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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Estação Cultural Velho da Taipa


Povoado de Velho da Taipa.
Foto: Léo Morato 2016.
Para falarmos sobre a atual Estação Cultural em Velho da Taipa, é preciso recorrer à história do lugarejo, um aprazível povoado situado às margens do Rio Pará (há 5 Km da cidade) que pertencia totalmente a Pitangui até 1963. Naquele ano, Conceição do Pará emancipou-se de Pitangui passando a ser outro município. Contudo as residências e ranchos localizados à margem esquerda do Pará passaram a compor o território da nova cidade, enquanto os logradouros à direta do rio continuaram vinculados a Pitangui.
 
Procissão atravessando a divisa do povoado - a ponte sobre o Rio Pará.
Foto: Autor desconhecido.

O nome do lugar é atribuído ao bandeirante paulista Antônio Rodrigues Velho, um dos primeiros descobridores e exploradores do ouro no arraial do Pitanguy, na primeira década do século XVIII. De acordo com os registros históricos o bandeirante (que foi um  dos primeiros Camaristas de Pitangui) construiu uma casa com paredes de taipa, no alto do morro do Batatal (bairro da Penha), por isso a justificativa da alcunha de Velho da Taipa.
 
A descida do Batatal. Foto: Léo Morato 2009.
O progresso do povoado é vinculado à chegada do trem de ferro. Portanto, é importante contextualizar que: “As origens da ferrovia situam-se na Inglaterra no século XVII, em trilhos de madeira sobre os quais robustos cavalos puxavam pequenos vagões de carga carregados de minério extraído do ventre profundo da terra. Mais tarde, a madeira dos trilhos e a das rodas receberam revestimento de placas de ferro fundido. Nos primórdios do século XIX, quando os trilhos e as rodas já eram de ferro os ingleses substituíram-nos pelo aço, hoje o material ferroviário por excelência” (ANDRADE, 2000, pág 144). Atribui-se ao mecânico inglês George Stephenson o trabalho de criação e desenvolvimento da locomotiva a vapor. A título de curiosidade ressaltamos que a primeira agência de viagem registrada no mundo (como mecanismo de promoção do turismo) surgiu na Inglaterra em 1841, quando o missionário evangélico Thomas Cook fretou um trem para uma viagem de ida e volta - entre as cidades de Longorough e Leicester - a um Congresso Antialcoólico. "O trem ficou lotado, seu lucro foi compensador. Por isso passou a viver de fretamento de trens para levar as pessoas a congressos, eventos e férias" (ANDRADE, 2000, pág 190).

A locomotiva nas proximidades  da Estação Velho da taipa.
Foto: Autor desconhecido.

A estação ferroviária de Velho da Taipa foi erguida para receber a ferrovia no ano de 1891. Na margem pitanguiense do rio Pará havia uma fazenda de um português chamado Miranda. Portanto Estação do Miranda foi o primeiro nome daquele entroncamento férreo da EFOM – Estrada de Ferro Oeste de Minas, que dava acesso a várias localidades, inclusive Pitangui (a partir de 1907).

Embarque para a Festa de Conceição do Pará.

Foto: Autor desconhecido.

 
Com o processo de industrialização do país e o crescimento da indústria automobilística a rede ferroviária começou a se declinar (na contra mão de outros países do mundo) na década de 1960. A última viagem da Maria Fumaça em Velho da Taipa ocorreu em 1965, conforme relata o jornalista pitanguiense Ricardo Welbert (no capítulo de seu livro Tão longe, tão perto: a vida nos povoados de Pitangui) citando o documentário Olha o Trem - produzido pelos alunos da Escola Municipal Prof. José Morato, de Santana da prata, distrito de Conceição do Pará - contando a história do lugar: “O último apito, soando ao longe, encobriu o choro de tantos que ficaram na estação e nunca mais puderam vê-lo passar. O trem se foi para sempre mas na memória do povo se mantém vivo. A viagem do trem continuará acontecendo no coração e na mente daqueles que fazem do passado uma ponte para o futuro”  (WELBERT, 2015, pág 145). O trem de carga continuou  prestando serviços à Siderpita (Companhia Siderúrgica Pitangui) mas teve a sua derradeira utilização em setembro de 1979 com o descarrilamento dos vagões e a queda do pontilhão de ferro sobre o Pará. Da  mesma forma que o progresso chegou com trem, houve estagnação econômica na região após o encerramento de suas atividades.

 Histórica foto sob o pontilhão do Rio Pará. Autor desconhecido.

Em 2010 o prédio da Estação passou por uma grande reforma e foi reativada em 2013, com a exibição do referido filme "Olha o Trem", abrigando um eclético espaço cultural. A administração do Espaço está sob a tutela da Cristina Maria Benícia – filha de um ex-funcionário da Rede Ferroviária – que, como funcionária da Prefeitura de Conceição do Pará, zela pela Estação desde 2012.
Dênio e Licínio em um passeio de bike à Estação, durante a reforma em 2010.
Foto: Acervo do Blog Daqui de Pitangui.

Recentemente fizemos uma visita ao espaço e fomos recebidos com um brilho no olhar e  uma simpatia cativante da Cristina, que contou sobre a história da Estação, do trem, do povoado e dos ferroviários, à medida que mostrava com orgulho o acervo local.

Vandeir e Cristina conversando sobre o acervo.
Foto: Léo Morato 2016.
 
Num misto de biblioteca (composta por doações), museu ferroviário e loja de artesanato local variado - como maquetes e telas com os casarões de Pitangui - o espaço cultural preserva a memória do lugar e faz a diferença na vida da comunidade. Dispondo de poucos recursos, mas com muita dedicação, Cristina orgulha-se do que faz.
Judith Viegas (Projeto Agora São Outros 300) realizando doação de livros à Estação.
Foto: acervo da Judith.

O imóvel pertence à União, tem cessão de uso ao município de Conceição do Pará e o sonho de Cristina é a criação de uma Associação Cultural e conseguir o tombamento para promover melhorias no prédio histórico e para a comunidade local.
Turistas... Foto: Léo Morato 2016.
 
Que bom seria para a cultura e para a economia da região a reativação de um trem turístico, formando um mini circuito entre Pitangui - Velho da Taipa – Conceição do Pará - Brumado, se há sonho há esperança! Enquanto isso, aplaudimos e apoiamos iniciativas como essa, deixando o convite para uma visita à Estação Cultural Velho da Taipa.

Leonardo Morato - Turismólogo.

O templo do trem. Foto: Léo Morato 2016.
 
Fontes bibliográficas:
ANDRADE, José Vicente de. Turismo – Fundamentos e Dimensões. Editora Ática, 8ª edição. São Paulo – SP, 2000.
WELBERT, Ricardo. Tão longe, tão perto: a vida nos povoados de Pitangui. Comunicação de Fato editora, 1ª edição. Belo Horizonte - MG, 2015.

4 comentários:

  1. A dedicação da Cristina é algo fora do comum, ela se dedica de corpo e alma não só ao Espaço Cultural mas como ao Velho da Taipa como um todo. O que eu não entendo é a falta de visão dos prefeitos de Conceição que nunca deram ao povoado a devida atenção pois possui um potencial turístico que nunca foi devidamente explorado. A reforma da estação é muito pouco pelo que ainda pode ser feito. A limpeza e conservação do girador, a reforma da casa do chefe da estação, a limpeza da parte de trás da estação a recuperação da área junto ao barranco com a reconstrução da caixa d'água, destruída pelo fogo na bunda de um prefeito sem nenhuma consciência histórica, a padronização arquitetônica para eliminar as interferências que descaracterizam a praça da estação são apenas algumas atitudes que tornariam o local uma excelente opção de turismo para a região, mas...

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  2. Intrigante lugarejo
    que ao visitante alucina
    o maior tesouro que aí vejo
    de longe, é a bela Cristina

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  3. Também me encantei com a empolgação de Cristina e sua solitária luta pela preservação do espaço. Uma ação conjunta das prefeituras de Pitangui, Onça e Conceição do Pará seria mais que desejável para a reativação desse trecho da ferrovia e seu o aproveitamento do potencial turístico. Em Rio Acima, nos arredores de Belo Horizonte, reinauguraram um trecho de 6km e há intensa procura aos finais de semana. Mas pensar grande ou pequeno não me parece ser das preferências dos gestores públicos atuais.

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  4. Salve Cristina...Salve Cristina...Salve Cristina. Uma pessoa dedicada a preservar e divulgar a nossa história. Sinto que ela precisa de mais apoio para desenvolver o seu trabalho. Ela deveria ser condecorada pelo que faz. Só o seu sorriso aliado a sua paciência com que apresenta o seu arquivo histórico, é algo assim impressionante.
    Eu concordo plenamente com o meu amigo Vandeir.Tudo seria muito melhor se as autoridades se interessassem pelo trabalho que ela faz. O fato da não política, perdemos todos.
    Cristina parabéns muitas vezes. Que a sua perseverança fique acima de tudo isso que a direção municipal não lhe proporciona.

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