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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Vasquistas e Gonçalvistas: o papel da imprensa local na disputa pelo poder em Pitangui


Vasco Azevedo

Na última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o cenário político em Pitangui foi marcado por disputas pelo poder entre dois grupos rivais: o primeiro, liderado por Vasco Azevedo e o segundo, por José Gonçalves de Souza. Ao redor destas duas lideranças políticas locais se reuniam as tradicionais famílias do município dando origem, então, ao "Partido Vasquista" e ao “Partido Gonçalvistas”. As origens das disputas entre estas duas frações de classe remontam ao ano de 1892, quando Vasco Azevedo assume a presidência da Câmara Municipal sendo nomeado Chefe do Executivo, ou seja, assume o cargo de prefeito (DINIZ, 1969). 
A partir de 1895 a oposição à Vasco Azevedo se acirrou, quando os opositores atraíram importantes membros de famílias tradicionais que apoiavam o, então, Chefe do Executivo. Por esta época, José Gonçalves de Souza, natural de Itaúna, ocupava o cargo de Juiz de Direito no município e estreitava seus laços com membros das famílias que se opunham aos “vasquistas”. Rapidamente tornou-se a principal liderança deste grupo, que passaram a ser chamados de “gonçavistas”. ´
Em 1896 o “Partido Gonçalvista” vencia as eleições municipais e José Gonçalves de Souza assumiria a presidência da Câmara e o Cargo de Chefe do Executivo local no ano seguinte. Este grupo se manteve no poder até 1927, sem, no entanto, deixar de sofrer a oposição do “Partido Vasquista”, cujo líder seria eleito deputado estadual em 1899, com legislatura até 1902.
O jogo político predominante no decorrer da Primeira República (1889-1930) fora marcado por praticas como o “voto de cabresto”, o “curral eleitoral” e o “alistamento eleitoral”, práticas que favoreciam os interesses políticos das oligarquias instaladas no poder. O poder dos coronéis que gozavam do apoio do governo estadual determinava os resultados eleitorais. Geralmente, a oposição não vencia as eleições devido às fraudes eleitorais muito comuns naquele período. A inexistência de um órgão fiscalizador do processo eleitoral facilitava a manipulação dos resultados.
Além desses artifícios, os grupos políticos locais mantinham jornais que tinham como principal objetivo fazer a propaganda política do grupo que o mantinha. Em Pitangui os dois grupos políticos citados anteriormente mantinham seus veículos de imprensa. Vários jornais foram editados na cidade, alguns com vida efêmera, apenas para promover a propaganda política, em época de eleições, outros, de circulação mais duradoura.
No início de 1904, a questão do alistamento eleitoral ganhou as páginas dos dois jornais editados em Pitangui: “O Pitanguy”, mantido por José Gonçalves de Souza e “A Justiça”, cujo proprietário e editor era Vasco Azevedo. Naquele momento, o alistamento eleitoral no município gerou grande polêmica, pois, era comum, impugnarem a participação de vários eleitores. Isto se dava da seguinte forma: no ato do alistamento eleitoral o nome do eleitor era grafado de forma errada ou seus sobrenomes eram escritos em ordem alterada, dessa forma, no dia das eleições, o nome do eleitor não constaria na lista de alistamento eleitoral devido a este erro proposital. Geralmente, os mais prejudicados com esta irregularidade eram os eleitores da oposição.

José Gonçalves de Souza

Os gonçalvistas sabiam da força do eleitorado vasquista, por isso, no alistamento eleitoral promovido no final do segundo semestre de 1903, anularam o alistamento de vários eleitores de Vasco Azevedo. Nesta época José Gonçalves ocupava uma cadeira no Senado Estadual. Em trinta e um de janeiro de 1904, o jornal gonçalvista “O Pitanguy” trazia na primeira página o editorial intitulado “A Verdade”, que reproduzimos abaixo respeitando a norma culta em vigor naquele período histórico. É interessante observar o tom provocativo do editorial.

 A Verdade
Quem se deu ao trabalho de acompanhar o serviço de alistamento eleitoral, neste município,  deve, nesta hora, estar bem convencido, mais do que convencido de que os adversários do redator desta folha não contam elementos senão fracos, muito fracos mesmo, em todo o município.
Foi isso que ficou bem claro, claríssimo, dos esforços que fizeram para apresentar uma força que não têm, elementos que não possuem.
Quiseram, é certo, impedir o brilho da verdade, mas Ella ahi está patente, rutilante para os que quiserem ver, postos de lado os boatos que os adversários propositalmente fizeram espalhar.
Em 20 de maio, terão os nossos amigos a confirmação do que dizemos nestas linhas, pois a vontade do povo do município confundirá os manejos da politicagem.
E, senão, veremos.
Estiveram nesta cidade, no ultimo dia de alistamento eleitoral os nossos amigos, os senhores Joaquim da Cunha Sá e Castro, Moyses Ribeiro, Joaquim José do Amaral, Pedro Silvério Soares e Antônio Orsini.

Os vasquistas responderiam ao editorial gonçalvista na edição de vinte e cinco de fevereiro de1904, do Jornal “A Justiça”, que trazia, em tom de denúncia matéria creditada a Vasco Azevedo, que também tinha por título “A Verdade”. Vejamos o teor da matéria:

A Verdade
O Dr. José Gonçalves completamente envergonhado com o resultado do alistamento eleitoral, estampou em seu jornal de 31 de janeiro uma como que satisfação aos que se illudem com seu prestígio no município, sob o título “verdade”.
Mas, -verdade -  para o Dr. Gonçalves, é uma palavra vã e sem significação, da qual elle apenas se utilisa como ‘reclame’ de suas mentiras do mesmo modo que o commerciante inscreve de suas testadas os rótulos: - Barateza sem igual; casa do povo: genuíno vinho do porto, e outros que taes, quando a verdade é que, de ordinário, o negociante e o vende mais caro, sua casa nenhuma confiança inspira ao povo, e seus vinhos são, na maioria dos casos completamente falsificados! [...]
[...] Disse o Dr. Senador, e disse-o com vírgulas demais e com vírgulas de menos, o seguinte: ‘quem se deu ao trabalho de acompanhar o serviço de alistamento eleitoral, neste município deve, nesta hora, estar bem convencido, mais do que convencido de que os adversários do redactor desta folha não contam elementos senão fracos, muito fracos mesmo, em todo município. Foi assim que ficou bem claro, claríssimo, dos esforços que fizeram para apparentar uma força que não têm, elementos que não possuem’.
É impagável o homem! Pois se nossos elementos são fracos, se nossas forças são apparentes, qual a necessidade de estar S. Ex. sangrando-se em vida, dando o signal, de alarma contra o que não existe, contra o que é apparente? É que, apparente era o prestígio que S. Ex. mostrava até agora, porque se alicerçava na fraude que campeava impune em todo o município, com o placet de uma descarada oligarquia municipal [...]
E como poderíamos nós apparentar forças que não temos, elementos que não possuímos, se nos districtos todas auctoridades e funccionarios públicos adrede escolhidos entre os menos escrupulosos, nos cerceavam todos os meios de prova para os alistandos, ao passo que não ampliavam aos nossos adversários. Como poderíamos conseguil-o, se, luctamos contra um partido, cujo chefe é Senador Estadual, tem todo apoio dos governos, dispõe da Camara Municipal, de auctoridades policiaes e judiciárias no município, e entabula e mantem escandalosas transações commerciaes, com fins políticos, para um estabelecimento insdustrial de que foi ou é director gerente? Não! Nossa força não é apparente, são sólidos, e são porque nascem do apoio que nos prestam prestigiosas influencias dos districtos e homens dos districtos e homens que, embora excluídos pelo Dr. Gonçalves, do número de homens de bem, não receiam com V. Ex. comparação [...].

Os insultos, as denúncias, as intrigas e piadas publicadas nos jornais se enquadram no que Gramsci (2000) identificou como pequena política desenvolvida por meio da apropriação dos aparelhos privados de hegemonia, como os jornais. Apresentamos a seguir, mais um exemplo desta prática. Era comum nos jornais dessa época a publicação de trovas criticando ou ridicularizando um adversário político. O jornal “A Justiça”, na edição de dezesseis de junho de 1904 trazia um exemplo dessas trovas, cujo alvo era o, então Senador Estadual, José Gonçalves:

O senhor Zé de Souza
Foi trabalhar no Senado
Diga e faça alguma coisa
Não fique só no – Apoiado!

O uso da força e da violência também era comum no contexto coronelístico da Primeira República. Na edição de vinte e oito de abril de 1904, “A Justiça” trazia uma matéria assinada pelo Padre Joaquim Xavier Lopes Cançado, correligionário político de Vasco Azevedo, denunciando possíveis abusos praticados pelo grupo instalado no poder. Eis uma fragmento da referida matéria:

Derroquemos a Bastilha
O partido situacionista de Pitanguy não tem o critério para governar. [...] O Dr. José Gonçaves é um suggestionado e, como Dyonísio de Siracusa, habituou-se ao regimem do terror. Na Revolução Francesa daria para digna parelha de Marat.

Na edição de quinze de janeiro de 1905, o mesmo jornal trazia na primeira página matéria carregada de ironia:

Na lista dos Agentes Executivos para 1905 a 1907 a nossa estimável collega “Democracia” de Oliveira, incluiu o Senador José Gonçalves como tendo aqui sido reeleito.
O collega enganou-se: o Senador até aqui era Agente Executivo de direito, mas não de facto.
Agora nem de facto nem de direito.
Simples vereador, passando, como dizem os caipiras, da sella para a cangalha.

Ainda, na mesma edição, na coluna “Piadas”, o jornal apresentava as quadras abaixo:

O Senador está de vez
Atacado de nevros...
Da comedia como inglel
Diz:”mim está furiose”

A bella musica sonora
Incommoda o Senador
E nomes feios p’ra fora
Despeja. É um Horror!

Si vereador probidoso
Não lhe acompanha a mesura
Espuma, fica furioso
E deita descompostura

Qualquer cousa nervosia
Ao homem faz em instantes
Agencia largar não queria
Devia pensar isso antes...

A questão do alistamento eleitoral reapareceria nas páginas do Jornal “A Justiça” em meados de 1905. A edição de onze de junho daquele ano trazia na primeira página a seguinte nota:

O Alistamento
Antes de hontem, á tarde, foi affixado o edital obre o alistamento.
A Commissão indeferiu mais de 200 requerimentos de eleitores opposicionistas.
Os prejudicados vão interpor o recurso legal contra essa decisão inspirada pelo partidarismo.

Como podemos perceber, os artifícios dos gonçalvistas para minar o poder do eleitorado vasquista foram colocados em práticas no alistamento eleitoral ocorrido naquele ano. O pai de Vasco Azevedo teve seu requerimento indeferido pelos responsáveis pelo alistamento eleitoral conforme noticiou “A Justiça”, em edição de dois de julho de 1905:

[...] Aprecie-se o alto feito do Senador José Gonçalves.
O Tenente Coronel Pedro de Azevedo Souza Filho, a quem o redactor desta folha se honra de ter como pae, requereu sua inclusão no alistamento eleitoral, recentemente feito, instruindo a sua petição com os documentos exigidos por Lei, sendo o de residência feito e firmado pelo Sr. Capm. Francisco TiburcioFerreira e Silva, 1º Juiz de Paz em exercício do cargo de Juiz Supplente.
Por ser pae de Vasco Azevedo e não ser sympathico ao senador José Gonçalves, n’um aceso de hysterica prepotência, esquecendo-se dos serviços de valor prestados a esta cidade e á Patria pelo Tenente Coronel Pedro Azevedo e desrespeitando as honradas cans do velho patriota, entendeu elle de mostrar que “muito pode” e propoz e obteve da commisão o indeferimento da petição.
[...] De tudo o que ficou exposto resultam duas verdades: o honrado patriota Tenete Coronel Pedro de Azevedo não é um vagabundo; o Senador, Dar. José Gonçalves é...um pobre de espírito.


O que apresentamos aqui é uma pequena amostra do cenário político em Pitangui, no início do século XX. Devemos compreender que as denúncias apresentadas pelos vasquistas não os excluem de exercerem as mesmas práticas políticas.  É importante lembrar que as disputas entre frações de classe pelo poder local se manifestava em todo estado de Minas Gerais e, geralmente, o grupo que detinha o poder usava dos artifícios apresentados aqui para se perpetuarem no poder.

2 comentários:

  1. O pior disso tudo é a herança política que sobrou para Pitangui. Deste o final do século XIX a pratica de se governar para o partido atrasa o desenvolvimento da cidade mãe do centro-oeste mineiro que viu todas as suas cidades filhas se tornarem enormes centros urbanos enquanto ela mesma amarga uma estagnação que lhe priva de um futuro melhor. Infelizmente a politicagem (o oposto da boa política) ainda demonstra sobreviver aos tempos e o pitanguiense se vê prejudicado em seus direitos de cidadão porquê determinado benefício é "coisa do outro lado". Para a realidade da política pitanguiense a famosa frase deveria ser modificada para se tornar coerente com a nossa realidade " Todo poder emana do partido e em benefício deste deve ser exercido". Quando teremos uma política voltada ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE para o cidadão de Pitangui?

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