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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Parem as turbinas! O rio secou.

     Quando Francisco José de Andrade Botelho resolve construir em Pitangui uma fábrica de tecidos, a primeira opção de local recaiu sobre a fazenda da Ponte Alta, mas o terceiro marido de Amélia Lobato (matriarca dos Lobato Pitanguienses), José Quintiliano Rodrigues Pereira, se mostrou contra a venda. Restou a Francisco a segunda opção que foi a parte baixa do Brumado. A escolha do local estava condicionada a um fator fundamental para o funcionamento do maquinário: água!


     Em Brumado não nos foi possível descobrir se Francisco reaproveitou trechos de um antigo rego de mineração ou se mandou abrir um rego de quilômetros de extensão para que a água chegasse com uma altura suficiente para girar o maquinário. Detalhe, não estamos falando aqui em energia elétrica e sim mecânica. A água movimentava uma roda que transmitia a rotação diretamente para o maquinário. A tubulação original ainda se encontra no local da fábrica e muitos no Brumado ainda fazem uso desta água.

Antiga fábrica do Brumado, no alto, a direita, é possível observar a construção
 da nova unidade em local mas alto, foto provavelmente de 1913/1914

     O terreno baixo e alagadiço era um problema mas estamos falando do ano de 1873 e a primeira hidrelétrica do Brasil só veio a funcionar em Diamantina em 1889. Foi somente em 1911 que a direção da já então Companhia de Tecidos Pitanguiense resolvem comprar a cachoeira de Bento Lopes, no rio Pará,  para a construção de uma usina hidrelétrica e no dia 02 de fevereiro de 1914 a fábrica do Brumado já estava servida de energia elétrica fornecida pela Usina de Bento Lopes. Isto permitiu a transferência da fábrica para a parte alta do bairro e também a construção da unidade no centro de Pitangui.

     Além de abastecer as unidades fabris a usina também foi responsável pelo fornecimento de energia para as cidades de Pitangui, Conceição do Pará, Papagaios, Cercado (Nova Serrana) e Perdigão. Com a estatização do fornecimento de energia a usina passa a atender somente as fábricas de Brumado, Pitangui (atualmente desativadas) e Pará de Minas.

Foto antiga da usina

     De início eram duas turbinas e posteriormente foram montadas mais duas. Em um convite para os festejos da visita do governador Juscelino Kubistchek, anunciava que às 09:00 do dia 30 de agosto de 1953 seriam inauguradas as “novas unidades hidro-elétricas da Companhia Tecidos Pitenguiense”. Não nos foi possível confirmar se tal inauguração contemplava o aumento do número de turbinas.

Turbinas situadas na parte inferior da usina. Foto: Cláudio Faria

     Com as necessárias modernizações a agora chamada Usina Dr. José Lima Guimarães chegou aos seus 100 anos de funcionamento com uma capacidade geradora de 1,6 mWh (megaWatt/hora), isto em condições normais de disponibilidade de água, mas...

Turbinas situadas na parte superior da usina. Foto: Cláudio Faria

     Como consequência do extenso período sem uma ocorrência de chuvas em volume satisfatório o nível da água do rio Pará vem caindo drasticamente e em uma visita a usina no dia 23 de agosto o operador de usina Geraldo Márcio Moreira nos disse que havia só uma das quatro turbinas em funcionamento, mesmo assim gerando apenas 230 kWh (quilowatt/hora) o que já não era suficiente para fazer funcionar o maquinário da fábrica de Pará de Minas. No mês seguinte, pela primeira vez em uma história de um século de funcionamento, o responsável pela usina Rogério Martins Braga se viu obrigado a fechar a última comporta e manter a derradeira turbina em giro mínimo gerando apenas 16 kWh o suficiente para manter a rede energizada. Persistindo este período crítico de seca, esta última turbina corre o risco de ser totalmente paralisada.

Situações extremas do rio Pará. A esquerda em época de cheia
 e a direita o rio atualmente. Foto: Vandeir Santos

Vandeir Santos


Um comentário:

  1. Excelente postagem Vandei. Resgata a memória desta precursora da indústria têxtil de grande porte em Minas Gerais e, nos lembra o centenário da usina, que passava despercebido.
    A situação está crítica...este modelo de produção de riqueza chamado capitalismo precisa ser profundamente repensado, caso contrário a vida desaparecerá deste planeta.

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