Seguidores

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Festa de Conceição do Pará

Embarque rumo à Festa de Conceição do Pará.
Autor desconhecido.

Sem ter que pensar muito, quem não tem uma boa lembrança, imagem mental ou um causo pitoresco sobre a Festa de Conceição do Pará? Nesta postagem o conterrâneo Paulo Miranda tira mais um coelho da cartola, ou da cachola?

Antigo pontilhão de ferro sobre o Rio Pará.
Autor desconhecido.

Imaculada Conceição


Uma ida à Conceição do Pará era o sonho de toda a garotada. Verdade é que se tinha que estar pronto para enfrentar o calorão desgraçado, ou na sua ausência, chuva, com aquele barro pra todo lado, mas ao fim, saía-se compensado, mesmo que o rosário de problemas tivesse apenas começado.

Naqueles anos cinqüenta, sessenta, o trem era a condução, até ir dando paulatinamente lugar aos ônibus, carro e caminhão. Mas que delícia - e risco - era a perspectiva de se tomar o carro aberto, e ir margeando o rio Pará, ele abarrotado das águas de verão, transbordando e dando força e viço à vegetação. Mais à beira da linha, era erva cidreira quase a viagem inteira, e até hoje aquele passado bem cheira.

O local da festa, onde se reuniam os romeiros era uma decepção: uma praça coberta de grama com umas poucas árvores, e menos casas ainda, tendo ao fundo uma igrejinha, que de capela passava, mas só uma beiradinha. E ao seu interior chegar, só na sorte, ou na pirraça.
Ainda que cheia de graça.

Mas era aquele sacro pedaço o sonho e a obrigação de todo peregrino, homem, mulher e menino. Senão, não tinha valença - e muito menos, a "bença". É que havia gente demais para um dia só, aquele 8 de dezembro dedicado à Imaculada Conceição. E costumava haver missa campal, já que a igrejinha não comportava reunida aquela fé demais exibida.

As poucas casas espalhadas pela praça, ou as extensões de suas cobertas, transformavam-se em casas de pasto, servindo uma refeição simples, que mal dava pro gasto. E o preço era de ocasião, pois ela é que faz tanto o bom como o mau ladrão. E ainda nem se via a cor do feijão.

E na poeira ou em meio ao barro espalhavam-se as tendinhas de camelôs e essa é que era a meca da gurizada, vendendo em geral coisas simples, mas como eram valorizadas: das balas coloridas cabo-de-guarda-chuva, duras feito cama de viúva, aos apitos de
barro, esses já um pouco mais macios.

Invariavelmente, o maior sacrifício era beber água, pois não tinha por lá a Caxambu e muito menos a Evian: ou se levava de casa ou se fazia aquela fila comprida para tomá-la na bica. O pior momento não era quando se falava que correra em pastos e que dela muito boi tinha lambido, ou pior ainda acontecido. Não, o pior é quando ela chegava à boca e se recusava a descer goela abaixo, de tão morna e "saloba".

Mas cumpria fazer aquele sacrifício, era de ofício saciar o sacro orifício, depois de tanto doce e tanto suor sob aquele sol de rachar taquara.

Duma feita, fomos em família, tendo tomado todas as precauções. Ou quase todas elas. Levamos sanduíches numa lata, água no cantil e até o punhal de papai para desestimular algum imprevisto que o manto da Santa Padroeira não cobrisse. Mas o que faltou, ou melhor, o que sobrou, foi termos a companhia do fazendeiro e vizinho um certo e demasiado perto, Chico Moreira que não só acreditou na idéia da multiplicação dos pães, assim como, como convidado de última hora, escolheu o mais graúdo dos sanduíches. Dando é que se recebe. Concebe?

4 comentários:

  1. Uma vez, me lembro bem, aos meus seis anos de idade,
    Fui com meu avô, a pé, à festa de N. Sra. da Conceição.
    Foi com muito medo que atravessamos a chamada "ponteleão".
    Chegando lá, meu avô montava sua farta barraca de comidas.
    Era um tempo de delícias que marcaram meu coração!

    Também, nesse dia, aconteceu algo inesquecível :
    Um sujeito de pouco respeito, sem nenhuma religião,
    Foi dizendo : " Deus não existe! De raio não morro, não!"

    Naquele mesmo instante, ouvimos um trovão bem forte,
    E ali mesmo, o homem caiu morto, atraindo a multidão!
    Esse fato aconteceu bem debaixo de uma árvore,
    Em frente à igreja de Nossa Senhora da Conceição!

    Maria Cecilia Santos Carvalho

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato é uma bela história Maria Cecilia Santos Carvalho! Muito obrigado pela visita ao “Daqui de Pitanguy” e por complementar esta postagem com seu depoimento. O registro da história oral também é uma forma de salvaguardar a memória coletiva de Pitangui. Um abraço e volte sempre.

      Excluir
  2. O Paulo descreveu muito bem tudo o que lá acontecia.
    Que época maravilhosa. Eu também tive a oportunidade de ir várias vezes a esta festa. Chamávamos de festa mas era um mega encontro onde os "mascates" vendiam as suas coisas em tecidos jogados no chão, as pessoas rezavam pelos cantos, acendiam velas, outras conversam amenidades e as crianças se divertiam entre o algodão doce e a picoca.
    De fato só com muita fé se ia por lá. Mas que era divertido, sem dúvida era.
    Já começava pela saída de trem. A foto espelha bem como ele era. Os bancos eram simples, de madeira . O encosto virava, pois quem mudava de lugar era só a "Maria Fumaça" e então virávamos o encosto para voltarmos de frente. Era algo inusitado, só estando lá para vivenciar.
    Mesmo sendo para um lugar como era, as pessoas iam felizes, com muita fé e bem vestidas.A devoção era o objetivo de todos.
    Uma pequena capela, com poucas moradias por perto e uma multidão bem comportada buscando a benção de Nossa Senhora da Conceição. Bons tempos....

    ResponderExcluir
  3. Obrigado por compartilhar as suas memórias Zé Carlos! Viva a Senhora da Conceição, viva o rio Pará que, graças a Deus reagiu à seca, após algumas chuvas dos últimos dias. Um abraço.

    ResponderExcluir

Obrigado por comentar nossa postagem. Ah... não se esqueça de se identificar.