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quinta-feira, 3 de março de 2016

A arte nossa de cada dia

A foto da foto: Fábio Freitas.
“A arte do meu pai não tem limites. O projeto nasceu na prosa de Jonba com ele. Jonba começou a estrutura externa e papai trabalhou nas miniaturas: lamparinas, tamboretes, pinicos, vassouras, balança, etc. Semana passada ele fez o telhado idêntico. Essa preciosidade ainda terá um dono que valorize a cultura pitanguiense e que se recorda com saudade da Venda do Tisnado” (Fábio Freitas).
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Nessa semana o amigo Fábio Freitas, exímio violonista, postou esta foto que ilustra a sua afirmação acima sobre a arte de seu pai Juca e da família Freitas. E sobre este talento nato, outro conterrâneo - o Paulo Miranda - aborda em mais uma bela crônica sobre o tempo de infância em Pitangui. Da nossa parte vamos costurando essa "colcha de retalhos" composta de lembranças, talentos, histórias, causos, música e um sentimento danado de bom chamado PITANGUI!

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A roda do infortúnio

Por Paulo Miranda.


Ser menino nos anos cinquenta, sessenta, tinha a vantagem de não ter internet. Você podia dedilhar um violão, desenvolver melhor grafia, ou alguma outra habilidade que só à mão é que se fazia.



Era o caso dos carrinhos de pau. Os meninos do Zemartins, já rapagotes, tinham o dom natural das artes, no todo, e nas partes. Mexiam com cerâmica, tocavam e compunham música e haviam até inventado um projetor de cinema.



Mas o que mais cativava de sua produção eram os tais carrinhos, que se não davam bom lucro, `havera` de deixar muito guri malucro. Dali, salvadora e devoradora, foi que me veio a idéia da marcenaria. Mais que idéia, foi compulsão leréia. E convencer papai e mamãe de meus propósitos competitivos nas artes e ofícios foi moleza. Já tava passando da hora de eu deixar as peladas rueiras de lado e saber aproveitar melhor meu tempo. Com uma promoção, quiçá, ao cargo de ex-lavador titular de vasilhas.


Vieram a banca de carpinteiro, as ferramentas, o torno, ao encontro de minha vontade superaquecida de despertar meus adormentados talentos. E saíram, de minha assinatura madeiral, uma caixinha aberta para guardar dinheiro, que também se assemelhava muito a uma fôrma de fazer tijolos, um escorredor de pratos, feito à semelhança de modelo antigo, uma lanterna para se juntar às outras tantas que, junto aos beirais dos telhados, iluminavam nossos natais, e o projeto de uma gaiola, que reunia arames de aço retirados de pneus velhos, e umas varetas que resistiam ao aplainamento e à perfuração simétricos.

Mas era tudo experiência que se somava, malgrado a resistência da madeira-prima, que procedia de caixotes de sabão. Era a hora de entrar na concorrência automobilística. E foi o João, um dos meninos do Zemartins que me deu a dica: pra fazer a roda você precisa desse
aparelhinho de metal, que tinha o formato de um quatro, de cabeça pra baixo. Preso na furadeira, você vai girando a perna externa, que tem ponta laminada, em torno do eixo - que é a perna traseira e, comendo a madeira, sai a roda, inteira.

Consegui o aparelhinho sob encomenda. À primeira vista não me entusiasmei muito com a rusticidade do artesanal produto. Minha suspeição se confirmou com a tentativa da prática: na melhor das hipóteses ele permitia riscar o desenho de uma roda sobre a placa de madeira. E dali não passava nem que eu gritasse besteira, ou rezasse pra padroeira. Jeito não havia. Ou era minha vocação que não se abria.

Sem pendores pro breviário, dali parti pro seminário.


2 comentários:

  1. Esses meninos arteiros/
    merecem festa de arromba/
    espiem só, até nos temperos/
    tudo apimentou o tal Jonba...

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  2. Que delícia de post. Parabéns aos três envolvidos (Fábio, Leo e Paulo). :)

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