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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Rua do Alto

Rua Velho da Taipa.
Data e autor desconhecidos.
 
Seguindo a temática das ruas de Pitangui, publicamos mais uma crônica do Paulo Miranda, que comunga conosco sobre a importância de se registrar a história oral para a preservação da memória coletiva de Pitangui. E sobre este logradouro o Bocão já dizia (cantava): “Quem vem aqui neste alto, guarda saudades daqui. É a parte mais alegre neste nosso Pitangui. Vive, sorri e diverte-se com gente daqui e dali. Cantemos com saudade agora dos que se foram e ficaram para a história”. 
 
Estabelecimento na Rua Velho da Taipa.
Foto: Léo Morato - junho de 2014.
 
A Rua do Alto

Por Paulo Miranda.
 
Embora já nomeada e emplacada por ato solene da edilidade municipal da Velha Serrana, a rua Velho da Taipa continuava a ser tratada com mais familiaridade de rua do Alto. E não sem um bom par de razões: o povo não fora consultado e o município já tinha um distrito inteiro com esse nome, dotado até de estação ferroviária, às margens nada plácidas do caudaloso Rio Pará. E já bastava de homenagem ao Velho da Taipa, aquela figura quase mitológica em que se buscava converter um velho e sua taipa.

E como ficava no ponto mais alto da cidade, justamente a orlar a sua entrada - para quem viesse de Beagá - rua do Alto continuou sendo, e será. Com seu comércio de periferia, e casinhas a riviria, a rua se estendia, por quase um quilômetro eu diria, ou por meia milha, melhor conhecedor dela aduziria.

E dela, da rua do Alto, saiam as muitas artérias que levavam ao eixo mais central, ainda que descambado e descalibrado, daquele burgo que já fora em poesia e prosa cantado: a rua Nova, a São José, a da Paciência - esta última, calçada de pés-de-moleque a realçar sua colonial imponência. E havia também a rua do meretrício, logo ali naquele início de cidade pra mostrar que também o vício é de idade incerta, e de certa solenidade.

Contudo, a não ser a visita a algum parente distante, no sangue e no espaço, ou a um passeio bissexto, pouca gente se animava a sair de seu meio e bater pernas na rua do Alto. Comprar carne no açougue do Iracy - só pra ver o mostrador daquele relógio despertador cujo ponteiro estilizado era desenhado feito a perna de um jogador - do Flamengo! - com uma bolinha na ponta a fazer embaixadas até perder a conta? Ou tomar uma pinga com ristilo e estilo no bararmazém do Remundão, com a desculpa de comprar uma rapadura? Ou comprar pão quase artesanal do Zé do Santo? Nem portanto...

E no entanto, vez ou outra, por lá passei, e por que razões bem já nem sei. Cena que me chamava atenção então era ver emergir, dum lote vago, com uma casinha no fundo, quase suave, Maria-Ave, aquele homem com uma enorme cabeça, que por detrás de um tronco de árvore seca se escondia, tão logo o contato ocular do eventual transeunte num ajunte com seu dono se fazia, ele que na verdade não resistia espiar quem pela sua rua passasse, ele que, disforme, de casa sair nem podia. Na certa temia a caçoada, o assédio à sua figura mas, obstinado, o coitado, queria só ver a gente - e por detrás do toco, pra provar que não era louco. Nem um pouco.

4 comentários:

  1. Crônica de leitura agradável, nos permite conhecer personagens que povoaram o cotidiano daquela parte da cidade.

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  2. Também gostei desta crônica do Paulo Miranda, professor. Quantos causos devem haver sobre este "alto" não é mesmo!? A segunda foto foi tirada no dia da nossa visita ao cinema do Carlos em junho de 2014 em uma noite muito agradável por aquelas bandas.

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  3. Que agradável forma de conhecer, aos poucos, a essência dos locais que formam Pitangui!

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  4. Moro nessa rua e confesso que não saio daqui nunca. Tenho fotos do passado e toda vez que vejo, bate saudade danada, porque sou apaixonado por época, como casas coloniais com arquitetura exuberante.
    Parabéns pela matéria e continue sempre.

    OBS.: Sou neto do Julinho Pedro(da família Barcelos) e da Dona Darquinha(do Tareco).

    Wagner Lacerda Júnior.

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