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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lembranças de um repórter

Em matéria de novembro de 2002 o jornal Novo Tempo publicou uma entrevista que Heliana Foureaux fez com o jornalista Lucas Mendes Campos. Em algumas linhas Lucas faz uma retrospectiva de sua infância e juventude quando vinha a Pitangui passar férias junto com os seus familiares. Como sempre o jornalista externa o grande carinho que tem pela terra de seus ascendentes.

Heliana: É interessante uma pessoa que mora em NY e ama Pitangui. De onde vem esse seu amor a Pitangui?

Lucas: Passei minhas férias em Pitangui dos 6 aos 16 anos.

Heliana: Quais as suas melhores lembranças?

Lucas: Aí vão minhas lembranças:
Pitangui...
As casa dos tios Anita e Hélio, da Norma e Waldemar e o sobrado dos tios Inácio e Etelvina, a enorme “casa Campos”. A rua Padre Belchior, a singeleza da estação e a feiúra da rodoviária; o trem chegando e partindo; a fazenda dos tios Porto e Célia; os fins de semana na casa dos tios Darcy e da Zizi e as curvas das pernas dela; o sucesso do primo Evandro Robert Mitchum Campos com  as meninas e gênio do primo Armênio, imitando a família. Os cascos dos cavalos nos paralelepípedos de manhã cedo, o coqueiro do Lavrado, visto pela janela da sala da tia Anita, deitado na rede, apaixonado; a tia do Afonso, no banho, vista do pé de carambolas, a masturbação coletiva e, depois, as carambolas. O primeiro peixe no Pará; a água da mina e da Usina; as jaboticabeiras de tantos quintais; a risada da prima Heliana; o flerte da Berenice; o footing da praça do jardim; a coleção de gibis do Márcio Campos, empilhada em noite de chuva; o cheiro da madeira; as histórias de assombração e o protetor afago da mãe. A primeira coxa entre coxas no clube; o primeiro - e último - porre de hi fi; as mulheres do Bacolelê Adonde a Maria Mora, entre e veja se ela está. Sempre estava e, durante quarenta anos esteve também para o meu querido pai; os casos do prefeito Morato; o cheiro da Maria Fumaça; o enjoo nas jardineiras; os ninhos dos passarinhos; os mergulhos no poço verde; o frango assado com farofa no trem e o frango nos almoços na fazenda dos tios Didico e Domitila; os encantos da prima Ana Maria; o truco na volta, vale seis ladrão de milho; o buraco;  o bingo e o bangô do primo Ivan nos bailes do clube; as primeiras sinucadas no bar Elite e as primeiras serenatas: Blue Moon, You saw me, Standing alone; a imperdoável matança de passarinhos, o beco do clube; a tristeza dos sinos na hora do ângelus, as tristíssimas procissões; o café do sobrado; o cheiro dos currais e, de novo, da madeira na chuva; do pasto, dos cavalos, do paiol, o copo de leite quente tirado na hora, o tédio das tardes, o pavor da primeira noite sozinho e do primeiro galope; o delírio do primeiro beijo na boca, a extrema decência do Geraldo Pepa e ilimitada devoção da Olga pelo padre Guerino; a solidão da Cruz do Monte; a malvadeza da Maria Tangará; o Cine Pitangui, de mãos dadas e suadas; as coxas da Neuza; o nariz da Pompéia; o começo das férias, como tudo era tão mágico, tão Pitangui!

Especial agradecimento a Fábio Campos que forneceu cópia do jornal.

Vandeir Santos


2 comentários:

  1. And there goes the story
    of a boy very much like us
    who, on the path to glory
    used his hands as an octopus...

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  2. Fantástico o texto. Viajei no tempo e vi tudo o que ele falou, quero dizer...... quase tudo.
    Até a referência ao Coqueiro do Lavrado que o meu pai também cita em uma de suas músicas."I like this gay. "

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