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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Em algum tempo no passado


O cair da noite em Pitangui.
Foto: Léo Morato - Jan/2015.

A crônica de hoje fala de um Natal de algum tempo, perfeitamente aplicável ao dia de hoje, de ontem e de amanhã, afinal o sentido do Natal deveria ser todo dia não é mesmo? E, neste tricentenário é bom lembrar do bucolismo e das boas coisas no cair da noite em Pitangui.
A cidade vista da Serra da Cruz do Monte.
Foto: Léo Morato - Jan/2015

A noite do Menino-Deus

Por Paulo Miranda.

Eram aqueles natais doutrora, em que bençãos divinas e águas celestinas eram derramadas em proporções iguais, infundindo corações, regando quintais. A travessa São José, nosso beco, tampouco ficava a seco: ainda de terra batida se transformava num pântano, escorregadio, porém um bom atalho, ligando bairros mais distanciados ao mais curto caminho para centro da Velha Serrana, para onde demandava a turba, na busca do Natal mais santo, com todas as suas liturgias e ave-marias e outras ingresias.

E muitas delas havia: do fascínio da missa da meia-noite ao convite irresistível da boate, passando pelo cinema, por esquinas, ruas calçadas, bares, profanos lugares. E a véspera do Natal era uma só; era preciso se assenhorear daquele momento de encanto, enquanto durasse e se iluminasse o breu.

Embora ainda não fizéssemos jus à cesta ou aos panetones, o ambiente no lar se alterava, se elevava e quanta emoção dava, em torno do presépio, com seus bichinhos, a gruta-mangedoura e aquele tufo de arroz, verdinho, plantado numa lata de sardinha no dia de Santa Bárbara e portanto velho de quase três semanas, adereço indispensável que parecia ter partes com a energética esperança no Deus-Menino.

E nosso presépio ainda havia adquirido a feição meio-oriental quando mana Victa, convertida em paisagista, esculpiu na bruta argila, da amarelada à  violeta, aquelas casinhas abobadadas que a gente só via em filmes da terra santa.

O que nos ligava à agitação externa, à rua encharcada, entretanto, eram as  lanternas. Uma delas para cada rebento de papai e mamãe, com estrutura de madeira, envoltas em papel celofane, de cores variadas que, com uma vela espetada no centro pendurávamos no alto das paredes externas, sob os beirais do telhado.

E tinha passante, até mesmo distante viandante que apreciava aquela manifestação a ponto de comentar que valia a pena o barro amassar só pra ver aquele ispetaco de luzes coloridas, colorant em meio a luz bruxuleante.

Na manhã seguinte, terminado o desembrulhar de presentes em que Papai Noel se fizera representar pelas nossas vizinhas tias, a hora era de verificar como as  lanternas haviam enfrentado as rajadas, trovoadas e aguadas da noite. Umas poucas sobreviviam intatas, protegidas contra a ventania. A maior parte aparecia chamuscada, nua, já queimadas vela e papelada, mas valera, ah como valera a noite encantada!

3 comentários:

  1. A memória, esta guardiã do acontecido, quando visitada permite-nos resgatar lembranças como estas que se revelam nesta linda crônica.
    Parabéns Paulo Miranda.

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  2. Uma doçura de crônica que merece ser lida e relida! Aplausos!
    Abraços. Fernanda Araujo

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  3. Parabéns Paulo Miranda, sua crônica é linda e muito prazerosa!

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