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terça-feira, 29 de julho de 2014

Patesko Nunes & Waldir Silva


O jovem Prof. Patesko com um aluno aplicado, em Pitangui. 
(Fotos cedidas por José Carlos Xavier de Oliveira, filho do Prof. Patesko) 

Na postagem de hoje falaremos sobre dois notórios da música de Pitangui. O mestre era pitanguiense nato e o aluno ilustre, nascido em Bom Despacho, era pitanguiense adotivo, de coração, que foi abraçado por esta terra. Você sabia que o grande músico Waldir Silva era discípulo do Patesko Nunes? O professor Patesko é autor de diversos arranjos, músicas e do Hino a Pitangui conforme mostramos na postagem de sábado passado. E, nesta oportunidade, ainda em tempo, também homenageamos o saudoso Waldir Silva, falecido em setembro de 2013, que muito elevou o nome de Pitangui através da música. Confira a matéria abaixo:
Banda pitanguiense com Patesko Nunes na bateria.
 DOIS TALENTOSOS MÚSICOS DO ALTO SÃO FRANCISCO
(do mestre pouco conhecido ao discípulo famoso)
Por Luiz Otávio Savassi Rocha (Out/2013)
savassi@estaminas.com.br
 
José Nunes de Oliveira (17/10/1924 – 6/11/1992), cognominado Prof. Patesko, recebeu tal alcunha em face de sua semelhança física com Rodolfo Barteczko (12/11/1910 – 13/3/1988), vulgo Patesko, filho de poloneses, atleta profissional do Botafogo de Futebol e Regatas e o primeiro paranaense a figurar na seleção brasileira de futebol em copas do mundo.
 
Compositor inspirado e violonista autodidata, familiarizado com os acordes dissonantes da Bossa Nova, Prof. Patesko chegou a lançar, sob forma de livro, um método para o estudo de seu instrumento predileto – Violão a jato –, fruto, segundo suas próprias palavras, de “30 anos de experiência”. No prefácio desse livro, assim se expressa o talentoso professor, adepto da aprendizagem “por música”: “Sou um homem que não tem vaidade pessoal e nenhum interesse me move. Mas acontece que frequentemente encontro pelas ruas pessoas que me fazem, como por exemplo, perguntas assim: ‘Patesko, como pôde você decorar tantos acordes e nunca os esquecer?’. A tais pessoas, respondo que nunca decorei e nem me preocupo em decorá-los. Eu apenas os armo na hora, graças aos meus conhecimentos musicais.” 

Imbuído desse espírito, Prof. Patesko ministrou memoráveis aulas de música para dois de meus filhos – Alexandre (violão) e Guilherme (cavaquinho); ademais, com a participação, na flauta, do Renato, meu filho caçula – discípulo do saudoso Juvenal Dias –, montou  um  trio musical nos moldes do chamado Choro Carioca (Choro do Callado), nome atribuído ao conjunto criado pelo compositor e instrumentista Joaquim Antônio da Silva Callado na segunda metade do século XIX (composto, então, por flauta – instrumento solista –, cavaquinho e dois violões).

Muito antes, porém, nos anos 1940, em Pitangui, a “Sétima Vila do Ouro”, sua terra natal, o jovem Patesko converter-se-ia no primeiro professor de cavaquinho de Waldir Silva (28/5/1931 – 1/9/2013) que, egresso de Bom Despacho, aportou ainda criança naquela cidade. Ao saber que o novo aluno adotava a afinação natural – Ré, Sol, Si, Mi –, de modo a transformar seu rudimentar instrumento, construído com cravelhos de pau, numa espécie de “violãozinho”, aconselhou-o, não sem lhe criar alguma dificuldade, a adotar a afinação tradicional – Ré, Sol, Si, Ré –, que considerava a mais adequada.

Quis o destino que eu me tornasse amigo tanto do Prof. Patesko quanto de Waldir Silva, e que, ao final de suas trajetórias terrenas, eu me tornasse médico de ambos. Antes, porém, no final dos anos 1980, promovi um inesquecível sarau em minha casa, com as presenças do mestre e do discípulo, além dos músicos Geraldo Vianna, Paulo Freire dell’Isola (Paulinho 7 cordas) e Oszenclever Camargo de Carvalho. Essa reunião afetivo-musical teve o condão de despertar nos dois convidados especiais as mais gratas recordações. 

Em sua bem-sucedida carreira musical, Waldir Silva notabilizou-se por ter ajudado a tirar o cavaquinho da “cozinha” e levá-lo para a “sala”, para usar uma linguagem familiar aos chorões; ou seja, por ter ajudado a promover a ascensão do instrumento, que, em suas mãos, passou de mero coadjuvante (“cavaquinho-centro”) a ator principal (“cavaquinho-solo”), a exemplo do que haviam feito, a partir dos anos 1940, Aníbal Augusto Sardinha (Garoto) e Waldir Azevedo, principais responsáveis por essa mudança de paradigma. A propósito, no programa Memória e Poder, levado ao ar pela TV Assembleia em fevereiro de 2009, Waldir Silva credita sua opção pelo “cavaquinho-solo” sobretudo à influência que sofreu de Waldir Azevedo que, ao levar o cavaquinho para a “sala”, auferiu enorme sucesso, dentro e fora do Brasil, bastando citar, para comprová-lo, o caso de Delicado, composição datada de 1951: quando de uma tournée musical pelo Oriente Médio, o compositor carioca deparou, numa tenda árabe onde se vendiam souvenirs, com uma caixinha-de-música artesanal que, para seu encantamento – e para espanto do vendedor –, tocava o famoso baião. Por conseguinte, para que obtivesse algum destaque em face do extraordinário prestígio do músico homônimo, Waldir Silva precisava levar seu instrumento para a “sala” de forma criativa e original. Foi, na verdade, o que fez, graças ao seu invulgar talento e ao apoio que lhe deu Hervé Cordovil, maestro mineiro radicado em São Paulo. Valendo-se da condição de radiotelegrafista, gravou, em 1961, a composição Telegrama musical, baseada, toda ela, no Código Morse, composição essa que se tornaria uma espécie de hino dos telegrafistas brasileiros e que lhe abriria, definitivamente, as portas do sucesso.

Ao contrário do que muitos pensam, Waldir Silva não tocou apenas cavaquinho. Tanto assim que, numa palestra sobre o Choro, ilustrada com fragmentos de peças musicais, por mim proferida na Funarte, em 6/4/2009, reproduzi, para surpresa geral, trecho do choro-canção Porto dos Casais, por ele interpretado em solo de viola caipira na última faixa do CD Os sucessos (Copacabana/EMI, 1998). Essa singela homenagem muito o emocionou, pois, encontrando-se na plateia, foi calorosamente aplaudido por todos os presentes. A título de curiosidade, ressalte-se que o referido choro-canção, cujo título evoca o antigo nome da capital gaúcha, foi composto por Jayme Lewgoy Lubianca, engenheiro agrônomo de ascendência judaica que, junto com alguns companheiros, fundaria, em 1989, o Clube do Choro de Porto Alegre. O fato de ter prestado a Waldir Silva uma homenagem em vida tem me servido como lenitivo e consolo após a perda do querido amigo. Homenagem maior, porém, prestou-lhe o consagrado músico Flávio Henrique, dedicando-lhe inspirado choro, composto em 1º de setembro de 2013, ainda sob o impacto de sua morte, ocorrida naquele mesmo dia. Abaixo, reproduz-se a partitura, gentilmente cedida pelo autor.


À guisa de arremate, devo dizer que, em março de 2013, fui testemunha de uma cena por demais comovente, protagonizada pela filha de uma paciente: ao se deparar, em meu consultório, com a inconfundível figura de Waldir Silva, a quem “adorava”, e cujos discos possuía-os todos, iluminou-se-lhe o semblante, de modo a reforçar em mim a convicção de que os artistas queridos pelo povo estão incluídos entre os grandes benfeitores da humanidade.



Waldir Silva.

Participou desta postagem: Dênio Caldas.

6 comentários:

  1. Fala Léo. Não tinha observado que a postagem tinha sido produzida por você. Parabéns, ficou muito bacana. Abraço.

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    1. Valeu professor! Na verdade foi uma parceria, o Dênio garimpou o link e eu desenvolvi a postagem. Mais um registro histórico do Daqui de Pitangui. Um abraço.

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  2. Este blog está demais. Tive a honra de tomar conhecimento deste texto sobre Waldir e Patesko, escrito pelo Dr. Savassi, um conhecedor de Choro como ninguém, em sua residência em Belo Horizonte.Espero que todos possa curtir e gostar destas histórias, que fazem valer, de verdade, a música brasileira de qualidade. Obrigado por toda esta divulgação.Abraços. José Carlos Xavier.

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    1. Obrigado pelo incentivo ao trabalho do Blog, José Carlos. O espaço está aberto a você para novas contribuições sobre a música e outros assuntos relacionados à nossa terra. Um abraço.

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    2. Oi Leonardo,
      Agradeço a oportunidade de fazer parte deste trabalho junto com todos vocês. Parabéns.
      Estou sempre às ordens para discutirmos outros assuntos além da música, é claro. Abraços. Zé Carlos

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