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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

"Vovocê sabe de onde venho...?" Paulo Miranda





Embora com o corgo de bosta aos fundos de um quintal em agudo declive, o Vovozim é um moço e poço de cristalina pureza. E em sua vida fecunda de oito décadas e meia, aguda sabença abunda.

Sempre morador no Beco dos Canudos, que se converteu em Rua Chiquinho Teodoro por ato do legislativo municipal para homenagear um prócer do torrão, em detrimento de uma referência histórica (consta que o Canudos deriva de aglomeração de ex-soldados  desmobilizados e assentados depois da chacina de Canudos), Vovozim, que é José Rodrigues de pia, é cronista oral que muita fome de saber sacia. E vicia.

Enviuvado há vários anos, aposentado das lides da barbearia, Vovozim faz de um bar icônica crônica de cada dia. O estabalecimento, (in)cômodo único da parte frontal de sua casa é o quadro mais pungente do que a falta de mulher faz à vida (in)dagente. Pilhas de papel, sacos plásticos, poeira e outros desmazelos acumulam-se por detrás, à frente e sobre o balcão e medo de vassoura não parecem ter não. Talvez nem mesmo conhecimento do que é esse palavrão...

A memória do Zé todavia é que permanece limpinha, cristalina e transbordante. Em meio a uma meia dúzia de atônitos circunstantes, confirma-me a impressão que colhi, quase seis décadas faz de que por ali, com a rua tortuosa e nua houve um chafariz - bem debaixo, aliás, ali, de nosso nariz. Até então a cidade mal dispunha de água encanada, porquanto abundasse a enganada.

Das personagens que povoavam o sinuoso Beco dos Canudos há meio século, ou inda pra trás, fala com segurança, conhecimento e aisance dum connaîsseur, sem contudo se jactar de sua prodigiosa memória.

Quiçá por saber que mais prodigiosa é sua voz, aveludada e afinadinha quando entoa a capella versos ou canções de um passado mais que perfeito e que como no tango imortal de Gardel, el tiempo borró...

Seu Hino do Expedicionário, que ouviu pela primeira vez ao fim da segunda guerra mundial por uma única vez e lhe gravou letra e melodia, é digno de ser ouvido e reproduzido em nossas escolas. Havia patriotismo então. Inda mais quando enunciado por um jovem locutor como  Heron Domingues, que iria se celebrizar na emissão do Repórter Esso, anos a fio. E vovô se torna menino outra vez. Cercado de desconcertados marmanjos comovidos com seus trinados de brio e sensatez.

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