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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Qué interrá não? Comêle!

Nessa época de polêmicas relativas ao aumento da taxa de sepultamento em Pitangui me vei a memória um caso que minha mãe contava. Segundo ela, há muito tempo atrás, lá pelas bandas da localidade de Pedro Nolasco lavradores se juntavam para cultivar a terra em conjunto. Era mês de janeiro e chovia muito e num fim de tarde apareceu um estranho pedindo para passar a noite no rancho construído pelos lavradores. 

Quando amanheceu tentaram acordar o homem mas verificaram que ele havia falecido durante a noite. Sem alternativa resolveram levar o defunto para um enterro digno no cemitério de Pitangui. O problema era a distância, a sede se encontrava a cerca de 20 quilômetros da cidade, o antigo cemitério de escravos da fazenda Ponte Alta já se encontrava desativado e o de Campo Grande ainda não existia e a solução foi improvisar uma padiola e carregar o morto pela estrada lamacenta revezando o ofício entre eles.

Chegaram a Pitangui no fim da tarde debaixo de uma chuva fina, exaustos e sem almoço. Quando procuraram o responsável pelo cemitério foram perguntados pelo "dicumento" do morto. Zezinho da Barba era um dos lavradores e ao se ver indagado sobre os documentos do falecido interveio de forma intempestiva:

Dicumento? Esse hômi apareceu lá na roça onti a noite, pidiu pra posá no nosso rancho e amanheceu morto. Não sabemo nem o nome. Andâmo o dia intero carregano esse defunto debaxo de chuva, não almocemo e tâmo cansado. Qué interrá não? Comêle!

Deram as costas e voltaram para a roça. O defunto? certamente o não foi jantado. 

Vandeir Santos

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