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domingo, 24 de julho de 2016

Domingo com uma crônica de Paulo Miranda


Ô, minino, cê viu o Júlio?

Paulo Miranda

Vendo hoje uma postagem no blog Daqui de Pitanguy sobre o seresteiro Júlio Timote, lembranças de quase meio século pululam. Não que fôssemos parceiros de empreitada, de trinados e gorjeios. Júlio tinha a voz e o inseparável violão. Saía pelo fundo do quintal de seus pais e, enquanto nos divertíamos, em meu beco, atrás duma bola, Júlio trepava a um pé de manga num lote baldio, e nos brindava com canções inesquecíveis, entre as quais, Diana, mais que princesa, reinava.


Júlio vivia numa família complicada. Mudo, o pai Timóteo, batia sola de sol a sola. Era caprichoso e careiro para os padrões e patrões usuais. Entre os 3 irmãos, duas moças haviam herdado a mudez paterna, e o irmão, um pouco menos falante do que o rouxinol da família, nem cantava. Vivia entre  o trabalho na fábrica de tecidos e o futebol dos mais crescidos.


A mãe de Júlio era uma Teresa, que alternava momentos de lucidez quando se postava à janela da sala de sua casa e cumprimentava passantes, a crises convulsivas de choro, ouvidos à distância. Sofria de bócio, e do ócio. Nas poucas vezes em que era vista a zanzar pela rua, abordava criançasgeralmente, e lhes perguntava:


 - Ô minino, cê viu o Júlio?


Das sonoridades do pé de manga, Júlio partiu para as serestas, requisitado que era. E a boemia passou a reverenciá-lo. Tornara-se imperdível para os apreciadores da noite. E não ficou só no atendimento a pedidos, que vinham em cascata. Produziu também, musicando letras que lhe chegavam. A mais notória foi Amor a três, lindíssima composição que, os habitués da zona, ébrios, sintetizavam, em seus pedidos e perdidos, para treis amor. Era um sucesso.


E um dia Júlio deixou Pitangui e a saudade, indo exibir sua arte alhures. Novos horizontes. Mas quem é, entre os cumpanhero, que dá conta hoje de seu paradero?


 - Cê num viu o Júlio não, ô minino?

2 comentários:

  1. "Não conheço o Paulo pessoalmente mas a forma como ele escreve é demais! Soa mais que poesia. Soa como música!" Fábio Freitas - filho do Juca, sobrinho do Jonba.

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  2. Oi Paulo. Brilhante! No mínimo eu terei que lhe dar o máximo, ou seja nota 10. Entrei mudo e saí calado, só não sei se fui influenciado pela história..... Abraços

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