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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Benedito Rádio! Crônica de Paulo Miranda


Nosso rádio Philips era preto, grandão, acomodado numa até elegante moldura de madeira, e sua sintonia era seu calcanhar de aquiles. Frágil e caprichosa. Papai dizia que era a antena, que era externa, com uns fios que se projetavam da janela de nossa varanda para o telhado, o quintal afora.

E havia horas melhores para se sintonizar, no entanto: pena que boa parte desse tempo ou era de sono compulsório, ou daquele programa chato, repetitivo: A Voz do Brasil. E não tinha escapatória: deu sete da noite, babau. Uma hora inteira de avisos aos navegantes, comunicados oficiais dos poderes constituídos e outros temas de pouco alcance e menor agrado. Tinha umas `rádia` estrangeiras que podiam ser alternativa, em ondas curtas, mas os blá-blá-blás eram coisa de Satanás, além de Anaz e Caifaz. Não entendíamos bulhufas.

Eram quatro os botões do comando: o de ligar, o do volume, o da sintonia e o das ondas. O de ligar, mais à esquerda do ouvinte, fazia um ressonante `poum!` tanto para ligar quanto para desligar. Mas era só o barulho, não fedia nem cheirava. E cabia ao ouvinte esperar uns poucos segundos para a coisa esquentar. O botão mais acionado era o da sintonia, o terceiro. 

Tanto nele a gente mexia, que volta e meia o cordãozinho interno que acionava uma lingueta metálica externa no topo do aparelho e que coincidia com as determinações do `dial` (uma placa de vidro com os nomes das estações radiodifusoras em umas seis ou oito colunas) emperrava, saía dos seus trilhos internos e se embolava todo. Era preciso então, abrir o rádio por detrás e fazer as correções, manobrando-se cautelosamente as mãos entre aquele emaranhado de fios, caixinhas e válvulas. Tinha uma delas que se das demais: bojuda e compridona era a mãe-de-todas as válvulas. Menino não podia tocar naquelas coisas. No que obedecíamos, mas espiar e se extasiar com aquele mar de combinações não colocava problemas. Desde que guardada uma certa distância e que palpites não perturbassem o corregedor da vez. Uma vez, apareceu lá em casa o Benedito, moço, vai ver que adolescente então, alto, magro e bem alinhado. Um gentleman. Era filho de um compadre de papai, outro Benedito, ferroviário e vicentino.

Ao Benedito filho, cabia fazer a limpeza no rádio e corrigir a linha das estações. Ele chegou com uma confiança imperturbável aos meus anseios de proximidade para ver as vísceras do nosso Philips. Acho que até fui instado - por papai - a tomar distância, e deixar o moço trabalhar em paz. Se não me engano ele era aprendiz atencioso e reputado naquele setor. Tivera prática com um tal Vicente do Rádio, lá da cidade, e agora, no povoado do nosso Brumado, fazia as lições hauridas com o mestre Vicente.

E o Bené se concentrou como pode no seu trabalho - eu mantido a distância para se evitar qualquer ato falho. Era uma tarde, de um sol morno mas brilhante. Menos só que meus olhos naquele fascinante aparato de se desnudava nas mãos do novato. O golpe fatal no entanto veio quando o Bené, sem se dar conta do risco, virou o aparelho de lado e o`dial`, de vidro, apenas encaixado no topo daquele caixote, se projetou rumo ao vermelhão. Sem no olvido cair, o barulho até hoje me ressoa aos ouvidos. Centenas de lasquinhas e o prejuízo vitral.

Benedito, lívido, assumiu o erro, embaraçado, mas sem contestação. Ficou de comprar um reposto logo que fosse à capital. E o fez. Não achou um igual ao original, mas ninguém estava ali para fazer comparações, nome de rádio por nome de rádio, tim-tim por tim-tim. O importante é que se encaixava bem e o cordãozinho voltara a acionar a lingueta pra lá e prá cá. Até que um novo capricho o desalojasse de seus trilhos. Mas aí o Bené já estava escolado.

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