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segunda-feira, 12 de maio de 2014

O dia em que o "demoin" apareceu para o "Santinho" pitanguiense

     Meu pai (José Alves de Campos Filho - Santinho - 1930-2011) nasceu e foi criado na fazenda do Mandassaia, situada a direita do povoado de Campo Grande, a cerca de seis quilômetros de Pitangui. Assim como o restante da família foi criado para o trabalho dentro de uma educação extremamente rígida que era voltada exclusivamente para as atividades produtivas da propriedade. Meu avô, dizem, era o supra sumo da ignorância e assim impunha a condição de vida para toda a família. A diversão praticamente não existia, quando muito se resumia nas festas religiosas ou casamentos. Desta forma ele não teve acesso a nenhum tipo de cultura que não fosse a religiosa e a música de raiz entoada com sanfona e viola e também era facilmente hipnotizado com o som das bandas que tocavam nas festas de São João.

José Alves de Campos Filho - Santinho

     Com esta formação era natural que estranhasse tudo aquilo que fugia ao seu conceito de mundo correto, musicalmente abominava tudo aquilo que não fosse música de raiz. Passava horas escutando Tonico e Tinoco, Lourenço e Lourival, etc.. Com a ida para Contagem passou a conviver com uma realidade que para ele era torturante e dentro de uma visão institivamente preconceituosa criticava os conjuntos que se apresentavam na televisão quando costumava a se referir a baixos e guitarras como “violão de maconheiro”.
Um dia, assistindo ao Jornal Hoje (não perdia nenhum noticiário), começa a ser exibida uma matéria sobre a banda KISS, ainda não estavam mostrando imagens da banda, mas ao fundo já se ouvia o som do hard rock que era tocado. De imediato começou a fazer críticas e se voltando para minha mãe já se adiantou:

 - Santa, isso é coisa do “demoin”
-  Só pode ser coisa do “demoin”, Santa
-  Vê se isso não é coisa do “demoin”, Santa

     Minha mãe já impaciente com as críticas contestou:

- Deixa de ser bobo Santinho, onde já se viu o “demoin” aparecer na televisão.

     Eis que na tela aparece Gene Simmons vocalista da banda com aquela maquiagem realmente demoníaca e colocando sua enorme língua para fora balançando-a freneticamente. Era a confirmação de toda desconfiança do meu pai:

-  Olha lá Santa ! Vê se aquilo não é o “demoin”! Vê se uma pessoa normal tem uma língua daquele tamanho! É o “demoin”, Santa!

Gene Simmons - baixista/vocalista da banda Kiss - Fonte: Internet

     Nisso Alvimar meu irmão já se contorcia em gargalhadas vendo meu pai ser justificado em suas convicções. Mal sabia meu pai que o apelido de Simmons dentro do folclore da banda é justamente The Demon – O Demônio.

Vandeir Santos


Nos seus 300 anos as histórias e estradas de Pitangui também são Reais

11 comentários:

  1. Vandeir, parabéns pelo ótimo texto, muito engraçado. Me fez lembrar passagem do Kiss por Belo Horizonte, na década de 1980, época de vacas magrelas e, eu sem um puto no bolso fui com uns malucos amigos meus vender cachaça do lado de fora do Mineirão. A notícia que corria na imprensa era que a banda tinha parte com o "Demoin" mesmo, que eles iam arrancar a cabeça de morcegos no dente quando subissem ao palco..a cidade se movimentou com aquele evento, afinal, o Kiss era um ícone do Hard Rock dos anos 70', eu mesmo estava muito afim de ver aquele show.
    Chegamos no Mineirão e armamos nossa banca de cachaça, levamos cinco garrafões de pinga e copinho de café descartável para vender as doses.Fazia frio, por isso, de vez enquanto mandávamos uma lapada pra dentro também....Fui ficando alegrin e saí andando com um garrafão e um saquinho de copos descartáveis oferecendo a iguaria etílica aos rockers que chegavam para o show...de repente me vi cercado por um grupo de evangélicos, que fizeram um círculo em torno de mim. Eram todos jovens como eu e havia um pregador que apontava para mim e dizia que eu estava dominado pelo "Coisa Ruim"...em meio a gritos de "aleluia"...Resolvi interromper aquela pregação e ofereci cachaça para eles....a confusão ficou ainda pior quando aparecerem quatro detetives da polícia civil querendo saber que confusão era aquela... Eu fui logo falando que não aceitava ser recriminado por pecadores como eu...Um dos detetives me perguntou o que tinha dentro do garrafão e eu falei que era cachaça e que estava vendendo...aí ele falou para eu beber uma dose...eu disse que não...ele retrucou dizendo que se eu não bebesse iria preso....aí eu bebi...e ele me dizendo pra beber mais e eu fui bebendo...foi então que resolvi encher um copinho e falar para ele beber também...que a pinga não era "batizada"...os outros detetives caíram na gargalhada e eu ouvi daquele que me abordara para eu sumir da frente dele...eu disse sim senhor e sai cambaleando....rsrsrsrs...ao encontro dos meus amigos...noite incrível...depois fiquei sabendo que uma menina despencou da arquibancada na geral durante o show....
    O Atlético tinha comprado do América um jogador chamado Paulinho, que foi preso no show com um cigarrinho do "Demoin"...Daquele dia em diante a crônica esportiva de Belo Horizonte passou a chamá-lo de "Paulinho Kiss".
    Ficamos do lado de fora ouvindo a pauleira rolando lá dentro. Bons tempos...

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    1. Mas que coisa! Espero ter conseguido imaginar corretamente a cena. kkk!! Muito boa!

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    2. Como bem disse Belchior em uma velha canção...na juventude o coração é selvagem....kkkkkk...livre para todas as aventuras. A cena foi surreal...com pitadas de comédia e dramacidade, isto eu poço lhe garantir....kkkkkk..

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  2. Eu estudava no Pio XII, oficialmente as irmãs não falaram nada mas nas conversas informais elas comentavam que não era um programa decente ir ao Mineirão ver a banda. Não houve nenhum pronunciamento radical, acho que no fundo elas sabiam que aquele visual era mais uma jogada de marketing.

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    1. As pessoas mais esclarecidas não deram bola para aqueles comentários pejorativos sobre a banda, mas a imprensa explorou bem...kkkkk....O programa do José Lino Souza Barros, na rádio Itatiaia fez até enquete com os ouvintes...kkkkk...

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  3. Muito boa história! Tô rindo sozinho aqui, rsrs.

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  4. Não conhecia esse lado "contador de causos", do Vandeir, mais para Indiana Jones do que para Rolando Boldrin. Esperamos mais contos desse quilate. Com essa amostra, já podemos pensar num "Beira de Balcão" mais volumoso, kkkkk. Parabéns!!!

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    1. William, no passado postei alguns "causos" que minha mãe nos conta. Veja: http://daquidepitangui.blogspot.com.br/2012/04/historias-do-povo-de-pitangui.html e http://daquidepitangui.blogspot.com.br/2012/05/historias-do-povo-de-pitangui.html

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  5. Ei Vandeir.
    Gostei.
    Gostei de conhecer o seu pai, o Santinho, ele se parece com o Humberto, filho da Carmelita, um dos "tibola".
    Gostei do caso.
    Gostei do relato
    Gostei principalmente de ver como vc está com desenvoltura para escrever. O texto que voce produziu contém introdução, desenvolvimento e conclusão como se espera. Gostei muito das maneira como você apresentou os fatos, a leitura prendeu minha atenção e não tive vontade de parar no meio do caminho ou saltar alguma parte. Gostei muito.
    Estou realçando esta parte do meu comentário porque estou percebendo que você avança em passos largos rumo a sua maior vocação.... Acredito muito em você e estou certo de que com a massa mãe de conhecimentos e esperiências que vc vem acumulando sobre as coisas que realmente lhe são importantes você já é um sucesso.
    Grande abraço.
    Geraldo Wagner Gonçalves
    Praça Antonio Fiúza
    Pitangui/MG

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    1. Obrigado Geraldo Wagner, o que me move é a vontade de promover Pitangui, de ver a cidade lembrada, comentada, referenciada. Na medida do possível tento através de minhas raízes valorizar nossa cultura e nossa história. Pitangui ainda tem muita história para ser contada, uma pena que poucos tem disposição.

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