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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sons de um passado

Sinos do Bom Jesus.
Foto: Léo Morato / acervo do blog.
Num tempo recente onde não havia os potentes e inconvenientes sons auto motivos (esses que fazem tremer janelas e perturbam o silêncio, tocando músicas com letras e melodias de qualidade bastante questionáveis), nem as motos barulhentas e outros males sócio culturais dos nossos dias, outros sons e ruídos eram bem vindos e característicos de Pitangui. Sobre essas peculiaridades que vêm se perdendo e ficando escassas na cidade tricentenária, nos fala o Paulo Miranda na crônica de hoje. 
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Serranos idos

Na modorra dos dias, a Velha Serrana respirava, com a faina de sua laboriosa gente. A cacofonia do ruídos ordinários do padeiro, do catador de ferro velho, do amolador, dos vendedores ambulantes, e mendicantes, silenciava-se diante dos poderosos alto-falantes da igreja matriz, executando o Angelus, ou tecendo a ocasional nota fúnebre. E os sinos, na paixão ou na exaltação, plangiam dobrados de cortar mais de um coração.

Do lado profano, mas salutar para a sustentabilidade da vida no burgo, concorria a sirene da fábrica de tecidos, apitando regularmente dez minutos antes de se iniciar cada novo turno, cada nova turma, que ia se revezar com os já algodoados colegas de porfia.

Notas alegres vinham do alto-falantes do cinema da cidade, anunciando produções fabulosas em cinemascope, com uma Lana Turner e um Burt Lancaster, aos domingos, em duas sessões, de 19 e 21 horas. E de lambuja, encaixava-se também a matinée dominical das 14 horas, onde a gurizada se extasiava desde a infalível exibição de revistas em quadrinhos para as trocas, às pipocas, ao amendoim torrado, o chicletes de bola, e os gritos ensurdecedores, já na sala de exibição, quando o mocinho virava a mesa. O que era sempre.

Mais diversão, em bonito e espevitado som vinha também do campo do Atlético, chamando os atletas para o treinamento nos fins das tardes, e o prefixo era de apaixonar, quiçá não pelo time que não chegava a ser melhor nem pior do que o seu rival, o Oito de Maio, mais do populacho, mas sim pela voz inconfundível de Reinaldo Gonzaga, com sua Daiana, o seu Okero...Oh, Carol, I am but a fool...

E ao cair da noite, algum eventual parque de diversões, ou quermesse de cunho religioso, no centro, ou nos bairros, é que ganhava o éter e por ele espalhava suas melancolias. Aí Cascatinha e Inhana se uniam para dobrar o impagável Miguel Aceves, entrecortados de anúncios de vísporas, tômbolas, e sobretudo as variedades artísticas da terra.

Contudo, e contado nem tudo, voz mesmo era a do Vigário Guerino, um Pontello, e Valentino, que, abaritonada ecoava em suas prédicas vespertinas na matriz de Nossinhora do Pilar, e, percutindo ares e corações se podiam ouvir a meia légua de distância. A cidade tava salva de seus pecados passados, e pronta para cair em novos babados. Mas, naquele lusco-fusco, até o som da gandaia se humilhava praquele pavarottismo que assomava.

Paulo Miranda.


4 comentários:

  1. Belo e inspirado texto!
    Uma ótima junção de história e poesia.

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  2. Parabéns pela belíssima crônica, repleta de coisas boas do passado de nossa cidade. É uma obra prima, digna de um ícone, um verdadeiro e profundo conhecedor de nossa querida e amada Pitangui.

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  3. Voltei ao passado !!! Saudades de tudo isso. Bacana demais.

    Angélica Xavier

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  4. Excelente post, com lindo texto do Paulo Miranda. É interessante mesmo observar como sons tão característico das cidades interioranas - e que ditavam o ritmo de seus moradores - estão se perdendo rapidamente para a cacofonia das coisas modernas. É triste.

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