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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Um velório ou uma festa?

    Pitangui noturna. Foto: Léo Morato 2014.

Quando ouve-se um causo não se sabe ao certo se quem conta presenciou o fato, se ouviu alguém contar, ou se já está no anedotário popular. Mas quando o causo é "bão" o importante (re)contar.  Então segue abaixo mais um Causo do Juá.
 

Um velório ou uma festa?

Pitangui, que sempre foi a terra mater de muitas pessoas ilustres, cultas e inteligentes, também teve como filhos figuras folclóricas, gente humilde. Até hoje, me lembro bem do Tonho Mimoso,  do João Albino, da Tirri, do Milicão, da Irene, do Maiado e do Maiadinho, do Chico Velho, do Chico Coqueiro, e de muitos outros, que, se aqui relacionasse, certamente não caberiam nesta página. Mas vamos ao causo.

Por ocasião do falecimento do pai de um grande comerciante, havia em Pitangui uma turma que sempre comparecia a todos os velórios. Vou relatar aqui um causo que aconteceu nesse dia.

O velório parecia mais uma festa, tudo de bom, cerveja à vontade, uma boa cachacinha, uísque 12 anos e também muito lanche, com os tradicionais tira-gostos, como coxinha, quibe, biscoito de polvilho frito, biscoito de queijo assado e inúmeras quantidades de comida.

Na varanda do casarão onde se realizava o velório, fora da cozinha, estava reunida a turma dos contadores de causos, que em velório, não pode faltar de jeito nenhum. Na hora que um dos causos era contado, Chico Coqueiro, componente da roda, veio a dormir e, acordando depois, veio a perguntar pelo final do causo.

O causo que era narrado falava de um cidadão que se encontrava em dificuldades financeiras, desempregado, e resolve dar um "golpe" numa cidade vizinha. Naquela época, tinha-se o costume de, quando um desconhecido vinha a falecer, colocar-se o corpo em um banco no corredor da igreja, bem próximo ao altar, onde as pessoas da comunidade tinham a oportunidade de identificar o falecido. Era costume, também, colocar junto ao corpo uma pequena contribuição para despesas com o sepultamento, caso realmente ninguém o conhecesse.

Era domingo. Nosso personagem se dirigiu à cidade mais próxima e chegou ao destino bem cedinho, mesmo antes da missa das seis horas. Logo que a porta da matriz foi aberta, o cidadão juntou dois bancos bem na frente e já foi  se acomodando, fingindo de morto, com a intenção de, após a missa, juntar o dinheiro ofertado pelas pessoas e vazar dali o mais rápido possível.

Tudo estava bem planejado, mas o que o cidadão não contava é que dois indivíduos que eram moradores da cidade, sabendo do que se passava, também pensaram dar um "golpe" e roubar o dinheiro que a comunidade ofertava para o sepultamento do desconhecido. Para isso, trataram de ficar bem próximo do corpo.

Diante disso, veio o sacristão e, dirigindo-se aos dois pilantras que ali estavam, foi logo dizendo: Vichi, é mais um que abotoou o paletó. Vocês o conhecem? E um deles respondeu que nunca o vira mais gordo.

A missa começou, e uma enorme quantidade de gente veio olhar e tentar reconhecer o cidadão que ora estava como morto e cada um contribuía com o que podia. Um deles colocou como oferta um bonito punhal com cabo de madrepérola, que  chamou a atenção do suposto falecido e também dos que o pretendiam roubar.

A missa terminou, e a intenção dos ladrões era de quando todos se retirassem da igreja, juntar o dinheiro que estava ao redor do defunto e se mandar dali, mas um fato atrapalhou o plano dos dois.

Junto ao altar, como sempre foi o costume naquela comunidade, um grupo de beatas resolveu rezar o terço em intenção da alma do falecido, e isso não estava no plano dos amigos. Enquanto os fiéis rezavam, os dois combinavam, em voz bem baixinha, como iriam sair dali com a grana e também discutiam com quem ficaria o belo punhal.

Um dos ladrões foi logo dizendo ao pé do ouvido do outro: vamos dividir a grana e o punhal é meu. O outro retrucou:

- É ruim hem. O punhal é meu e não se discute.

Neste é meu, é seu, as beatas até se espantaram, pois a conversa se alterara e elas quase poderiam entender o que era falado. E percebendo que tudo poderia se por a perder, e logo pelo punhal que seria o motivo de uma discórdia, os dois trataram de  definir  a partilha, dizendo em voz baixa um para o outro, sem saber que o dito morto também os ouvia.

- Não vamos brigar, dividimos o dinheiro em partes iguais e enfiamos o punhal no c.. do defunto.

Foi justamente nesse momento que o Chico Coqueiro dormiu e não ouviu o restante do causo.

O defunto, que já estava perdendo a paciência, já não suportava de tanto esperar e com aquela ameaça iminente, resolveu levantar -se do banco e foi  dizendo em alto e bom tom:  NO MEU NÃO!

Nesse momento, os ladrões tomaram um grande susto e, juntamente com as beatas apavoradas, puseram-se a correr em desespero. Aproveitando-se da confusão,  o "morto" juntou toda a grana, o belo punhal e se mandou daquele lugar.

Voltando ao velório, já pelas entradas do amanhecer,  a irmã do tal comerciante vem com uma bandeja cheia de biscoitos fritos quentinhos, feitos naquele momento, e foi acordando o Chico Coqueiro, oferecendo-lhe café  e o biscoito, pois o dia estava rompendo.

O Chico já foi  espreguiçando, se lembrou do causo que não teve a oportunidade de ouvir o final e, virando-se para os companheiros, perguntou em voz alta, fazendo com que a filha do morto jogasse a bandeja pro alto e quase sofresse um infarto:

- COMO É GENTE, JÁ COLOCARAM OU NÃO COLOCARAM O PUNHAL NO C.. DO DEFUNTO?

(Juarez Machado)

 

Um comentário:

  1. Essa vida é engraçada
    até pra gente rir junto
    tanta vida que é pranteada
    e a gente plantando defunto...

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