Silva. Já se considerando um pitanguiense após o casamento ele resolve se fixar de vez na cidade e vende sua parte da sociedade que mantinha no Rio de Janeiro. Homem culto e com visão de futuro segue o exemplo dos Mascarenhas (de quem era amigo) que haviam fundado uma fábrica de tecidos onde hoje é o município de Sete Lagoas e resolve montar uma na região de Pitangui, construindo então a 2ª fábrica de tecidos de Minas Gerais, a fábrica de tecidos do Brumado em 1873.

Francisco José de Andrade Botelho

     Quando Francisca morre prematuramente a 3 de agosto de 1886, falece também o entusiasmo de Francisco. O homem alegre, brincalhão e expansivo torna-se deprimido, inconsolado com a perda de sua jovem esposa indo encontrar no álcool um refúgio para sua tristeza. Com a saúde debilitada vai ao Rio de Janeiro em busca de tratamento mas as mudanças pelas quais passava a capital o deixaram ainda mais desolado. Desiludido ele se descuida da fábrica que passa a ter sérios problemas financeiros. Tudo caminhava para um fim de vida que contrastava com a vida esfuziante de Francisco em Pitangui.

Escritura de 1874 que documenta a venda da escrava Ana Francisca a Botelho

     Nada do descrito acima é novidade na biografia de Francisco, cuja vida foi muito bem narrada por Gumercindo Guimarães em obra da década de 1950. A partir de agora trataremos de um assunto que pode ter contribuído para que Francisco não suportasse um volume tão grande de atribulações em sua vida. Lendo os livros de registro que estão no Arquivo Público de Pitangui encontrei várias escrituras de compra e venda de escravos onde Francisco figura como uma das partes. Mesmo pertencendo ao partido liberal, deve-se lembrar que ele era um empresário com uma fábrica grande e que embora se tratasse de uma manufatura que demandasse uma mão de obra especializada, certamente ele fazia uso deste tipo de atividade. Para que a fábrica funcionasse no Brumado um rego de quilômetros de extensão foi aberto para que a água movimentasse o maquinário e com absoluta certeza foi utilizada mão de obra escrava, pois estes já tinham larga experiência adquirida desde os tempos da mineração. Este rego ainda abastece parte da população do Brumado.

Escritura de 1874 que documenta a venda do escravo José a Botelho

     Dentro da fábrica as atividades mais simples e que não exigiam uma especialização certamente eram delegadas aos cativos e nada impede que estes também se especializassem. Embora representassem um investimento alto a manufatura têxtil não era tão desgastante como o processo extrativista e o custo com um escravo era facilmente amortizado ao longo de sua prestação de serviço. Como liberalista Francisco sabia que corria o risco de ficar sem seus ativos e o golpe de misericórdia veio a 13 de maio de 1888 com a abolição da escravatura. Dois meses e dez dias depois, 23 de julho de 1888, Francisco falece em sua fábrica. Seu testamento determinava que todos os seus escravos deveriam ser libertos após sua morte, no entanto, naquele momento, todos aqueles já se encontravam livres.

Vandeir Santos


Nos seus 300 anos as estradas e histórias de Pitangui também são reais.

4 comentários:

  1. Caro Vandeir, qual é obra de Gumercindo Guimarães? Gostaria de me aprofundar mais na vida Francisco Botelho.
    Grato
    Lucas Navarro

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  2. Sou pesquisadora e me interesso muito pela histórias das fábricas têxteis, e das suas escolas. Gostei muito desta iniciativa de vocês. Parabéns! Também me interessei pela obra mencionada.

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    Respostas
    1. Olá Vera Lucia.
      Seja bem vinda ao blog.
      Esta postagem foi produzida por Vandeir Santos, um dos membros da equipe do blog. Nossa proposta é trabalhar o resgate da memória e divulgar a cidade de Pitangui, a "Sétima Vila do Ouro".
      Você é a Vera Lucia Nogueira? Em caso afirmativo conheço sua Tese de Doutorado "A ESCOLA PRIMÁRIA NOTURNA NA POLÍTICA EDUCACIONAL MINEIRA 1891/1924". Consultei sua tese quando estava levantando as fontes bibliográficas para minha dissertação.
      Também sou pesquisador e meu objeto de estudo é também a organização da instrução pública em Minas Gerais nas primeiras décadas da República, tem que explorei em minha dissertação de Mestrado "MUNICÍPIO, TRADIÇÃO E MODERNIDADE: A INSTRUÇÃO PÚBLICA E OS LIMITES DO PODER HEGEMÔNICO REPUBLICANO EM MINAS GERAIS (1892-1907)"
      Nesta pesquisa tomei como referência o município de Pitangui, onde resido atualmente.
      De toda forma, ficamos felizes, por sua visita e seu comentário, disponibilize seu e-mail que enviaremos uma cópia em PDF da biografia de Francisco Botelho para você.
      Um fraterno abraço.

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