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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Do boteco pro bar - Crônica de Paulo Miranda


Do boteco pro bar, foi o Teco mudar, antes da década de 60 se inaugurar. E não num tico, mas em dous tempos porém, pra não estafar. E tudo ali do lado de cima da pracinha da estação e da fábrica do povoado de São Gonçalo do Brumado.

O boteco era miúdo, singelo e a lembrança que a ele me prende é de ver, e cobiçar, entre as miudezas expostas na vitrine do balcão, os cadernos escolares "Avante", o chaveiro a que se chamava comumente de "pegadô" e os bonés da aba espelhada.

Sem lograrmeus intentos imediatos de terceiro grau, contentei-me com um par de bolinhas de gude que a venda de garrafas vazias, e laboriosamente por mim asseadas, havia produzido. Transação toda efetuada no próprio boteco do Teco. Que, aliás, era parente, de terceiro ou quarto grau.

Já o bar, ah, o bar era mais espaçoso, tinha mesas e cadeiras espalhadas, mesa de sinuca, a geladeira enorme, horizontal, de onde saíam os picolés, os sorvetes e as cervejas que a homaiada do vilarejo consumia e, que para deixarem o registro de seus feitos, dipelavam os respectivos rótulos que se soltavam com facilidade assim que a garrafa começava a "suar", e o passavam para o forro de madeira verde no teto do bar.

E do piso de vermelhão a gurizada - e se quisesse também a muierada - podia apreciar aquele espetáculo inusitado bem acima de nossas cabeças, de rótulos de cerveja colados no teto, como se fosse um ceuzinho particular, estrelado aquele bar.

Nunca cheguei a ver a materialização de uma ação daquelas, mas minha suposição é de que a mágica se produzia com a ajuda de um lenço de bolso, dobrado, bem empapado de umidade, sobre o qual se colocava o rótulo virado com o respectivo traseiro para o forro verde, e com um bom arremesso, garantia de sucesso.

E o bom Teco, cujo nome, pelo visto, era Evaristo, mantinha-se impassível, servindo a freguesia, rodeado das suas muitas graciosas filhas moças que, na falta dum filho varão, em mutirão, nunca o deixavam na mão. E enquanto acumulavam um modesto tesouro quiçá, distraído o olhar do pai, se arriscavam a algum namoro, sem porém perderem o bom decoro.

Um comentário:

  1. Cara, que texto incrível! Li duas vezes. A primeira, silenciosamente. A segunda, em tom de voz trabalhado para soar como o de Arnaldo Antunes - timbre que, dizem, consigo alcançar quando quero (tem base?). Que crônica linda, Paulo. Parabéns!

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