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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

As nossas ruas no século XX

 Praça do Colégio - EEMAO. 
Fotos: Autores desconhecidos.

A nossa memória é mesmo uma caixa de recordações onde, ao menor estímulo, as lembranças vêm à tona. Ao ler o texto abaixo me lembrei da infância na rua Alarico Bahia na década de 1980, onde as crianças de pés descalços ou de chinelos de dedo brincavam com seus barcos de papel nas enxurradas pós-chuva e disputavam corridas de velocípede e velotrol levantando poeira na ladeira de terra batida, antes do calçamento de pedras chegar.

A crônica de hoje é do “brumadense” Paulo Miranda, frequentador das serestas e serenatas e jogador do time do João Albino em uma Pitangui de outrora. Formado em Letras e Geografia, hoje Diplomata, cidadão do mundo, escritor no blog Recanto das Letras, sob a alcunha de Brazilio, que conserva suas sólidas raízes pitanguienses. 

Rua Visconde do Rio Branco / Rua da Paciência.

Calceteiros e capinadores de rua

Por Paulo Miranda.
Nos anos sessenta, era comum vê-los aos magotes na sua faina cotidiana, das segundas às sextas. Jamais juntos numa mesma rua, pois suas tarefas não se sincronizavam: o calçamento precisava estar pronto e bem assentado para o capim começar a fixar as raízes entre as suas gretas.


E cada rua tinha a ordem sua: calçamento, no seu mais solene momento, e a capinação, periódica, sempre que houvesse a ocasião.


Os calceteiros eram homens, com uns poucos rapazes aprendizes, e os capinadores, não mais que meninos. Ganhavam uma merreca e os atrasos eram de regra mas a Prefeitura é que lhes assegurava o sustento e a dignidade daquele vínculo com a sociedade. Mas de cócoras.


As equipes de trabalho tinham o seu mestre, que, além de se vestir com o garbo da função, dava os comandos e verificava sua execução, na intransigente ordem das coisas.


Com a expansão da área calçada, a partir do centro da cidade, os calceteiros viram os seus paralelepípedos de granito de fácil e decorativa colocação, transformarem- se em poliedros, de assimétrica conformação. Mas para a periferia, era do Prefeito, perfeita, a solução. Calçamento bonito era caro.


Em alguns trechos da cidade, geralmente nas ladeiras centrais mais abruptas, onde já havia um calçamento de pedras arredondadas, pés-de-moleque chamadas, optou-se pela superposição dos paralelepípedos, que muitas vezes elevava as superfícies e deixava passeios e casas rebaixados.


O ritual do calçamento era iniciado pelo nivelamento da rua por meio mecânico, a que se sobrepunha uma camada de areia, seguida do assentamento das pedras, a partir de uma linha central, feito uma coluna dorsal.


Tempos depois, assentadas as pedras e corridas enxurradas sobre elas é que apareciam os capinadores, com seus ferrinhos a esgravatarem as gretas e as libertarem das gramíneas renitentes, nesta terra de Caminha, tão frequentes.


Mas aí, com um Governador espalhasfaltoso, dito garboso, veio o asfalto. E se foram os calceteiros e capinadores, sem pedra e sem grama, pro seu cotidiano drama.



Brazilio

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