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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Os Caminhos dos Tropeiros pelo Centro-Oeste Mineiro

A Picada de Goiás. 
Da página: https://www.facebook.com/groups/valedorioitapecerica/


Por Leonardo Alves*

As tropas eram compostas por mulas que transportavam toda a sorte de mercadorias e por bravos homens que ficavam dias e até meses viajando por estradas de terra e enfrentando todos os tipos de perigo, os tropeiros. Em Minas Gerais, entre o século XVIII e o final do XIX, as mercadorias eram exclusivamente transportadas por tropas, já entre a última década do século XIX e o início do XX, as tropas passaram a ter a concorrência das ferrovias, mas continuaram a ser o principal meio de transporte até o advento das rodovias.

O Centro-Oeste mineiro era rota obrigatória para quem partia de São Paulo e Rio de Janeiro com destino a Goiás, por isso a região foi cortada por uma série de caminhos conhecidos como “picadas” que ligavam vilas, arraiais e fazendas. O caminho mais antigo que atravessava a região era a Trilha dos Bandeirantes, também conhecida como Caminho Velho de Goiás, que partia da Vila de Sabará e cortava a Vila de Pitangui e o Arraial de Paracatu antes de atingir Goiás. Por essa estrada seguia mercadorias caras como sal, tecidos e vinhos vindos do Rio de Janeiro via Vila Rica e no sentido contrário as tropas transportavam ouro e diamantes explorados em Goiás e no Mato Grosso, tendo como destino final Portugal.

O Caminho Novo de Goiás, também conhecido como Picada de Goiás foi aberto entre os anos de 1733 e 1736. O novo caminho partia da Vila de São João Del Rei passando pelos arraiais de Oliveira, Formiga, Bambuí, Araxá e Paracatu. Outras localidades do Centro-Oeste mineiro eram servidas por desvios que se ligavam à estrada principal, sendo esse o caso da Vila de Tamanduá (Itapecerica) e dos arraiais de São João Batista (Morro do Ferro), Candeias, Campo Belo, Cristais, Passa Tempo, Japão (Carmópolis de Minas), Carmo da Mata, Desterro (Marilândia), Cláudio, São Sebastião do Oeste, Pedra do Indaiá, Santo Antônio do Monte, Piumhi, São Julião (Arcos), Iguatama e Espírito Santo do Itapecerica (Divinópolis). É bom lembrar que alguns desses desvios ligavam a Trilha dos Bandeirantes à Picada de Goiás.

As mercadorias transportadas pelos tropeiros através da Picada de Goiás e seus desvios eram diversificadas, sendo que do Rio de Janeiro vinha principalmente sal, tecidos e vinhos e de Goiás seguia ouro, pedras preciosas e algodão. As localidades situadas no Oeste de Minas e Triângulo mantinham um intenso comércio de porcos com o Rio de Janeiro. As boiadas eram vistas com frequência pelas estradas da região da Picada de Goiás, tanto que em Carmo da Mata existe até hoje uma rua que é denominada pelos populares como Rua Boiadeira, numa menção às boiadas que passavam pelo local. Era considerável também a quantidade de couro que as tropas levavam dessas localidades para a capital do Império (século XIX). Dentro do Centro-Oeste mineiro havia um grande fluxo de mercadorias que seguiam de uma localidade à outra, como é o caso dos queijos produzidos em Tamanduá e que eram vendidos nos arraiais da região e até mesmo no Rio de Janeiro. Outro exemplo emblemático é a cachaça de Pitangui que era uma mercadoria muito apreciada em várias localidades da região. Além dos queijos e cachaça havia também um intenso comércio de rapaduras e açúcar. A carne seca, o torresmo, o feijão e as farinhas de milho e mandioca eram transportados pelas tropas, sendo gêneros básicos para a alimentação dos tropeiros.

Ao longo das “picadas” era comum a existência de estalagens (pouso de tropeiros) que eram locais destinados ao descanso e abastecimento das tropas. Algumas localidades como Oliveira e Camacho surgiram a partir da implantação de ranchos que eram utilizados como estalagens para os tropeiros. O povoado de Pouso Alegre, que fica na zona rural de Itapecerica deve seu nome a um pouso de tropas que existia no local junto à margem da Picada de Goiás. O distrito de Marilândia, em sua fase áurea, também contava com algumas estalagens e tavernas que serviam aos tropeiros que faziam a rota entre São João Del Rei e Pitangui.

Referências Bibliográficas:

- ARAÚJO, Célia Lamounier de. Itapecerica: antologia n° 1. Consórcio Mineiro de Comunicação LTDA: Belo Horizonte, 1993.
- BARRETO, Lázaro. Memorial do Desterro. Diocese de Divinópolis: Divinópolis, 1995.
- FONSECA, Luís Gonzaga da. História de Oliveira. Edição Centenário: Oliveira, 1961.
- PREFEITURA MUNICIPAL DE CLÁUDIO. História de Cláudio. Disponível em http://www.claudio.mg.gov.br/portal/cidade/12/Cidade. Acesso em: 14 mar. 2016
- PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO FRANCISCO DE PAULA. História de São Francisco de Paula. Disponível em: http://www.saofranciscodepaula.mg.gov.br/Materia_especifica/6495/Historia.



Artigo publicado originalmente em: https://www.facebook.com/groups/valedorioitapecerica/


Tropa de mulas em Carmo da Mata-MG no início do século XX.
Foto: Acervo de Aparecida Matos.



(*) Leonardo Alves é Mestre em Geografia e pesquisador da Região da Picada de Goiás (na qual Pitangui está inserida), sob o o enfoque histórico, cultural e turístico.


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