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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Reinaldo "Rohr" Pereira, usina musical

William e Rohr - década de 1980.

Por William Santiago. 
      Conheço Reinaldo “Rohr” desde pirralho, circulando pela Rua Nova ou nos arredores do açougue do Iraci Severino, na rua Velho da Taipa, onde eu tinha que ir para comprar carne. Nós, morro abaixo, morríamos de medo da turma do Alto, capitaneada pelo Zaía, o Isaías Profeta, que também se ligava ao Ipiranga Esporte Clube, time do mesmo bairro. Nunca apanhei deles, mas também não provocava.
      A amizade com o “Rohr” começou mesmo quando, um dia, assistindo nossa pelada no Beco sem Saída, estava um rapaz cabeludo, de shorte e sem camisa. Ainda não era o “Rohr”, ainda era o “Reinaldo do Tõe Carapina”, um dos protegidos do Zaía. Pensei logo em arranjá-lo como meu protetor no Alto, porque tinha certeza que meus pais ainda iam continuar me mandando buscar carne no açougue do Iraci e uma amizade lá ia facilitar minha vida. Pois bem, naquele dia faltava  juiz, e o Reinaldo foi nomeado “ad-hoc” e imediatamente começou a exercer as funções. De juiz para jogador foi um pulo. Tínhamos ali, na nossa ótica, um futebol semi-profissional, com três times, ou clubes, como os chamávamos. O meu sobrevivia da venda de pimenta, colhida no quintal do meu avô.
     
     A nossa Champions League era formada do Canopus, “clube” dos Miranda, Clube de Regatas Brazil (com Z, mesmo), que representava o Beco dos Canudos, e o outro, cujo nome não me lembro, representando a Rua da Cruz (Praça São José), dirigido pelo Márcio Alberto Morais, o Salzinho, neto do Calixto Morais, primo do Nadinho, o Ronaldo Morais Valério.
     
     Reinaldo começou a se enturmar conosco na pelada do “Beco Sem Saída”, hoje Rua Nonô Cançado. Era ao mesmo tempo nosso violeiro e jogador do Galícia, outro time que criamos posteriormente, numa fértil união com o imenso clã “Bilico”, Marcondinho Machado, Marco Antônio do Dr. Rui, os Valério Jorge, Nenete e Nadinho, entre outros. No entanto, na única foto do Galícia, o “Rohr” não está. A foto foi tirada num jogo contra o Manchester, não o da cidade inglesa nem o homônimo de Juiz de Fora, mas um junta-junta que o Marquinho do Bilico trouxe de Belo Horizonte. “Rohr” arranjou um encontro amoroso justamente na hora do jogo, domingo à tarde, e foi tomar sorvete no Bar Elite. Preferiu Cupido aos deuses do futebol e não saiu na foto, que mostrava, além dos jogadores, a flâmula feita pelo meu tio João Jacques e a caixinha de massagista carregada pelo Edílson “O Independente” Lopes. Não fossem musas e música, “Rohr” podia ter avançado mais no futebol, porque, como todos os “Curé”,  tinha arranque, driblava em sequência, sabia proteger a bola e cabeceava muito bem. Em vez de um craque na bola, no entanto, ganhamos um compositor.

     Ele gostava muito de idiomas, como o Paulo Miranda e eu, sendo o inglês e o alemão seus favoritos. Quando esteve passeando na Dinamarca em 1979, aprendeu um pouco de dinamarquês. Gostou tanto do país, que chegou a pensar ficar por lá,  fazendo parte duma banda dinamarquesa que tocava “Brazilian Jazz”, nome local para a bossa nova, e que tinha dois brasileiros: Mozar Terra, pianista, e Luiz Carlos “Chuim”, bateirista. Eles fizeram propostas concretas, mas ele só pensava nas “Pitangas”, como sempre se referia a Pitangui, e acabou voltando ao Brasil.

      Porém, apesar do gosto pelos idiomas, sem dúvida, o que nos uniu para sempre foi a música. As preferências iam das baladas francesas e italianas à nascente bossa-nova, passando também pela Tropicália e MPB em geral.  Eu comprava a revista “Vamos Cantar” para aprender letras e ele as que traziam as cifras. Com certeza, os Beatles eram a paixão da época, e nós não escapamos desse feitiço. Cada um dos amigos mais chegados encarnava um dos Quatro de Liverpool: José Luiz Moreira era o Ringo Starr, César Miranda, o John Lennon, eu, Paul McCartney e ele, “Rohr”, era o George Harrison.

    

      Aprendendo a tocar músicas de outros, seguindo a trilha do Júlio Timote, foi o caminho para ele tornar-se compositor. A nossa primeira composição foi feita numa jardineira, a caminho de Divinópolis, na antiga estrada poeirenta que passava pela Usina, no Cardosos, juntamente com César Miranda. Era uma obra-prima. Ou quase. Ou menos. Chamava-se Guarapari. E era de uma sutileza sublime do duplo sentido: “eu fui para o Canadá, que encrenca eu me meti, agora a solução é ir pra Guarapari.” Ainda bem que essa não foi a guia de toda nossa obra posterior, porque não daria muito para nos orgulhar, rsss.

     Quando me mudei para Belo Horizonte para fazer faculdade, nos idos de 1969, continuamos o papo nos finais de semana, agora todo regado a música. Eu não perdia sábados e domingos em Pitangui e, se o “footing” no Jardim não trouxesse réditos femininos até o final da segunda sessão do Cine Pitangui, a música, com certeza, traria satisfação artística. Cada vez havia uma melodia nova para ser letrada. Eu, às vezes, dava pitaco nas melodias, ele nas letras e passamos a compor, sem saber até aonde ia a letra de um e a melodia do outro em algumas composições. De tanto ouvi-lo, passei também a arriscar melodias, que ele, se gostasse, fazia os ajustes necessários. Muitas das composições nasceram assim.


     Com o passar do tempo, continuamos compondo e muitas dessas músicas nos acompanharam a vida toda, como a recém-gravada “Back to Norway”, beneficiária da tecnologia moderna, masterizada em Berlim neste ano, que começou a ser composta em 1972. Algumas já estão no Youtube, em vídeo-clipes. Muitas outras ainda dependem do vídeo-clipe correspondente para serem divulgadas mais amplamente. Mas serão. Tem muita coisa bonita ainda a ser conhecida, incluindo composições com Jonba Freitas e Ricardo Nazar.

     Com a sua partida apressada, vou sentir muita falta dessa convivência de cinco décadas. A verdade é que a ficha ainda não caiu, muita lágrima ainda vai rolar. Há uma série de histórias, muitas delas engraçadíssimas, que retratam a personalidade complexa que era o “Rohr”. Às vezes, para justificar algumas de suas atitudes que envolviam amigos comuns, o Jonba e eu dizíamos aos afetados, usando a frase cunhada na época do governo militar: o “Rohr” é assim e não vai mudar; ou ame-o ou deixe-o.” Jonba e eu preferíamos amá-lo e levar na brincadeira algumas de suas atitudes e ideias radicais. Que descanse em paz, parceiro!

      Para os que ainda não conhecem o seu canal do Youtube, eis o link: https://www.youtube.com/user/reinaldorohr
Publicado originalmente em: http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/5802444    

3 comentários:

  1. Outro Filho de carpinteiro
    cuja história a tantos seduz
    com a sua pinta de roqueiro
    nosso violeiro conduz...

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  2. Já falei pra vc William que vc não foi amigo irmão do Reinaldo.
    Uma linda amizade invejável!

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  3. Digo, William não foi só amigo do Reinaldo . Falo que eram o melhor irmão um do outro .
    Amizade invejável pra muitos.

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