Seguidores

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O jornalista Marcelo Freitas em artigo especial para o blog "Daqui de Pitangui".

Na postagem de hoje apresentamos o artigo escrito pelo professor e jornalista Marcelo Freitas, onde, o autor encaminha reflexões interessantes sobre o tombamento do centro histórico de Pitangui e as obras públicas realizadas na cidade às vésperas do tricentenário, em nove de junho próximo. 


--------------------------------------------------------------------------


Muito mais que uma camada de asfalto

Marcelo Freitas*


Adicionar legenda
 Nos últimos dias, várias ruas do centro histórico de Pitangui foram recobertas por uma nova camada de asfalto. A pavimentação anterior, aplicada no início dos anos de 1990, ou seja, há cerca de 25 anos, estava desgastada e, em muitos pontos, já se dava para ver o piso de paralelepípedos, em cima do qual foi colocado o asfalto. O reasfaltamento dá margem a uma discussão mais ampla, que extrapola a ideia de que o que está sendo feito é apenas a manutenção do que já existe.
Se a questão for vista apenas do ponto de vista legal, o reasfaltamento está em contradição com as diretrizes gerais de tombamento do centro histórico, aprovadas em 2008 pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais. O documento que rege o tombamento recomenda que a pavimentação asfáltica seja retirada de tal forma que, à vista, ficasse apenas o piso original de paralelepípedos. No mesmo documento, há também a recomendação no sentido de que a rede aérea de distribuição de energia elétrica seja substituída por uma rede subterrânea, ficando visíveis somente  os postes da iluminação pública. Uma terceira recomendação é no sentido que seja feita uma readequação das placas de publicidade e identificação das lojas de tal forma que elas não impeçam a visualização das fachadas.
Entendeu na época o Conselho que o tombamento é um processo contínuo e que outras medidas deveriam ser implementadas. Na administração municipal anterior isso foi feito. O então prefeito Evandro Rocha Mendes encaminhou ao Governo Federal, para ser incluído no PAC das Cidades Históricas, um projeto de substituição da rede aérea de energia por uma rede subterrânea. Em um segundo momento, tão logo isso fosse feito, a prefeitura iria retirar o asfalto da área tombada. Como a implantação de uma rede subterrânea exige que sejam abertas valas nas ruas, a retirada do asfalto seria feita somente depois de cumprida essa etapa.

Fonte: Foto Kamargos

Ocorreu, porém, que o projeto foi encaminhado ao governo federal mas não se tornou realidade. Pitangui não foi contemplada no PAC das Cidades Históricas. E o projeto foi abandonado. A atual administração, do prefeito Marcílio Valadares, optou por priorizar a recuperação de algumas edificações de grande valor histórico, como o Museu e a Capela de São Francisco, apenas para citar algumas, o que merece o reconhecimento de todos os pitanguienses como algo muito positivo.
Há alguns dias vim a Pitangui. Fiquei surpreso ao ver que algumas ruas do centro histórico estavam sendo reasfaltadas. Não era uma operação tapa buracos. O que estava sendo colocado nas ruas era uma nova camada de asfalto. De alguns moradores, escutei manifestações de apoio à medida, tendo em vista que, para eles, que estão no dia-a-dia da cidade, quanto menos irregular for o piso, melhor é para carros e motos. De outros, escutei críticas, pois a renovação do piso asfáltico não era condizente com o aspecto de um centro histórico tombado.

Fonte: Foto Kamargos

A existência de duas opiniões opostas em relação ao assunto mostra que o tombamento do centro histórico de Pitangui ainda é, sete anos depois de oficializada a medida, uma questão não resolvida na cabeça dos pitanguienses. Se formos buscar exemplos de outras cidades que também têm perímetros urbanos tombado, como Tiradentes, Ouro Preto, São João del Rei ou Diamantina, em nenhuma delas o piso é de asfalto na área de preservação histórica. Nessas cidades, não existe mais essa discussão que ainda hoje ocorre em Pitangui. Trata-se de página já virada.
A discussão sobre qual deveria ser o tipo de pavimentação da área tombada ocorre, a meu ver, porque o pitanguiense ainda não se conscientizou sobre o real significado do tombamento. Os moradores de Diamantina, Ouro Preto, Tiradentes ou Diamantina já têm essa consciência. Os pitanguienses, ainda não. Nas cidades que citei acima, a preservação gera empregos, negócios, receita para o município. Seus moradores sabem da importância de se ter o patrimônio histórico preservado, ainda que, no seu dia-a-dia, o rodar dos carros ou motos pela área tombada não seja tão macio quanto no asfalto. Mas, o pitanguiense ainda não consegue visualizar essa compensação. Nesse ponto é que entra a ação do poder público, que deve aproveitar a oportunidade para abrir uma discussão sobre o reasfaltamento do centro histórico ou a retirada do asfalto.

Fonte: Foto Kamargos

O que está em discussão é muito mais do que o tipo de pavimentação – asfalto ou paralelepípedo. Em cada um deles está embutido um conceito de progresso, uma visão de mundo. O asfalto pressupõe a ideia de que o que há em Pitangui são apenas algumas edificações de interesse da preservação distribuídas pela área tombada. Nesse sentido, o asfalto não seria um problema. Os que defendem a volta dos paralelepípedos consideram que todo o perímetro tombado é possuidor de uma riqueza arquitetônica que merece ser preservada e valorizada. A primeira visão prioriza as partes. A segunda, o todo.
Eu, particularmente, me incluo entre os que defendem o todo. Consequentemente, o desasfaltamento do centro histórico. Este é também o conceito que prevalece no documento oficial de tombamento. Nesse ponto, é preciso desmistificar a ideia de que em Pitangui quase não há mais nada a ser preservado, porque a maioria das edificações do período colonial já foi derrubada. É correto afirmar isso. Mas isso não é tudo. Os pitanguienses se apegam, para renegar seu valor, aos exemplos de Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina. Mas, talvez, não saibam que a riqueza arquitetônica daqui é de outro tipo, como também está descrito no documento de tombamento.

Fonte: Marcelos Freitas

O nosso valor é a diversidade de estilos arquitetônicos em um mesmo espaço de tombamento. Um exemplo é a Praça Governador Valadares. Nela, estão presentes o barroco e o eclético. Na Praça Isauro Epifânio, estão o barroco e o normando, representado pela Escola Estadual Francisca Botelho. Na Praça Getúlio Vargas, o barroco está ao lado da arquitetura eclética e do neogótico, presente nas linhas da igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar. Portanto, a diversidade é a marca registrada de maior valor do patrimônio histórico da cidade.
Mas, em Pitangui, essa discussão não existe. Por sua importância, defendo que o assunto passe por um amplo debate. Nesse ponto, a administração municipal terá um papel muito importante, como ordenadora da discussão, promovendo, por exemplo, uma audiência pública para que os dois lados possam expor livremente seus pontos de vista. Quem defende o reasfaltamento poderá fazê-lo. O mesmo valerá para os que são favoráveis à volta dos paralelepípedos. Pelas razões acima expostas, não tenho dúvidas de que será uma discussão muito rica. Não podemos é perder a oportunidade de uma discussão sobre algo que interessa muito a todos os pitanguienses: o sentido do tombamento.
E isso é muito mais do que uma camada de asfalto.



*Marcelo Freitas é jornalista e mestre em Gestão de Cidades. É também autor do livro A construção do tombamento, sobre o tombamento do centro histórico de Pitangui (Editora Comunicação de Fato, 2012).






Leia mais sobre este assunto clicando na imagem abaixo:



3 comentários:

  1. As obras de infraestrutura estão a todo vapor, e em algumas ruas os paralelepípedos estão sendo substituídos por asfalto, Muita gente gostou da alteração, mas de outro, muitos não gostaram que o chão histórico do município fosse substituído. Na minha opinião considero importante é manter viva a memória da cidade através da preservação dos imóveis históricos, sejam eles tombados ou não.

    ResponderExcluir
  2. Ninguém melhor para propor o debate em torno dessa questão que o jornalista pitanguiense Marcelo Freitas, autor do excelente livro "A Construção do Tombamento", que narra em detalhes o antes, o durante e o depois dessa importante decisão do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha). O tombamento veio para obrigar os atuais e futuros governos a não fazer o que seus antecessores seculares fizeram: destruir o nosso patrimônio histórico.

    Quando a região central da cidade foi asfaltada, infelizmente a parte que contém o casario e as ruas antigas ainda não era protegida. Naquele mesmo ano, outras cidades históricas de Minas, como a citada Ouro Preto, já tinham leis para proteger seus imponentes casarões e também suas ruas de paralelepípedos.

    Pitangui, como é de praxe, parou no tempo. Passaram-se muitos anos até a inteligente decisão ser tomada. A lei de tombamento não proíbe a Prefeitura de reasfaltar e nem a obriga a remover o asfalto existente. Faz apenas uma recomendação (o mesmo que dica ou sugestão): propõe que o asfalto seja removido em toda a extensão do Centro Histórico, para que as pessoas possam contemplar plenamente a paisagem colonial.

    Penso que aplicar uma nova camada de asfalto nas ruas do Centro Histórico seja o mesmo que pegar essa recomendação do Iepha, rasgá-la em centenas de pedaços e jogar para cima. Prestes a completar 300 anos, Pitangui comete um retrocesso histórico que será lembrado para sempre, pois a camada asfáltica não o oculta.

    ResponderExcluir
  3. Esta questao de preservar e muito seria. Vendo a cidade assim com o asfalto e os casarios ao redor,seria o mesmo que vir uma mulher trajando um vestido curto e um grande decote, na idade media. Inconcebivel!!! Ninguem quer ir visitar a Europa e presenciar uma modernizacao de seus belos e lendarios casaroes,que retratam ao vivo, toda a historia do lugar. Sabemos que misturar o antigo com o moderno pode ser possivel, mas isto nao significa TOCAR no antigo. Um exemplo classico e a piramide de vidro ao lado do Museu de Louvre em Paris. Nada de mais ter o velho e o novo juntos...... juntos sim, mas sem nenhum interferir no outro. Assim eu termino este comentario daqui de bem longe (NY) dizendo que o retrocesso historico ficara marcado e lembrado em Pitangui. Apesar de tudo isso, nao sera tarde demais se amanha retirarem esta camada e permitirem que a cidade respire e viva para todos nos pitanguienses. So assim ela tambem podera fazer dialogo com os seus visitantes turistas que la irao buscando um COMPARTILHAR com a NOSSA HISTORIA. Nao vamos desistir e nem dobrar os bracos, pois quem pode ajudar deve educar e ter dialogo sempre. Vamos entender de verdade que TOMBAR neste caso, e PRESERVAR e jamais DERRUBAR ou MODIFICAR. Ze Carlos

    ResponderExcluir

Obrigado por comentar nossa postagem. Ah... não se esqueça de se identificar.