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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Dona Zulma: uma vida dedicada a educação


Na postagem de hoje homenageamos a professora Zulma Lopes Cançado, que faleceu este ano. Dona Zulma, como era conhecida, dedicou a sua vida à educação no município de Pitangui. Em 2012 tive a oportunidade de entrevistá-la para um trabalho acadêmico quando estava cursando o Mestrado. 
Abaixo, reproduzo a entrevista na íntegra. O conteúdo da entrevista nos permite conhecer um pouca da trajetória docente de Dona Zulma e, também, um pouco da história da educação em Pitangui.



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Licínio: _ A senhora poderia me informar seu nome completo e o ano de nascimento?
D.Zulma: _ Zulma Lopes Cançado e nasci em 1925.
Licínio: _ Gostaria de iniciar a entrevista, perguntando sobre sua juventude como estudante. A senhora iniciou seus estudos primários em Pitangui?
D. Zulma: _ iniciei meus estudos na Onça (a entrevistada refere-se à cidade de Onça do Pitangui, próxima à Pitangui), onde estudei até os nove anos, quando me mudei para Pitangui e passei a estudar no... Como é que é? (tentando se lembrar do nome da escola) Grupo Escolar Professor José Valadares.
Licínio: _ Foi neste Grupo Escolar que a senhora fez o Curso Normal?
D.Zulma: _ Não.
Licínio: _ Em qual escola?
D. Zulma: _ Na Escola Estadual Monsenhor Arthur de Oliveira.
Licínio: _ Ah...Onde funcionou o antigo Colégio Normal de Pitangui?
D.Zulma: _ Sim, o antigo Colégio Normal, agora mudou de nome, né?
Licínio: _ O nível de ensino do Monsenhor Arthur atendia as expectativas da senhora enquanto estudante?
D. Zulma: _ atendia! Era muito bom, sabe? Professores muito bons. Naquela época não se estudava o Inglês...estudava Francês. É...
Licínio: _ Ah... Muito bem... E o Curso Normal tinha duração de quanto tempo?
D. Zulma: _ É... dois anos de admissão e três de Curso Normal.
Licínio: ­_  A senhora ingressou no Curso Normal em que ano? A senhora se lembra?
D. Zulma? _ Em 1900... (longa pausa tentando se lembrar da data). 1939!
Licínio: _ E quando a senhora se formou?
D. Zulma:_ Em 1943.
Licínio: A senhora poderia me falar como era o Curso Normal daquela época, o curso de formação de professoras? Além do francês, quais outras disciplinas compunham a grade curricular?
D. Zulma: _ Eu estudava Pedagogia, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências... Minha professora era a minha Tia, muito enérgica.
Licínio: _ E como ela se chamava?
D. Zulma: _ Beatriz Lopes Cançado.
Licínio: _ A senhora, então, seguiu uma tradição familiar, havia outras mulheres professoras em sua família?
D. Zulma: _ Sim... tias, primas...
Licínio: _ Desde o início de seu Curso Normal, a senhora percebeu que tinha o desejo de lecionar?
D. Zulma: _ Não. Eu não queria lecionar, meu pai me obrigou. Ele me disse: não, você estudou agora vai trabalhar, vai dar aula. Eu entrei na Escola Normal, onde comecei a lecionar, nas classes anexas, três anos depois que me formei.
Licínio: _ Ah... a senhora, então, começou a lecionar na Escola Normal, na formação de professoras? A senhora não lecionava para crianças?
D. Zulma: _ Eu lecionava para crianças, de 1ª a 4ª série, nas classes anexas, que existiam no Curso Normal. As normalistas iam a minha sala fazer acompanhamento. O estágio para se formarem também, né!?
Licínio: _ Fazer o Curso Normal foi uma escolha pessoal ou teve outras motivações?
D. Zulma: _ Não, foram meu pai e minha mãe, que naquela época davam muito valor à educação, aí nós mudamos para Pitangui, meu pai comprou esta casa. Mas nós estudávamos lá naquela casa na beirada da estrada. Você sabe qual é? Aquele casarão lá no fundo?
Licínio: _ Sei.
D. Zulma: _ Pois é, meu pai era dono de lá, onde funcionava a escola primária, nós íamos a pé, depois eu fui estudar na Escola Normal. Depois de formada fiquei três anos em casa, mas meu pai disse que eu tinha que trabalhar, dar aula, então, eu fui...comecei a lecionar nas classes anexas da Escola Normal.
Licínio: _ Então a senhora iniciou sua carreira como professora em 1946?
D. Zulma: _ É.
Licínio: _ Pois bem, então eu gostaria a partir de agora saber como foram os primeiros anos de sua carreira docente, sua carreira de professora. A senhora encontrou dificuldades para atuar como professora nos primeiros anos de trabalho?
D. Zulma: _ Não, não encontrei não.
Licínio: _ A senhora me disse que começou a trabalhar no Monsenhor Arthur. A senhora trabalhou em outra escola?
D. Zulma: _ Em 1968 eu passei para ser diretora Escola no Lavrado, a Escola Estadual Jacinto Álvares, lá eu fui diretora por 17 anos. Mas, desde quando eu trabalhava nas classes anexas, eu não me colocava como uma simples repassadora de informação, eu gostava de abrir os temas para debate. (lendo) “Eu acreditava que a educação era a base para um país melhor... o ponto de partida para qualquer nação se desenvolver”.
Licínio: _ Desde aquela época a senhora já tinha esta visão da educação?
D. Zulma: _ Sim. Eu também dei aulas de religião, todos os conteúdos eu tentava relacioná-los com a realidade, não gostava de ser uma mera passadora de conhecimento.
Licínio: _ Me fale do ambiente de trabalho, da relação entre os profissionais da educação dentro da escola.
D. Zulma: Era um ambiente ótimo, muito bom, nós éramos quatro colegas...tinha quatro classes...1º, 2º, 3º e 4º ano
Licínio: Naquela época, como era a relação da escola e a família, era uma relação próxima, ou a família era alheia à escola?
D. Zulma: Era boa, eu marcava reunião com os pais e a maioria comparecia. Eles me diziam que eu era a melhor professora da escola. As mães iam lá para saber de seus filhos...eu dizia à professoras que elas deviam manter a disciplina...eu era muito respeitada pelos alunos...quando um dava problema as professoras diziam que iriam mandar lá pra baixo...pra minha sala... Você conhece o Lipinho? Ele foi meu aluno, dava problema e eu chamava lá...ele me escutava...eu voltava com ele para a sala de mãos dadas...muitos ficaram amigos da gente. Toda sexta feira tinha culto cívico na escola, nós levavamos eles lá pra baixo, rezávamos. Depois ampliaram o grupo, o governador veio inaugurar....foi o Rondon Pacheco.
Licínio: Foi quando o grupo se tornou escola estadual?
D. Zulma: Foi... antes, em 1968, meu cunhado que foi prefeito, Antero Rocha...você conhece? Pois então...ele é que criou o grupo.
Licínio: Então, nos primeiros anos era uma escola municipal?
D. Zulma: É...ele foi...ele foi... em 1971 ele foi instalado provisoriamente naquela casa do Raimundo... depois, com o Plano Nacional de Educação construíram o grupo como está hoje. O Gustavo Capanema veio no casamento de minha sobrinha e me disse que era preciso construir escolas para educar as crianças e prometeu ao meu cunhado que ajudaria a construir um grupo novo...foi uma rapidez menino...as obras começaram em março de 1971. Quando foi em agosto de1972 vieram me entregar a chave... já tava pronto.. Ele chamava Grupo Escolar Dr. Jacinto Álvares, que era tio do meu cunhado.
Licínio: E como a população recebeu o grupo novo?
D. Zulma: Nossa Senhora...você precisava ver a alegria da população, lá era um matagal, o Lavrado... (bairro onde se localiza a Escola Estadual Jacinto Álvares) aí todo mundo começou a construir lá.
Licínio: Começaram a comprar lotes?
D. Zulma: É... era uma alegria... eu acompanhava os alunos até a suas salas e no final das aulas até a porta da escola...todos os dias! As mães me agradeciam
Licínio: É uma dedicação muito bonita, mas devia exigir muito da senhora...
D. Zulma: É... tinha muito trabalho... A Amélia Marina você conhece, trabalha na escola da Maria Helena... pois é... ela era minha professora e me dizia: a senhora recebe os meninos todos os dias, leva nas salas e não se cansa.
Licínio: O Estado valorizava os profissionais da educação em termos de salários?
D Zulma: Eu acho que o estado nunca valorizou as professoras, mas elas eram mais tranquilas...não faziam greve... a maioria só tinha o magistério. Eu mesma só fiz o magistério. A escola era superlotada, todo mundo queria por o filho lá...por causa das professoras.
Licínio: E como era seu trabalho de diretora junto às professoras?
D. Zulma: Eu fazia muita reunião...dava suporte pra elas. (confidenciando):Teve uma vez que uma professora escreveu uma palavra errada no quadro, um aluno veio me dizer que ela não sabia escrever...para não deixar a professora em má situação disse a ele que ela fez isto para testar a turma...pra saber se todo mundo estava escrevendo direitinho (sorrindo).
Licínio: Quando a Senhora se aposentou?
D. Zulma: Eu já estava muito cansada, ninguém queria que eu me aposentasse, então eu pensei não só no meu descanso, mas também em dar a oportunidade para outros trabalharem em meu lugar. Então eu fui à Divinópolis caladinha e dei entrada nos papéis e a aposentadoria saiu rapidinho. As professoras que estavam comigo lá não sabiam. Depois minha irmã me disse que minha aposentadoria tinha saído.
Licínio: Mas porque a senhora fez isto escondida? O pessoal não queria que a senhora se aposentasse não?
D. Zulma: (rindo): não, minha aposentadoria saiu no dia 12 de julho de...como é que é? De 1985. Ah, quando eu cheguei na escola e contei todo mundo veio me dizer: a senhora não podia ter feito isto não, Foi uma reclamação, uma choradeira.
Licínio: Todos gostavam da liderança da senhora lá na escola, né?
D. Zulma: Graças a Deus!
Licínio: E a senhora acompanha o cenário da educação hoje em dia? E se a senhora pudesse comparar a sua época como professora com os dias de hoje, que comparação a senhora poderia fazer?
D. Zulma: Hoje é diferente de tudo, hoje os alunos não respeitam os professores. As professoras também estão muito mal preparadas. No meu tempo o menino não saia da sala de aula. Uma vez um aluno saiu da sala de aula e bateu o sino, eu o chamei e disse que ele não poderia fazer aquilo não. Amanhã na hora da saída eu vou te chamar pra você bater o sino. Ele foi quietinho para a sala. No dia seguinte eu o chamei, ele bateu o sino, não me deu mais trabalho. Mas tinha que ter compreensão, né? Eu acompanhava tudo, hoje... parece que não tem comando nas escolas.
Licínio: A senhora quer falar mais alguma coisa a respeito de sua experiência como educadora? 
D. Zulma: Ah...eu dei aula no Mobral quando meu cunhado foi prefeito...ganhei até uma medalha de Honra ao Mérito.
D. Zulma: do início aqui em Pitangui, em 1971, até acabar.

5 comentários:

  1. De Zulma, aluno não fui,
    mas só a honra de ser vizinho
    é tanta lembrança que flui
    que agora, me acho sozinho...

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  2. Licínio você está de parabéns ótimo trabalho e otima entrevista, tia Zulma representava muito para nós que somos sobrinhos praticamente netos dela uma pessoa muito boa e de caráter uma pena que não tive muita oportunidade de ter este tipo de momento que você pode ter tenho certeza que também para você foi uma experiência magnífica. Obrigado por estar lembrando de pessoas que só fizeram ajudar Pitangui eu particularmente estou cada vez mais fã do trabalho de vocês aqui no blog obrigado mesmo e que você continue nesse trabalho fantástico!

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    1. Olá Igor.
      Seja bem-vindo ao blog.
      Agradeço o reconhecimento ao nosso trabalho de preservação da memória de Pitangui. A entrevista com Dona Zulma foi fantástica, aprendi muito sobre a organização da instrução pública em Pitangui e também sobre o cotidiano das educadoras.
      Eu queria publicar esta entrevista em 2012, mas Dona Zulma me pediu para utilizá-la só no trabalho acadêmico que eu estava desenvolvendo, pois, tinha medo que pessoas de má índole tivessem informações sobre ela e pudessem assaltá-la...eu respeitei o ponto de vista dela. Porém, agora, resolvi postar o material, pois, penso que o nome dela deve ser sempre lembrado por sua contribuição para o ensino em Pitangui. Abraço.

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  3. Obrigado, Licinio. amei a entrevista. Fiquei até emocionado. Dona Zulma é um referencial de educação em Pitangui. A melhor educadora que já conheci.

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    1. Olá Roberto. Sejas bem-vindo!
      O relato de Dona Zulma é mesmo emocionate, principalmente para nós, que também somos educadores. Mais uma vez, agradeço-lhe pelo reconhecimento ao nosso trabalho. Abraço.

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