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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Um pitanguiense em apuros em Beirute

     Título original: Se explodirem o carro, não sobra ninguém da família.

    Desço no aeroporto de Beirute e já encontro a cidade paralisada. Já sabia que havia combates isolados, tinha viajado várias vezes à bela metrópole durante aquela guerra, mas nunca tinha encontrado Beirute dividida. Numa dessas vezes, tive que fazer compras em pequenos estabelecimentos de comércio onde havia seguranças armados e verdadeiras trincheiras feitas com sacos de areia. Realmente, a situação estava se deteriorando. Ao desembarcar, fico sabendo que não adianta sair do aeroporto, porque não dá para atravessar do setor muçulmano para o setor cristão. E meu destino é Baabda, no setor cristão, onde se encontra a Embaixada do Brasil.

     Penso na alternativa de voltar dali mesmo, sem sair do aeroporto e pegar o próximo voo de volta a Jeddah, Arábia Saudita. Mas não sou de desanimar fácil e, meio que espartano, penso que daria um jeito de levar a mala diplomática à Embaixada. De prêmio, na certeza de que nem tudo estava contaminado pelo ódio e que ainda havia espaço para diversão nessa Paris do Oriente, pensei que, de repente, ainda daria até pra ir jantar e ver um show no Cassino du Liban à noite.
     Conversa daqui, conversa dali, e descubro um chofer muçulmano que diz poder levar-me até a divisa com a parte cristã. Já antecipa que vai ficar mais caro que a corrida normal umas dez vezes.
     - O senhor entende, a gasolina está escassa e cara. Veja as filas. Os perigos na rua, de dia ou de noite, são enormes. Quem trabalha de táxi agora é só quem precisa mesmo. Mas é possível levar o senhor até Baabda.
     Na época, dez libras libanesas era o preço que se pagava pela corrida. Naquele dia, ultrapassava  cento e vinte libras. E pagamento adiantado.
     Topo, que remédio! Afinal, já estava ali, não ia voltar sem cumprir a missão. O taxista me leva até a divisa dos setores, com rosto tenso, meio desatento ao trânsito, parecendo mais preocupado com qualquer movimento estranho nas calçadas. Mas a cidade está praticamente vazia, barricadas aqui e ali, com seguranças armados, com cara de pitbull.
     Depois de uma série de voltas e uns quinze minutos depois, o chofer estaciona o carro em frente a um muro e chama alguém. Atrás do muro, uma casa de dois andares. Desce um senhor. É o chofer cristão. São conhecidos, cumprimentam-se. O muçulmano me entrega ao novo responsável, falam em árabe rapidamente. Parecia filme de espionagem.
     Meu  novo condutor  pede um tempo em francês e desaparece pelo portão. Escuto o barulho dos passos subindo a escada, o abrir e o fechar de uma porta. Pouco depois, descem ele, uma mulher, um menino e duas meninas.
     -  Ma famille, aponta para a mulher e as crianças. A mulher, de chale, com o rosto semi encoberto.
     Uma das crianças é um menino de uns dez anos.  Senta-se à minha direita, fico espremido entre ele e seu pai. Menos mal que o táxi é um Mercedes preto, antigo e espaçoso, mas muito bem conservado, câmbio no volante.  Atrás sentam-se as três mulheres, silenciosas e desconfiadas.
     Vê-se logo que o garoto, ao contrário delas, é falador e curioso. Fala em francês fluente, com o típico sotaque libanês, mas, como gaguejo um pouco para responder, passa imediatamente ao inglês.
     -  Você é cristão?
     Acho aquilo estranho. E ele continua, antes de escutar minha resposta:
     - Eu sou. Olha aqui.
     E mostra uma medalhinha de Nossa Senhora no pescoço, outra dependurada na base do espelho retrovisor interno e também sua identidade. Com evidente orgulho, aponta para o campo onde consta religião cristã.
     - Eu também sou, respondo.
     Satisfeito, vira-se para o pai com um sorriso largo e traduz em árabe o que eu disse. O pai também mostra satisfação.
     Até aquele momento, contive a pergunta que não queria calar. Eu pagando o táxi para aquele monte de gente, espremido no banco da frente, no meio dos dois, sendo interrogado desde o momento que o garoto sentou-se ao meu lado.
     - Seu pai sempre traz vocês todos quando faz corridas? Vocês é que pedem? É comum isso aqui?
     - Não, senhor. É só quando tem guerra aqui. É que, se acontece alguma coisa ruim, morre toda a família e não fica nenhum órfão.
     Senti um frio na espinha, procuro não demonstrar emoção. O que é que eu estava fazendo ali?
     Hoje, posso dizer que sei. Tinha 26 anos intrépidos, e não havia comunicação instantânea como agora. Até Jeddah, Arábia Saudita, as notícias do Líbano chegavam com atraso, e o desenrolar da guerra civil era impossível prever. Sabia-se por meio das conversas dos viajantes, mas tudo com um atraso de, pelo menos, um dia.
     E seguimos em direção a Baabda. No caminho, o táxi pára pra abastecer. Muita fila. O país se destroça em uma guerra civil, uma das consequências é escassez de gasolina. Facções cristãs e muçulmanas se engalfinham, há atentados todos os dias, o de hoje vingando o atentado do dia anterior. Famílias se despedaçam, porque a vingança não é pessoal, é dirigida a qualquer membro da família ou da facção agressora. Muitos morrem sem saber o motivo. Os palestinos também fazem parte do imbroglio e são alvo dos cristãos e, dizem, até dos sauditas, que veem nos palestinos uma ameaça à estabilidade de sua monarquia.
     Vamos o mais rápido possível para Baabda, peço ao taxista. Vendo o que está acontecendo e o que pode acontecer, quero entregar a nossa mala diplomática e receber a que chegou de Brasília. E, num segundo, decidi a volta naquela noite mesmo, nada de pensar em hotel, restaurante e show no Cassino du Liban daquela vez. Havia um voo no início da noite, era sair de Beirute o mais rapidamente possível.
     Começamos a subir, Baabda está no começo da subida. De repente, o táxi pára, o chofer faz uma cara séria, aperta os olhos para ver melhor. Na ladeira, vem descendo um caminhão militar apinhado de soldados vestidos com camuflados na carroceria. Quando o caminhão chega a uns cinquenta metros do táxi, salta um dos militares e vem em nossa direção, fuzil apontado para nós. Penso – é o fim. Nunca mais vou comer sopa de fubá com couve e carne moída da mamãe, terminar a gravação das histórias de minha avó, escutar piadas do papai e  beijar minha mulher e meu filhinho tão novinho. Nunca mais jogar futebol e escutar música.
     O soldado vem se aproximando, alterno a direção do olhar para a cara do menino e a do pai e, se o soldado vai mesmo atirar em nós, não quero ver. Quero morrer de olhos fechados, saber como aconteceu tudo só lá em cima, no vestibular do Paraíso, na hora da triagem, com São Pedro e seus assistentes.
     Devagarzinho, as expressões do chofer e do garoto vão se alterando, mudando da extrema tensão para um sorriso largo, que prevalece no final. O soldado, já sorridente, se aproxima e vem até a janela do carro, o chofer abre o vidro. Os dois conversam animadamente em árabe. O menino traduz quase que simultaneamente em inglês.
     - É meu primo, sobrinho do meu pai. Está avisando que temos de mudar o caminho até a sua Embaixada, porque tem minas terrestres em todo lugar.
     Respiro fundo, o coração demora uma eternidade para bater de novo normalmente. Quase tenho um infarto. Pelo menos, fomos avisados das minas.
     Depois de algumas ladeiras mais, chegamos e encontramos a Embaixada fechada. Aperto a campainha, mala diplomática na mão esquerda. O segurança, Zelon, meu conhecido, meu cicerone em todas as vezes anteriores em Beirute, espreita pela cortina, me reconhece e abre. Vejo que está tenso, não faz nenhuma brincadeira. Vai logo dizendo:
     - Amigão, estamos em alerta máximo. Esta noite vieram milicianos cristãos perguntando se a gente podia fazer o favor de emprestar o nosso terraço para atirar num campo de refugiados palestinos lá embaixo.
     - E aí?
     - Claro que não! Como a gente podia autorizar isso? Então estamos com medo de alguma  retaliação deles. O mais fácil aqui é descontentar todo mundo. E ninguém manda em ninguém agora.
     Retruco rapidamente:
     - Cara, toma aí a nossa mala. Passa a minha que tou voando. Me deu pressa agora, nada de Cassino nem restaurante desta vez.
     Pela fresta da cortina, Zenon aponta para o táxi lotado estacionado em frente:
     - E esse monte de gente?
     - O menino disse que o pai só trabalha assim, porque, se explodirem o carro não sobra ninguém da família.
     - Você é doido?
     - Sou. Mas nem tanto. Tou vazando hoje no primeiro voo para Jeddah. Abraço no Amilton.
     No caminho de volta, o mesmo transbordo. Passo de novo às mãos do chofer muçulmano e volto ao aeroporto a tempo de pegar o voo da noite. Sorte que havia lugar. Os sonhados dias de descanso na outrora linda Beirute terão de ser adiados. Mal sabia que era a última vez que houve correio diplomático para Beirute. Uma semana depois, o aeroporto foi bombardeado. A troca de malas passou a ser feita em Atenas, até o sequestro de Entebe, quando mudou para Genebra.
     O  avião parte de volta para Jeddah, Arábia Saudita, então sede das missões diplomáticas naquele país. Enquanto o avião ganhava altitude, fui pensando que a guerra civil libanesa era coisa passageira, que, de alguma maneira, as partes entrariam num acordo rapidamente. Isso foi em 1976 e  só em  1990 os conflitos, daquele tempo, seriam resolvidos.


William Santiago

Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/contos/5698575



Um comentário:

  1. Quarenta anos decorridos,
    é que pinta uma certeza:
    se éramos loucos varridos
    o que abundava era macheza...

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