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domingo, 16 de outubro de 2016

Pelada atrás da igreja


Segundo Nelson Rodrigues, "O futebol é o ópio do povo"


Para Luis Fernando Veríssimo, "O futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora"  


Para João Cabral de Melo Neto, "A bola de futebol é um utensílio semivivo de reações próprias, como bicho"



Eduardo Galeano ressalta que "Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário  inteirinho, ... pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade."


Barrica infere no seu "De gol em gol" que o futebol veio para Pitangui junto com a ferrovia, em 1907, mas ... "Foi naquele momento, em 1911, que começou a surgir o futebol em nossa terra - tímido, no princípio, com pequenos grupos de meninos fazendo peladas nos finais de tarde, nas ruas e praças de nossa cidade"


Para o Santo Papa Francisco, que, quando criança, era péssimo no futebol "...sempre me colocavam de goleiro..." 


E para nosso herege cronista, Paulo Miranda, "a pelada era atrás da igreja"



Pelada atrás da igreja

A igreja de São Francisco, situada no ponto mais alto da urbe pitanguiense, já a caminho do bicentenário, é vista por muitos como a mais bela da cidade, pela harmonia de suas linhas, por mais singelas que sejam. E a culminá-la, um par de torres, adiciona-lhe charme e aconchego. Sem tirar o sossego. É que, há décadas, o relógio que orna a torre esquerda deixou de soar, e depois de muito tentar, ainda não se descobriu como os ponteiros fazer andar...



Mas num plano mais pedestre da existência, e de nossa arquétipa tendência, passada a referência sagrada, o que me ocorre abordar são as peladas que se promoviam atrás daquele venerável templo.


E sob a luz do dia, todo mundo via, ou ao menos, com elas consentia. Afinal eram uma manifestação do vigor da juventude e não duvido que de lá não tenham saído expoentes atletas desse reverenciado métier, que gera tanto prazer.



E a garotada não deixava por menos: queria sempre exibir seus talentos, até mesmo aos menos atentos. Um simples par de sandálias Havaianas servia para demarcar o que em campos mais sofisticados se chamam traves. E sem entraves.



Afinal, o exíguo espaço, à época quase nunca perturbado pelo trânsito de veículos motorizados, prestava-se ao adestramento das habilidade dos peladeiros.





E São Francisco, o padroeiro, que, sorrateiro, a tudo observava, na certa, abençoava. Mas só até o por-do-sol. Com econômica iluminação elétrica, os gingados, os dribles e os gols, sem menos ou mais, passavam a ser privilégio dos jovens casais...



Fotografias da Capela e do futebol de rua - Leonardo Morato e Dênio Caldas
As outras imagens foram captadas da internet

3 comentários:

  1. Onde se lê: já a caminho do bicentenário, leia-se:
    ...já caminhante tricentenária...

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  2. Excelente matéria, Denio! E o Miranda mais uma vez foi sagaz, principalmente porque a crônica foi "encomenda" a partir das fotos da pelada atrás da igreja! Abraços. Léo Morato.

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