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sábado, 29 de novembro de 2014

Os 100 anos do crime da ponte

     O ano de 1914 mal havia começado e Pitangui se viu abalada por uma tragédia que marcaria para sempre a história da cidade, no dia 28 de janeiro um incêndio destrói a igreja matriz. Parte da tristeza dos pitanguienses é amenizada a 30 de agosto quando a comunidade passa a ser servida de energia elétrica. Mas o ano não terminaria sem que uma nova tragédia abalasse a sociedade da Velha Serrana.

     A população se via entusiasmada com o início de reconstrução da nova matriz e postes começavam a iluminar, ainda que muito mal, a vida da cidade, mas do outro lado da serra da Cruz do Monte uma ponte ameaçava a paz entre os moradores.

     O local é cortado por uma grota profunda, a grota do Pau d’Óleo, no sentido norte/sul, trata-se de um acidente geográfico que na época atravessava as diversas propriedades que existiam ali. Parte destas propriedades resultantes do que foi a parte sul dos 1.558 hectares da fazenda do Mandassaia que pertencia aos sócios José Quintiliano Rodrigues Pereira (dono de 80%), João Luis de Vasconcelos (10%) e João Batista de Campos (10%). Com a morte de João Batista de Campos em 1877 a sociedade se desfaz e Quintiliano fica com a parte norte que dividia com sua outra propriedade (Ponte Alta) e os 20% situados na parte sul da fazenda são divididos entre a viúva, Maria Joaquina de Jesus, e João Luís de Vasconcelos.

     Com a proximidade dos terrenos foi natural que casamentos unissem os Vasconcelos aos Campos e o primeiro enlace se dá com a casamento de Generosa Emília de Campos, filha de João Alves de Campos (Neném Baptista, filho de João Batista) com Felizardo José Luís de Vasconcelos, filho de João Luís de Vasconcelos. Felizardo era viúvo de Luísa Antônia de Lacerda falecida em 1895 após o parto de seu quarto filho, José, que também veio a falecer nove meses após o nascimento. Luísa e Felizardo tiveram três filhas antes de José, Maria Luísa de Lacerda (24/06/1886), Cândida (08/10/1887) já falecida e Idalina Luísa de Lacerda (01/04/1889).

     José Alves de Campos – Juca Neném – era o primogênito de Neném Batista e após divergências com o pai foi morar com a irmã Generosa. A proximidade com as enteadas da irmã resultou no casamento de Juca e Idalina no dia 04 de março de 1905, o qual foi precedido em uma semana do casamento da irmã de Idalina,  Maria Luísa de Lacerda, com Sebastião Alves de Campos, irmão de Neném Baptista. Finalmente João Ferreira Ribeiro, sobrinho de Neném Batista se casa com a filha de Olímpio José Luís de Vasconcelos, irmão de Felizardo.

     Juca Neném compartilhava a residência com o sogro e como eram homens de temperamento muito forte, era impossível que não surgissem atritos e quando um boi de Juca Neném invade a cultura de seu sogro, este o interpela de forma rígida e aos gritos. Se sentido ofendido pela atitude do seu sogro, Juca se arma e vai atrás de Felizardo que já se distanciava sabendo da reação que viria, o que não impediu que um tiro lhe atingisse o calcanhar. Este ferimento será descrito posteriormente. Neném Batista então orienta o filho a juntar suas coisas e vir morar com ele, pois aquele episódio poderia ter fins ainda mais trágicos.

     Por esta época Olímpio havia resolvido reformar a ponte que passava sobre a grota do Pau d’Óleo, no ponto que correspondia as suas terras, e que se encontrava bastante avariada. Para cobrir as despesas resolve cobrar dos moradores da região que usufruíam da ponte a quantia de cinco mil réis de quem possuía carro de boi e dois dias de serviço para os que não possuíam. Havendo resistência de alguns neste pagamento ele devolve o dinheiro de quem já havia pago e reconstrói a ponte por conta própria. Depois de pronta e já servindo a população, Olímpio vai se aconselhar com seu irmão Felizardo e resolve desmanchar a ponte para refazê-la em outro ponto de sua propriedade de maneira a facilitar o acesso ao seu pasto do outro lado da grota. É esta mudança de lugar o motor de toda desavença e desgraça que viria a ocorrer entre Olímpio, Felizardo e os Campos. A justificativa para essas desavenças era de que com a mudança era necessário fazer uma volta de mais de 500 metros para poder transpor a grota.

     Afim de resolver a questão foi solicitado ao Fiscal da Câmara, João Alves Corgozinho Filho, que intercedesse na questão e já havia um agendamento para o dia 6 de novembro para que o Fiscal comparecesse ao local para resolver o impasse. No dia 3 um cavalo foi despachado a Corgozinho para viabilizar o seu transporte. No dia 4, Custódio de Lacerda Rocha descia a serra da Cruz do Monte quando se encontrou com Neném Baptista e este lhe pediu que fosse à casa de Felizardo e lhe pedisse que repusesse a ponte no antigo lugar, “porquê de Campo Grande e Duna vinha um pessoal com Luiz Barcelos para refazer a ponte desmanchada e abrir o caminho fechado por Olímpio, do que poderia resultar um conflito e que Felizardo não podia morrer porquê tinha nove filhos para dar-lhes o que comer e devia quase dois contos de réis”. Custódio não atende ao pedido de Neném Baptista em virtude de uma chuva que se aproximava.

     Na manhã do dia 5 Neném Baptista parte para Pitangui para acertar a visita do Fiscal. Por volta das duas horas da tarde Pedro Alves de Campos, o Pedro Neném filho de Neném Baptista, voltava para sua casa quando é provocado por Olímpio que lhe ameaça com uma foice e Pedro resiste a provocação de Olímpio sacando uma garrucha. O que será relatado a frente trata-se de uma memória oral contada pelos descendentes de Neném Baptista, não sendo encontrada nenhuma confirmação destes fatos no processo que se instaurou após o crime. É possível deduzir que após as ameaças de Olímpio, Pedro Neném vai até a casa de seu pai e conta o ocorrido a sua mãe. Com a chegada de Neném Baptista, Emília se mostra revoltada com a passividade do marido diante do risco que seu filho correra no encontro com Olímpio. Ainda de acordo com a narrativa familiar, Emília diz a Neném que se ele não era homem bastante para resolver a questão que ele lhe passasse as suas calças e vestisse sua saia. Neste momento Neném pega uma espingarda e vai de encontro aos irmãos Vasconcelos.

     Na construção da ponte trabalhavam além de Felizardo e Olímpio, Francisco, Felinto e João Ribeiro, filhos e genro de Olímpio respectivamente. Francisco escavava a terra para aterrar a cabeceira da ponte, Felinto vinha trazendo uns bois a pedido de seu pai enquanto João cortava um pau com um machado um pouco mais distante. Felizardo e Olímpio se encontravam de pé, fumando, quando foram surpreendidos por Neném Baptista que, com a prática adquirida nas caçadas de que tanto gostava, acertou tiros certeiros nos irmãos. Francisco não chegou a ver quem foi atingido primeiro, mas afirma que Felizardo foi o primeiro a falecer com um tiro preciso que segundo os legistas lhe atingiu acima do mamilo esquerdo que lhe atravessou o pulmão e provavelmente o coração, sendo ainda atingido na região clavicular, estes dois determinantes da morte imediata. Foi observado ainda um orifício no braço que levou os legistas a deduzir que Felizardo tentou se defender do tiro com o braço. Ao ser atingido ainda teria gritado – Que isso? Nesta autópsia foi detectado uma escoriação no calcanhar direito proveniente do tiro desfechado por Juca Neném em divergência anterior já relatada.

Processo de condenação de Neném Baptista que se encontra no 
Arquivo Judiciário do Instituto Histórico de Pitangui

     Olímpio foi atingido do lado direito do corpo na região do fígado e ainda apresentava ferimentos por bagos de chumbo nos braços e no peito além de um ferimento na nuca. Não morreu imediatamente, teve tempo ainda de pedir água ao genro e dizer que tinha sido Neném Baptista o autor dos disparos. Ainda tentaram socorrê-lo mas Olímpio pediu que desistissem pois não resistiria, como realmente não resistiu vindo a morrer cerca de cinco minutos após receber o tiro.

     Neném Baptista foge e na noite do crime aparece em Pitangui, desesperado, chorando e se dizendo arrependido do crime que cometera. Desorientado, vagueia pela região e se refugia no mato, onde passa a pernoitar. São muitos os relatos deste arrependimento, Neném sabia que matara o pai de seus netos, sogro do seu filho e de seu irmão, além de Olimpio que era sogro do seu sobrinho. Estava consciente de que criara um drama familiar e que as cicatrizes deste crime seriam eternas enquanto vivesse.

     Ainda segundo a tradição oral, Neném só se aproximava de sua casa mediante um sinal de sua esposa que batia no pilão quando chegava a hora do café ou do almoço, teria sido traído e antes do nascer do sol do dia 24 de maio de 1915 é preso ao atender a batida do pilão.

     Preso, é condenado a 28 anos de reclusão em regime fechado. Dois recursos, que contaram inclusive com a atuação de Francisco Campos (futuro ministro do governo Vargas) na defesa, não surtiram efeito em reduzir sua condenação. Embora tivesse regalias na prisão, como saídas esporádicas para serviços de capina em terrenos de terceiros dentro da área urbana, Neném Batista passou a ser um homem amargurado, tinha sido criado para o trabalho na terra e além da privação de sua liberdade convivia também com o remorso de ter causado sofrimentos e privações aos próprios netos. Constantemente chorava ao relembrar o episódio que mudara a vida de tantas famílias.

Assinatura de Francisco Campos no processo de condenação de Neném Baptista
Embora se pareça 1912 o ano é 1917

     Transtornado, resolve fugir da cidade seguindo a pé pela linha de trem, mas é recapturado próximo à estação de Engenheiro Bordeaux. Depois de 10 anos recluso, e com idade já avançada, sua saúde fica seriamente comprometida. Em abril de 1925 o médico Agenor Lopes Cançado Filho diagnostica arteriosclerose e uma hipossistolia cardíaca em Neném e emite um atestado médico onde aponta sérios riscos à saúde de seu paciente caso ele permanecesse na insalubre cadeia de Pitangui (onde hoje é o fórum) e sugere transferência para a cadeia de Abaeté. Esta transferência ocorre neste mesmo ano.
     Mesmo em uma carceragem mais condizente com a sua situação, João Alves de Campos falece na cadeia pública de Abaeté no dia 22 de abril de 1926 aos 75 anos. O atestado de óbito indicava gripe como motivo da morte.

Jornal Município de Pitangui de 13 de dezembro de 1964
Dr. Nonô comete alguns erros no relato em virtude da 
complexidade  dos entrelaçamentos familiares

     Agenor Lopes Cançado Filho, o Dr. Nonô, farmacêutico e médico de Pitangui em uma matéria publicada no jornal Município de Pitangui de 13 de dezembro de 1964, faz o relato do caso e descreve Neném Baptista  - Neném Detrás da Serra - do seguinte modo:

        “Neném tinha crédito no comércio e os negociantes disputavam sua freguesia.
       Amigo de meu pai, vinha sempre à farmácia, pois gostava da palestra e do café do Major.
      Bem me recordo dos seus modos agitados, seu temperamento violento, às vezes atrabiliário. Um dia ouvi o Lacerdino dizer que Neném era homem “desensofrido”.

       Claro, alourado, cabeleira rara, trazia na face e nas mãos, marcas pigmentadas de manchas senis.”

Vandeir Santos - Bisneto de João Alves de Campos - Neném Batista


6 comentários:

  1. Olá Vandeir.
    Parabéns pelo belo texto, muito bem escrito e, também, pelo registro histórico, explorando fontes primárias (documentos) e também a oralidade como forma de registro da memória.

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    1. Obrigado Licínio. Embora longo, o texto é o resumo de um dos capítulos do explosivo temperamento dos Neném que ao longo do século passado, por diversas vezes, se valeram do chumbo e da pólvora. São histórias que pretendo contar de forma única, em uma obra que já tem título: Atrás da serra tem outros Campos. Mas vai demorar.

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    2. O texto está de bom tamanho. Vamos aguardar seus escritos.

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  2. Muito grato pelo relato histórico. Assim, vou conhecendo um pouco mais sobre essa querida cidade berço de meu saudoso pai, José Eulário dos Santos, que em janeiro do ano que vem, 2015, no dia 8, comemora seus 100 anos. Abraços.

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  3. Vandeir, como o texto é repleto, deu trabalho mas fiz questão de ler absolutamente tudo, mesmo que em mais de uma empreitada.
    Copiei, vou imprimir e um dia destes vou fazer questão de, com calma e aos poucos, ir lendo para a D. Carmelita(que vc conhece bem), beirando os 90 mas muito lúcida e disposta sempre a rememorar seu passado.

    A alegria e a satisfação que move vc revirando a história do seu clã me admira. A sua motivação é pura e vai auxiliar, tenho certeza absoluta, muita gente para entender fatos e acontecimentos ocorridos em Pitangui.

    Como disse Luciano Huck em um dos seus programas de televisão, os holofotes miram muito mais as pessoas que se despem de si para focar o coletivo. Parabens de novo.
    Grande abraço, obrigado e parabens (de novo)
    Geraldo Wagner Gonçalves
    Praça Antonio Fiúza - Pitangui

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  4. Caro VANDEIR, Outra GARIMPAGEM em nossa história e, como sempre, grande colaboração para registro da nossa PITANGUI e de nossa família.
    Grato, muito grato mesmo!
    Abraço, Régis Lobato-

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