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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Jactâncias de um farinheiro

Panelas, bule e caçarola.

Jactâncias de um farinheiro

Por Paulo Miranda.
 
Imperial, o farinheiro reinava ali naquela mesa de jantar da casa de vovó.
Feito de alumínio e embora opaco, era um brilho só. Panela, caçarola
ou caldeirão que o cercasse tinha que ser submissivo e com duração
limitada a um máximo de duas vezes ao dia.


E, sobranceiro, farinheiro, ele reinava. Do centro da mesa tirá-lo,
ninguém ousava. Pratos esmaltados, ou por vezes, de louça, se punham à
sua volta em obsequiosa continência. E dele, então partia a colheral
benemerência.


Um bule até se aproximava, mas com ele não bolia. E o café só dura até
que esfria, e se acaba molhando a biscoitaria, ou algum bolo que ali
surgia. Da prateleira é que lhe vinham os olhares mais cobiçosos,
lânguidos e silenciosos, das latas de mantimentos até a cafeteira, já
havia muito substituída, mas se posando altaneira. Mais esquecido
ainda vivia o almofariz, de bronze, rimando com onze, contudo já
dezfeliz.


E seu momento mais solene, indene, o farinheiro vivia quando, por
vezes pela noite, em meio à boa prosa, em atitude generosa, tia Isabel
- que o Pai recebeu no céu - resolvia nos mimosear com sua carne de
panela, muciça, dizia ela, e quando o garfo, ansioso a espetava,
invariavelmente falava, mansinha: molha ela na farinha!
 

 
Carne de panela (do Verinho) com molho e farinha sempre bem vinda.
Fotos: Léo Morato.

2 comentários:

  1. Sou fascinado por farinha, principalmente a torrada..... Valha me Deus! Também fiquei com uma vontade de comer. Fiquei igual àquele cachorro na porta do açougue..... olhando e morrendo de fome. Valeu! A reportagem é sensacional. Parabéns colega. Zé Carlos

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