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sábado, 5 de abril de 2014

Os primórdios da música pitanguiense


No livro "A música na história de Minas colonial"(1989), a autora Maria da Conceição Rezende (musicóloga da UFMG), aborda os primórdios da música em Minas Gerais. Apesar da dificuldade de fontes, Maria da Conceição apresenta informações relevantes para a compreensão da música mineira. Pitangui está presente nos relatos da autora.


A “Escola” de Pitangui

No oeste mineiro a “escola” abrange a sede de Pitangui (ex Vila de N. Sra da Piedade de Pitangui) e Itapecerica (ex Vila de Tamanduá)
É certo que os bandeirantes paulistas, partindo de Taubaté no ano de 1693, e aportados em Pitangui em 1695, procurando riquezas em solos inexplorados, miravam de longe o Morro da Esperança, Abaeté, Pium-í e o rumo de Goiás.

Seguiam o Rio São Francisco, a fim de descobrir a sua bacia e riquezas adjacentes. Sobre o Rio São Francisco escreveu o Dr. Teófilo de Almeida:
“O Jesuíta Pe. João Azpilcueta, de Navarra, que veio com Tomé de Souza, escrevendo a seu provicial, dizia em 1555: “Fomos até um rio, muito caldal, por nome Pará que, segundo os índios informaram é o Rio São Francisco”. Os índios conheciam, portanto, como Rio Pará, significado rio mar, rio grande. O nome de São Francisco é ocasionado por onomástico e o nome de Rio Pará ficou para o seu afluente. O Rio Pará, o cico, querido e caudaloso rio dos pitanguienses, tem sua origem no então Arraial de Noassa Senhora das Dores do Desterro, de Entre Rios de Minas” (Bibliografia: Dicionário Histórico e Geográfico de Waldemar de Almeida Barbosa, verbete Pitangui).

Quanto à música colonial de Pitangui, esta referência ao jesuíta Pe João Azpicueta, de Navarra, na Espanha, torna-se básica para a história dos primórdios da música em Minas Gerais; este ilustre jesuíta era músico e usava um organeto para firmar a entoação do canto que era ensinado aos “curumins” (filhos de índios) com a finalidade de entrar nos aldeamentos para a catequese. O Pe. J. Azpilcueta foi o primeiro jesuíta a pisar em Minas Gerais e foi a Companhia de Jesus que introduziu a cultura em Minas colonial.
Atualmente o acervo de música de Pitangui está na Casa do Pilar, em Ouro Preto. O Sr. Ranulfo Nunes foi um de seus guardiães.

Os Representantes

É importante lembrar que foi Sabará a sede da imensa comarca do Rio das Velhas; a Vila Real de Sabará é de 1711, sendo uma das três primeiras da Capitania. Eram-lhe agregadas: Vila de Pitangui e mais 7 entre arraiais, freguesias e a Vila de Caeté.
Enquanto “escola”, Pitangui bem afastada de Sabará, teve uma atividade musical autônoma, sendo irradiada até Itapecerica, antiga Vila do Tamanduá, em 1790, pertencente à Comarca do Rio das Mortes.
Poucas informações temos, pois em 1915 o incêndio destruiu completamente a igreja com os livros próprios.

Segundo pesquisa de F. Curt Lange sobre “A Música na Vila Real do Sabará”, encontra-se a citação “Relação dos Professores da Arte da Música”, sediados na Comarca de Sabará, que obtiveram seu ingresso na Irmandade de Santa Cecília de Vila Rica, nos anos 1816-17.

Nesta relação foram citados os seguintes músicos de Pitangui:

Caetano José Delfim
Manuel Duarte Queiroz
Francisco Ferreira Alberto
Manuel Caetano da Fonseca
Reginaldo Pereira de Barros
Domingos Antônio Pereira
Felipe Anônio Peres
Domingos Jos´-e Pinto
José Rodriguez Dominguez de Meirelles
Antônio Francisco Rodriguez
Marcos Rodrigues Sobreira
Joaquim José da Silva
José Joaquim da Silva
Joaquim José Vieira Pinto

O chefe da “escola” de Pitangui foi José Rodriguez Dominguez de Meirelles. Deste famoso compositor, chegou até nós uma pequena parcela de sua obra da qual cita-se:
- Ofício de Domingo de Ramos (1810)
- Ofício de quarta-feira santa (Zelus Domus)
- Ofício de quinta-feira santa (Astiterunt Reges)
- Ofício de Finados
- Trezena de Santo Antônio (Christium Dei Filium)
- Ária a solo “Ó lingua benedicta”
- Antífona portuguesa de Santa Rita
- Antífona de São José

A música em Pitangui - visão atual

Transcrevemos, linhas abaixo, o que escreveu em “escavações” – página 60, o Comendador Gomes da Silva: 

“Um dos característicos que mais se acentuam nos filhos de Pitangui, é o seu gênio musical.”

Raramente se encontra um pitanguiense que seja profano na arte inimitável de Carlos Gomes. E alguns dentre eles, como Soares da Silva, Major Nunes, Gomes da Silva (pai) e outros, deixam perpetuados seus nomes, cuja lembrança, melancolicamente saudosa, será de contínuo evocada pelas inebriantes e sublimes composições, que decorreram de suas penas inspiradas e cintilantes. Tinha razão Quim Antônio. Quando Pitangui era menor, e seus filhos na emigravam, a cidade era famosa de “terra da boa música”. Porém, a verdadeira música, a clássica, despontou entre nossos antepassados com os gênios privilegiados e artísticos de José Soares da Silva e José Nunes de Carvalho. Este e seu irmão Joaquim Nunes de Carvalho (Quim Nunes), vieram, ainda jovens, de Mateus Leme e aqui constituíram família. Já o povo  não cansava de repetir o aforismo: “Filho de Nunes já nasce músico”. Advogados provectos e maestros consumados, José Soares e José Nunes tiveram seus nomes aureolados de glória. Suas composições clássicas alcançaram ressonância no Brasil e no velho mundo ultramarino.

Fonte: REZENDE, Maria Conceição. A música na história de Minas – Belo Horizonte, Itatiaia, Brasília, DF : INL, 1989.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo garimpo, Dênio! Noto que seu estudo vem sendo direcionado para a História da Música e tenho certeza de que ainda renderão outros bons frutos para Pitangui. Quem sabe um Mestrado?!

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  2. muito legal a importância da família Nunes !!!

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  3. É muita alegria poder falar de música, de Pitangui e da história de ambas. Uma felicidade maior é ver a minha família envolvida em tudo isso. Parabéns Dênio. Concordo com o Leonardo quando diz que você vai fazer um mestrado em música. Vá em frente. José Carlos Xavier

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