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domingo, 21 de maio de 2017

Falha a talha - Crônica de Paulo Miranda


Já desde os primórdios da sede familiar tivemos o conforto de uma talha para a água de beber. Era um investimento bem mais maciço do que numa bilha - que se comprava à porta - mas que dada a sua maior capacidade, compensava plenamente. E, por termos cisterna, dispensava-se aquela talha de duas seções, com filtro. Usávamos assim a de um bojo só, compridinha, marronzinha e de torneirinha.


O copo era compartilhado. Era de alumínio, que se dizia, espantava os germes - e estávamos todos bebidos. Ficava ele sempre ao lado da pia, que se alojava numa cantoneira de cimento, chumbada na parede do corredor. Chamávamo-lo assim, corredor, pelo seu formato retangular, aquele cômodo que, embora pequenino, dava saídas e entradas para quatro outros cômodos distintos: a sala de entrada, o quarto dos fundos, o banheiro, e cozinha. E ainda comportava um lavabo de louça, encimado por um armarinho com espelho, para o asseio matinal. Assim, a não ser pra beber água, ou para as abluções, ninguém se estacava no corredor.



Esse aparente abandono tinha as suas vantagens, sobretudo quando não se achava o copo de alumínio no seu devido lugar. Tomava-se - suspeita-se - água no bico da talha. Diretamente. Prática veementemente condenada por mamãe: uma falta de educação inafiançável. Bradávamos que não deixávamos a boca se encostar na ponta da torneirinha da talha. Mas não adiantava a desculpa. Era feio e condenável.



E como criança aprende e desaprende depressa, o Nacho, ainda em idade preescolar, teve a oportunidade de sua lição - aliada a uma sede miserável, e a falta do copo d´água em seu lugar. E mais o agravante de a talha estar quase vazia e ter que ser adernada para fornecer o líquido que já guardava no fundo.



Quando ouvimos aquele barulho esquisito, da cozinha ou do quintal, acorremos todos à sua origem: o corredor estava todo molhado, e cacos de cerâmica espalhados por todas as quinze bandas. O único sinal de vida eram as marcas de pezinhos fininhos, molhados, na fuga desabalada pelo piso do quarto e salto à janela.



Ficamos a ponderar o que não teria sido a talha, no seu irremediável salto para o piso de cimento vermelhão e ladrilhos ter encontrado a cabeça do Nacho no trajeto... O guri teve os glúteos poupados - com severas admoestações. E a talha substituta - que ficou muito tempo passando aquele gosto de barro cozido pras nossas bocas, via copo de alumínio - passou a ter nova residência: a caixa da cisterna, liberando a cantoneira para um novo inquilino, pretinho e barulhento como ele só: o telefone de baquelite.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá Márcio.
      Acredito que muitas pessoas terão a mesma impressão ao ler esta crônica..ela descreve lugares que parecem que já percorremos.

      Abraço.

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