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terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre tesouras e artimanhas

"Ulissses Messias"
(Imagem ilustrativa sobre a vestimenta das décadas de 1960, 70...)
Foto: Acervo da Câmara Municipal de Pitangui

Na postagem de hoje o Paulo Miranda nos conta mais um episódio pitoresco de um passado recente de Pitangui, abordando uma nobre profissão pouco encontrada nos dias de hoje: a Alfaiataria. Confira o conto abaixo.


A revolta e a volta dos alfaiates


Por Paulo Miranda.

A revolta dos alfaiates, como é conhecida, é fato histórico de luta pela independência que se deu na Bahia, de todos os Santos e de todos os encantos e antros, no finalzinho do século XVIII. Diferenciava-se da Conjuração Mineira, pelo fato de ter sido uma manifestação mais de
raízes do que de elites. Seus cabeças foram punidos com todo o requinte de crueldade com que a coroa tratava a colônia.

Já a volta dos alfaiates, deu-se na minha Velha Serrana, Pitangui, por nome oficial, foi bem mais recente, e não rolaram cabeças dessa vez. Somavam quase uma dezena os alfaiates de meu tempo infanto-juvenil. Hoje, quem souber de algum remanescente ou renascente, que avise a gente. Meu pai mesmo, na juventude, teve um aprendizado com um bambambã da tesoura e do giz, o Olivério, mas por mais de uma razão, ficou no meio do caminho, como meio-oficial, capaz de fazer calças, mas sem chegar a desatar o nó dum feitio de paletó. A fábrica e a família reclamaram presença com mais vigor.

E, no caso presente, anos sessenta na mente, um indivíduo chegou ao mais central dos alfaiates, o Geraldo Gabriel, com um belo corte de fazenda. Queria um terno. GG, germanófilo reconhecido, nem olhou para o tecido, e com gutural expressão se fez ouvido:

 - Não dá, meu caro, o pano é insuficiente.

Surpreso e entristecido com a recusa, nosso promitente cliente foi bater na porta do Belisário, o Bilico que, o atendeu prontamente, e marcou duas semanas para entregar a confecção.

Vencido o prazo, terno feito, o cliente ao experimentá-lo na alfaiataria do Bilico, deu-se por satisfeito, ao se ver diante do espelho. E até viu mais: viu um vulto passar detrás de si, que
reconheceu ser  o caçula do Bilico, portando um terninho, bonitinho, do mesmo tecido.

Ah, era hora de ir reclamar do GG, direto. Lá foi. E, recebido com a fidalguia de sempre, foi longo expondo sua estranheza: como é que com um tecido que não dava pro GG, o Bilico não só fez-lhe um terno, tranchã, como, com a sobra, ainda fizera um outro para o seu petiz?

Com a calma e ponderação que lhe eram peculiares, GG respondeu, com a cava voz que o criador lhe deu:

Pois é meu caro, é isso mesmo: o menino do Bilico tem sete anos, já o meu Walter aproxima-se dos vinte...

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