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segunda-feira, 16 de março de 2015

Memórias do Brumado

Panorâmica do Brumado.

Na postagem de hoje, em mais uma crônica, Paulo Miranda, nosso conterrâneo brumado-pitanguiense, nos convida a voltar ao tempo, contando uma história boa de se ouvir e de se ler. E nesta sua memória estão grandes personagens do nosso passado, vivos no inconsciente coletivo: a Jardineira, a Maria Fumaça, a Fábrica de Tecido, as Antigas Celebrações, os Quintais de nossa Infância. Tá servido?

Fotos: acervo de Maria das Graças Lopes Rocha Milhomem
Interior da Fábrica de Tecidos

Just imagine...

O povoado de São Gonçalo do Brumado dos anos cinquenta não tinha uma
rua calçada sequer. Mas tinha a linha férrea, a jardineira e a fábrica
de tecidos. O gerente da "fapa", sô Afonso, era como um prefeito e,
pra muita gente, quase perfeito. Atlético, jovial e paternal,
casara-se com uma filha do dono da Companhia, uma bela Helena, e
viver, valia a pena.

O casario todo, os empregos, o operariado em seu dia a dia, tudo
pertencia à Companhia que panos pra manga produzia. O salário mínimo
equalizava todos e, quando por vezes se atrasava por uns dias ninguém
conspirava ou se rebelava.

Uma igrejinha de São Gonçalo, a estação ferroviária, o campo de
futebol e a escola satisfaziam os interesses do logradouro. O
comércio, na sua espartana modéstia complementava esse quadro com uma
venda, um bar e um açougue. Ou dois? Vou ao google depois...

As casas eram, em sua larga maioria, padronizadas na singeleza de
sala, dois quartos e cozinha, que cada família ocupante podia
expandir, se economia tinha. Puxar crescente, era a expressão mais
corrente. Umas oito ruas ou ruelas e uma praça compunham a planta
urbanizada do lugarejo.

As composições férreas, de passageiros à época, passavam diariamente,
uma subindo um dia, na direção de BH, e a outra, descendo no próximo,
rumo a Bom Despacho. Apitavam, esfumaçavam e cheiravam aquela energia
que revigorava corações e mentes. Na parada do trem, juntava-se uma
chusma de observadores, espiando os passageiros em suas janelas, a
quem era ofertada certa gama de comestíveis, dos canudos e cartuchos,
aos confeitos insuspeitos.

A arborização não era o forte daquela industriosa gente. E era uma
benfazeja visão uns ciprestes em estágio arbustivo que ornavam a porta
da casa de vovó e sua filharada solteira. Já os quintais, compensavam
razoavelmente essa insuficiência frontal: mangueiras, abacateiros,
hortas e algum jardim alegravam o ambiente. Meus pais pontificavam
nesse quesito, com a adição de amoreiras, parreira, limoeiro,
laranjeiras, cidreira e até macieira e marmeleiro, sem contar o
jardim, com suas roseiras e seu suave e sobranceiro jasmineiro.

E o cinema? Improvisava-se um, a partir de um alpendre, projetando-se
na parede de um casarão - tipo pensão, que era por todos conhecido
como o convento - no lado oposto da rua. E as cadeiras, de casa se as
trazia, com o consolo da falta de bilheteria. Foi lá que vi,
incrédulo, aquelas cenas comoventes do sacrifício de Santa Maria
Goretti, em defesa da castidade. E as estrelas pareciam parar no céu
para acompanhar com a gente o desenrolar daquele drama.

As procissões da semana santa envolviam praticamente toda a
comunidade, que tanto no gozo quanto na paixão, reuniam-se em mutirão
para decorar as ruas por onde o Cristo ia transitar, dos Ramos
até o seu ressuscitar.

A preparação para o Natal era aquela antecipação de felicidade geral.
Subia-se às janelas para se espiar os presépios, saía-se à rua para a
exibição dos presentes, numa cena de alacridade e bem-aventurança que,
quiçá, vista por John Lennon, permitir-lhe-ia adicionar uma estrofe ao
seu Imagine.

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